O Fim do Lulismo

É difícil imaginar que a recuperação da economia brasileira ocorrerá em velocidade suficiente para que o Lulismo sobreviva. Assim, o retorno de Lula em 2018 pode não apenas ser inócuo, como também um erro estratégico, visto que o PT precisa lidar  o quanto antes com o realinhamento do eleitorado brasileiro.
Blog por #épolítica  

O Lulismo, rótulo dado à principal tendência eleitoral brasileira dos últimos 15 anos, está perto de seu fim - ou ao menos próximo de perder seu protagonismo na definição de eleições presidenciais.

O que isto implica? Uma maior chance de vitória oposicionista em 2018 e o início de um novo ciclo eleitoral, que nem mesmo o "volta, Lula" parece capaz de abortar. Ainda assim, pode ser o espaço necessário para que o petismo se reinvente no longo prazo, oxigenado e menos dependente do arranjo lulista.

O que é o Lulismo?
Embora seja um lugar comum da crônica política, o termo "Lulismo" tem um significado especial para a Ciência Política, com base nos trabalhos publicados por André Singer - que, além de pesquisador e professor da Universidade de São Paulo, foi porta-voz do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Em resumo, Singer afirma que o conjunto de políticas públicas redistributivas adotadas durante o primeiro mandato de Lula, bem como o estouro do escândalo do "Mensalão", forjaram uma transformação nas bases eleitorais dos partidos brasileiros.

Você pode não se lembrar, mas há alguns anos, o PT nutria a simpatia do eleitorado urbano de classe média, ao passo em que eleitores do nordeste e das periferias de grandes cidades brasileiras votavam maciçamente em candidatos conservadores, de partidos oriundos da velha ARENA.

Até a primeira eleição de Lula, em 2002, este esquema parecia mantido. Todavia, o coquetel “políticas públicas + mensalão” teria forjado uma mudança nessa orientação eleitoral, levando ao Lulismo descrito por Singer.

Assim, a partir de 2006 inverteu-se o esquema. A classe média urbana abandonou a base eleitoral petista após o escândalo do Mensalão, em especial, ao passo em que os eleitores nordestinos e das periferias de regiões metropolitanas passaram a optar pelo PT e seus aliados políticos.

Com ou sem Lula, é o ciclo eleitoral provocado por estas mudanças que está perto do seu final.

Ascensão e Queda
E qual a razão da derrocada do Lulismo? Algumas razões podem ser levantadas, como a exaustão de políticas públicas redistributivas diante de um cenário macroeconômico frágil, em especial para o mercado de trabalho.

O famigerado estelionato eleitoral de Dilma Rousseff, com a adoção de medidas econômicas ortodoxas, pode estar diretamente relacionado a uma estratégia que visa sangrar no curto prazo, visando uma retomada do emprego e da renda até 2018, a fim de que o esquema Lulista seja mantido.

2014, o último ato do Lulismo
Foi o eleitorado de mais baixa renda quem garantiu a reeleição de Dilma Rousseff.

Mas isto não ocorreu antes das últimas semanas de campanha presidencial, quando os eleitores de renda familiar média inferior a cinco salários mínimos voltaram a sinalizar sua intenção de voto na candidatura petista.

No começo do segundo turno, Aécio ainda era preferido por boa parte destes eleitores, algo que nenhum candidato tucano fora capaz de fazer desde 2006.

Não à toa, Dilma recuperou os eleitores lulistas após a bem sucedida estratégia de comunicação petista relembrar aos eleitores os elevados níveis de desemprego da década de 1990, bem como as sucessivas crises da economia internacional prévias ao governo Lula.

A mensagem pode ter sido efetiva durante a campanha de 2014, mas parece insuficiente para garantir a manutenção do arranjo eleitoral Lulista até 2018.

Sobrevivência Ameaçada
Neste momento, parece difícil imaginar que a recuperação da economia brasileira ocorrerá em velocidade suficiente para que o Lulismo sobreviva. Deste modo, um retorno de Lula para a disputa em 2018 pode não apenas ser inócuo, como um erro estratégico, visto que o PT precisará lidar com o realinhamento do eleitorado brasileiro.

Para a oposição, liderada ou não pelo PSDB, isto significa chances crescentes de voltar ao Planalto – embora com a pressão por manter o conjunto de políticas redistributivas criado recentemente. 

Já para o PT, a capacidade de ler a mudança no eleitorado, oferecendo uma alternativa ao arranjo Lulista, pode ser fundamental para manter seu protagonismo político – ainda que não mais como situação.

Um novo escândalo de corrupção, somado à fragilidade econômica, a baixa popularidade e as dificuldades de coordenação política do segundo mandato de Dilma Rousseff, apenas reforçam a urgência dessa mudança pelo PT. 

Vítor Oliveira escreve toda segunda-feira no #épolítica
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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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