GRÉCIA ou GREXIT – Breve suspiro sem solução: o furor moral

Nesta semana o Parlamento Grego aceitou os termos do EuroGrupo e se comprometeu com a proposta / exigência de seus credores e aprovou o pacote de mais reformas econômicas austeras. A aprovação foi exigida como um pré-requisito pelos negociadores alemães para a consumação do novo resgate da União Europeia. O que mudou no tabuleiro europeu com esta transformação? Como a crise econômica torna-se cada dia mais uma crise política que ameaça a integração europeia? É isso que tentamos responder neste artigo.
Blog por #épolítica  

Nesta semana o Parlamento Grego, indo na contramão do que o povo indicara no plebiscito de domingo retrasado, aceitou os termos do EuroGrupo e se comprometeu com a proposta / exigência de seus credores e aprovou o pacote de mais reformas econômicas austeras por 228 votos a favor e 64 contra. A aprovação do pacote apresentado pelo primeiro ministro Alexis Tsipras foi exigida como um pré-requisito pelos negociadores alemães para a consumação do novo resgate da União Europeia. O esforço de convencimento dos seus colegas partidários foi bastante penoso. O partido do governo – a Coalizão Radical de Esquerda (Syriza) – detém nada menos do que 149 cadeiras dos 300 assentos do parlamento grego e fora eleito justamente numa bandeira de defesa do povo grego contra a austeridade europeia.

A votação foi recebida com hostilidade por grande parte da juventude grega, justamente a fatia da população que está arcando com a maior parte dos custos das políticas de austeridade impostas pelas potências europeias. O fardo humanitário e social imposto a sociedade grega não é pequeno. Cerca de 40% das pessoas passaram a viver na pobreza e nada menos do que 50% dos jovens estão desempregados.

Inclusive, sensíveis às demandas populares, algumas das principais lideranças do próprio Syriza abandonaram seus postos, rejeitando o que acham ser uma intervenção ainda maior das potências europeias sobre a soberania grega. Seguindo o exemplo do Ministro das Finanças Yanis Varoufaki que renunciou no dia seguinte ao plebiscito, a secretária executiva do mesmo ministério, Nadia Valavani, anunciou sua demissão. Ambos defendem que a melhor solução é o retorno à moeda dracma e a saída da Grécia da Zona do Euro.

A posição política de Tsipras como líder do governo está bem enfraquecida, após ter traído tanto o mandato de seu partido quanto a escolha feita pelo povo grego no plebiscito retrasado. A timidez é tão clara que no próprio discurso de defesa do pacote de reformas, Tsipras apontou claramente a debilidade de sua posição, assumindo não acreditar no que foi acordado em Bruxelas como uma solução possível para a crise econômica. Sua posição de defesa do pacote parte de um único pressuposto: melhor assinar um mal acordo do que assistir a expulsão de seu país da zona do Euro. Isto porque o ministro das finanças alemão Wolfgang Schaube passou a considerar como viável nas últimas rodadas de negociação o GREXIT, levando à Bruxelas uma proposta de expulsão temporária da Grécia da zona monetária.

A única novidade no campo político favorável ao governo grego foi em face do endurecimento inesperado (e em certo ponto irracional) alemão, o próprio Fundo Monetário Internacional (FMI) anunciou que estuda a possibilidade de se retirar das discussões do resgate caso não haja um alívio relevante na enorme dívida grega. Na visão do escritório de Christine Laguarde não há possibilidade da Grécia pagar sua gigantesca dívida de 180% de todo o seu Produto Interno Bruto (PIB). Isto porque com as medidas de austeridade e o encolhimento do PIB grego – já reduzido em ¼ de seu valor nos últimos anos – a fração dívida pública / PIB deve atingir nos próximos dois anos a impressionantes 200%.

Por outro lado, no reposicionamento das peças e opções políticas na crise europeia, também não é fácil politicamente a posição da atual chancelar alemã Angela Merkel. Isto porque por mais que o volume do montante da dívida grega seja em parte culpa dos credores que não fizeram um trabalho adequado de mensuração dos riscos dos enormes empréstimos dados aos atores econômicos e ao governo grego, existem instituições gregas que estão em tensão com as necessidades de um maior disciplinamento fiscal e maior eficiência das economias modernas numa era de mercado globalizado.

Alguns dados levantados pelo ex-ministro Luis Felipe Lampréia chamam atenção para a trágica farra fiscal que acontece nas terras de Aristóteles: um em cada quatro contribuintes gregos não pagam impostos; existem cerca de 50 motoristas para cada carro oficial; cerca de 23% da população grega é composta de funcionários públicos (3 milhões de servidores numa população de 13 milhões); 1763 servidores protegem as águas do Lago Kopais, seco desde 1930; os aposentados gregos recebem 96% de seu salário, enquanto os franceses 51% e os alemães 40%; entre outras prodigalidades.

Posto isto, é extremamente impopular dentro da Alemanha qualquer condescendência com o desastre econômico grego, sobretudo quando outros países em face de situação similar, como Portugal e Espanha, encaram de maneira corajosa os projetos austeros e foram capazes de recolocar seus países em uma rota do crescimento de suas economias, ainda que tenham pagado enormes custos sociais para tal.

O contribuinte alemão está pouco satisfeito com o fato de ser chamado mais uma vez a salvar o país mediterrâneo de seus problemas econômicos, por mais que no longo prazo a própria existência da União Europeia e da zona do euro tenha sido mais benéfica que prejudicial aos interesses econômicos alemães. A história contada na Alemanha é clara, tal como no relato do historiador econômico Jacob Soll feito recentemente nas páginas no New York Times: existe uma luta moral na União Europeia entre os trabalhadores honestos do norte da Europa, contra os corruptos, incompetentes e não confiáveis gregos.

A opinião pública de qualquer país, em situações como esta, tende a responder de forma muito mais emocional que racional. Diante de tal humor popular, Angela Merkel se vê num impasse no qual, qualquer concessão à Grécia será inevitavelmente considerada uma vitória de Tsipras, e provavelmente será cobrada dela nas próximas eleições alemãs.

Enfim, a tragédia greca-alemã indica, na verdade, um enorme fracasso da unificação monetária europeia. A atual conformação econômica europeia, tal como previsto pelo economista Robert Mundell, que na década de 1960 já indicava que processos de integração monetária fossem acompanhados de uma integração fiscal, é inadequada. Entre outros fatores, as diferentes produtividades dos trabalhadores europeus, a menor mobilidade da força de trabalho e a independência fiscal dos países membros são uma combinação explosiva.

Sem o avanço da integração econômica, a tragédia grega é e será inevitável. E hoje nem mesmo a política joga a favor desta integração. Os nacionalismos alemão e grego voltam-se para os próprios umbigos, deixando de lado todo os esforços de cooperação política e econômica nos últimos 25 anos que viabilizaram o aprofundamento da integração europeia.

As necessidades internas de Merkel de garantir o apoio de seu eleitorado conservador alemão lhe fazem servir aos interesses do euro-céticos: atuar de forma contrária ao aumento da integração europeia.

 

Ivan Fernandes escreve toda sexta-feira no #épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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