A crise da dívida grega: é a POLÍTICA ESTÚPIDO

Mais uma vez o debate econômico e o político se misturam. Nesse artigo discutimos as raízes políticas do impasse europeu e como não podemos considerar como tão claro o resultado do plebiscito grego como uma grande vitória da democracia. A disputa política e a legitimidade democrática das decisões na União Europeia e na Zona do Euro são muito mais complexas que o debate apresentado na última semana.
Blog por #épolítica  

A vitória do NÃO no plebiscito grego no domingo passado sobre a aceitação de um novo pacote de políticas econômicas austeras proposto pelo EUROGRUPO criou um dilema de enormes proporções para a união monetária europeia. Como é possível, ao mesmo tempo, a União Europeia atender às demandas contraditórias das duas principais fontes de legitimidade dos regimes democráticos contemporâneos e do próprio processo de integração europeu: as exigências da democracia política e do funcionamento de uma economia de mercado.  

Isto porque, à primeira vista, mercado e democracia encontram-se em posições distintas. Ao ser chamado para opinar sobre o seu futuro, o povo grego foi bem claro dizendo com força que não tolerará mais a adoção de políticas de austeridade impostas pela TROIKA, o conjunto de credores da dívida grega, em troca de ajuda financeira para o pagamento da dívida grega.

Ao longo dos últimos anos, as exigências dos credores levaram a uma grande derrocada da economia grega, com queda no PIB grego de mais de 30% e crescimento dos níveis de desemprego a índices alarmantes, o que está impedindo a retomada do crescimento econômico e o surgimento de um ciclo virtuoso que permita que a sociedade grega supere os seus grandes problemas econômicos.

Por outro lado, mesmo do ponto de vista do jogo político democrático que cerca a difícil decisão a ser tomada pela União Europeia, a questão é muito mais complexa. A posição do eleitorado grego representa apenas um dos atores no intricado jogo político – econômico europeu. Uma análise cuidadosa dos fatos não pode deixar de considerar o fato de que do outro lado da disputa econômica também existem lideranças políticas que são responsabilizadas eleitoralmente pelos seus atos, a primeira ministra e o ministro das finanças alemães.

Mesmo que a economia grega seja apenas uma pequenina fração do PIB europeu, a líder alemã Angela Merkel tem que considerar nas suas ações e decisões econômicas o impacto que qualquer medida tomada terá sobre o eleitorado alemão. Caso Merkel opte por curvar-se diante das exigências do governo grego por uma postura de negociação mais branda, ela estará indo diretamente contra a opinião da esmagadora maioria dos alemães, que se opõem a mais medidas de ajuda à Grécia.

O instituto de pesquisa Forschungsgruppe Wahlen publicou no dia 12 de junho pesquisa na qual foi constatado que apenas 24% dos alemães defendem a aplicações de termos mais lenientes no bailout da dívida grega, em quanto 70% exigem medidas mais duras. Outra pesquisa, apresentada pelo instituto Infratest Dimap, indicou que cerca de 48% dos alemães defendem a saída da Grécia da zona do euro, enquanto apenas 43% são contra esta possível solução para a crise.

Isto posto, é evidente que a opinião pública alemã, diferentemente da grega, não entende que a redução das exigências feitas ao governo grego seja algo positivo. O público para o qual Merkel responde pelos seus atos entende que as causas fundamentais da atual crise econômica europeia estão na própria conduta dos chefes do estado grego, ao não terem feito de maneira correta a lição de casa econômica, e por isso a conta não deve ser paga pelo povo alemão.

Isto é, na visão da opinião pública alemã, as exigências dos credores estão associadas ao fato de que os grandes semeadores da crise grega foram os próprios líderes gregos e por isso é obrigação do próprio estado grego resolver seus dilemas econômicos, sem transferir à conta para outras nações.

Desta forma, é fundamental considerar que a atitude do governo alemão de manter uma linha estrita e dura em relação à solução do problema grego não decorre de uma visão exageradamente liberal do mundo da economia, ignorando o papel que o Estado pode ter na condução econômica de seus respectivos países e mesmo a integração econômica europeia.

As análises que colocam um peso excessivo nas causas econômicas do impassem esquecem de considerar que a crise econômica grega é inofensiva à estabilidade europeia – já que a Grécia é responsável por apenas 1,5% de todo o PIB da União Europeia.

A razão fundamental da atitude menos tolerante que o governo alemão toma diante da crise, mesmo sofrendo pressões dos Estados Unidos e da França, decorre justamente dos mesmos mecanismos por meio dos quais o povo grego rejeito um novo pacote de austeridade: a DEMOCRACIA e a necessidade de os líderes políticos europeus responderem apenas nacionalmente por seus atos.

Os problemas da integração europeia são fundamentalmente políticos. Muito mais do que uma falta de integração continental das políticas fiscais de cada um dos países, o grande nó górdio do impasse sobre a dívida grega são as diferentes constituencies políticas perante a qual cada um dos participantes da mesa de negociação responde. Enquanto o povo grego mostrou de maneira cabal que não suporta as políticas de austeridade, o povo alemão por sua vez não entende que uma política menos severa com a Grécia está de acordo com os interesses nacionais.

Logo, a questão é muito mais problemática do que qualquer análise econômica. Invertendo o adágio feito na década de 1990, na questão europeia o problema é a POLÍTICA, estúpido.

 

Ivan Fernandes escreve toda sexta-feira no #épolítica
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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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