Como explicar o aumento da rejeição ao PT durante a eleição de 2014?

Não foi somente na eleição presidencial que houve queda de votos. No estado de São Paulo também diminuiu consideravelmente os votos para todos os cargos disputados pelos petistas: deputado estadual, federal, senador e governador.
Blog por #épolítica  

Ao término do primeiro turno das eleições de 2014 um deputado federal do PSDB de São Paulo explicava aos microfones da Rádio Estadão o sucesso do PT nas eleições mineiras: “por lá, ao contrário daqui, nós não criamos um sentimento de anti-petismo”. Pois bem: o segundo turno consagraria Dilma Rousseff (PT) reeleita, e se em Minas Gerais Aécio Neves tivesse uma votação histórica o resultado teria sido outro. A vitória do PT, no entanto, contrastou com um resultado bem diferente em São Paulo, o que de fato houve no estado Bandeirante?

As eleições de 2010 foram marcadas pelo alto índice de aprovação do governo Lula, batendo na casa de 80%. Parte dessa porcentagem foi transferida para a ex-ministra da Casa Civil, que venceu o pleito sobre o tucano, José Serra. Em março de 2013, portanto antes das manifestações de junho, Dilma atingiria o seu teto de aprovação com 63% de ótimo e bom. Desde então assistimos queda acentuada por boa parte do tempo. Em 15 de junho de 2014, duas semanas antes do início da campanha eleitoral e imediatamente após o início da Copa do Mundo, o governo registrou o seu menor índice de aprovação: 31%. Estaria a reeleição comprometida? Nos meses seguintes Dilma recuperou apoio com a campanha, e numa subida constante marcou, faltando três dias para o segundo turno, 45% de aprovação.

A votação em São Paulo, no entanto, maior colégio eleitoral do país, mostrou derrota acentuada. Seria uma rejeição a Dilma ou ao PT? Seria um sentimento democrático pela alternância do poder, representado na candidatura de Aécio Neves? Se a rejeição foi ao PT, como se comportaram os números em cidades administradas pelo partido? Se o desejo tem relação com a pura alternância, o que explicaria a vitória do governador do estado para chegar a 24 anos de PSDB no poder paulista?

A análise dos dados do PT em seu berço, São Paulo, parte dos índices registrados por Dilma no ano de 2010. Naquele pleito, José Serra venceu no estado com 54,1%, contra 45,9% de Dilma – placar invertido em relação ao resultado nacional. Em 2014, Dilma teve 35,69%, ou seja, Aécio atingiu quase dois terços dos votos válidos dos paulistas. No segundo turno um movimento contra o governo petista se intensificou pelas ruas paulistanas, com a presença de cidadãos nas ruas, o que há muito tempo não pautava eleições – algo que Lula reconheceu em vídeo recente em que falou sobre a participação dos eleitores, e também algo contraposto por manifestações pró-PT, como aquela ocorrida na PUC-SP dias antes.

Mas, não foi somente na eleição presidencial que houve queda de votos. No estado de São Paulo também diminuiu consideravelmente os votos para todos os cargos disputados pelos petistas: deputado estadual, federal, senador e governador. Em 2006, o PT abalado pelo escândalo do mensalão, viu sua votação diminuir bastante em relação a registrada em 2002, mas em 2010 recuperou seus números totais. Em 2014, entretanto, os resultados foram menores do que 2006. Para o cargo de governador, por exemplo, desde 1994, com José Dirceu (14,9%) o partido não ficava abaixo dos vinte pontos percentuais – Alexandre Padilha marcou 18%, e as pesquisas esperavam menos que isso. O gráfico 1 mostra o declínio em relação à presença histórica do partido.

 

Gráfico 1 – Votação do PT em São Paulo – 2002 a 2014

 

Votação do PT em São Paulo  cargos disputados estadualmente – 2002 a 2014

O que explicaria esse declínio? A rejeição ao partido, construída em campanhas de adversários tradicionais como o PSDB, bem como por partidos mais conservadores que, por vezes se travestem de aliados governistas, mas também costumam atacar, seria verificada, até mesmo, em cidades administradas pelo partido? A pergunta é relevante, pois algumas análises dão conta que a má avaliação do prefeito Fernando Haddad na capital poderia ter prejudicado Padilha. Vejamos.

Com a chegada do PT ao governo federal, em 2002, o partido viu aumentar o número de prefeituras paulistas. Em 2000, a administração petista estava presente em 33 cidades, e dois anos após a vitória de Lula, subiu para 58 municípios. Nestes locais, haveria transferência de votos para cargos disputados em intervalo de dois anos – estado e União? O Gráfico 2 tenta responder à questão.

Gráfico 2 – Cidades em que o PT venceu o pleito municipal e eleição presidencial seguinte

 

 

Podemos perceber que das 58 cidades conquistadas em 2004, houve um crescimento de 11% no número de votos para as eleições de 2006, onde Lula disputou com Alckmin. Das 63 cidades vencidas pelo PT, em 2008, o partido conseguiu transferir para Dilma, em 2010, um acréscimo de 0,34% no total de votos.

Não nos cabe uma leitura da atuação política petista nessas cidades, mas analisar a identificação dos governos municipais com a legenda e se isso transfere votos para o PT na eleição nacional – o que estudos já mostraram que não ocorre. Para se ter uma ideia, a média de votos conquistados pelo PT em 2004 nas 58 cidades, ficou em 52,93%, e nas eleições de 2006, nas mesmas cidades, a média foi de 48,21%. A diferença negativa da eleição municipal para a presidencial acontece do mesmo modo nas comparações seguintes. Nas 63 cidades em 2008, a média de votos do PT foi de 55,55%, e no pleito de 2010, essa média caiu para 47,92%.

Em 2012, pelos dados do TSE, o PT conquistou 72 cidades paulistas, incluindo a capital do estado, totalizando 5,6 milhões de votos só nessas cidades. Agora, nas eleições de 2014 as cidades petistas totalizaram 3,9 milhões de votos, o que significa uma perda de 28,50% do total de dois anos atrás. Além disso, a média de votos válidos para o PT, nessas mesmas 72 cidades, foi de 57,25% em 2012. Somente em uma delas o PT teve mais votos em 2014, nas demais sequer empatou com os números de 2012, ficando bem abaixo da força partidária demonstrada na votação para prefeito.

A média de votos em 2014 ficou em 35,20%, ou seja, vinte e dois pontos percentuais a menos que em 2012. Assim, nas cidades governadas pelo PT, a votação da agremiação só foi maior que a adesão aos tucanos em seis cidades: Barra do Turvo, Cubatão, Guapiara, Itapirapuã Paulista, Monte Castelo e Nantes, essa última foi a única que o os petistas tiveram mais votos em relação a 2012, passando de 969 para 1.009 votos em 2014.

Fica claro que aos longos desses doze anos de governo federal comandados pelo PT, houve aumento esperado de cidades paulistas administradas pelo partido (algo que teses da Ciência Política mostram como comportamento esperado), mas não houve o mesmo aumento na transferência de votos nas eleições para presidente - sequer a votação de Dilma, em 2014, empatou com a votação de prefeitos em 2012. Isso pode ser explicado pelo fato de o aumento no número de prefeituras conquistadas estar associado à quantidade de candidaturas ao longo do tempo. Em 2000, tivemos 163 candidatos a prefeito disputando cidades pelo PT, em 2004 foram 298 candidatos, diminuindo para 211 em 2008, e subindo para 256 petistas em 2012.

Para além dessa tentativa de compreender as eleições municipais e sua relação com o que poderíamos chamar de um anti-petismo paulista, pesquisas que analisam a identificação partidária do eleitorado sempre apresentaram índices favoráveis ao PT. A sigla é aquela que, no Brasil, mais tem poder para atrair simpatizantes. Percebemos isso no total de votos de legenda, ou seja: o eleitor não decide em qual Deputado Estadual ou Federal votar, simplesmente digita o número do partido (13).

Em comparação no estado de São Paulo, somados os votos de legenda para Deputados Estadual e Federal, o PT esteve a frente do seu principal opositor, o PSDB, nos últimos anos. Mas até mesmo este indicador, relevante em termos partidários, mostrou decréscimo do PT em 2014. O Gráfico 3 ilustra tal posição, deixando claro o afastamento em relação aos anos anteriores, incluindo 2006, quando o partido não foi tão bem para o pleito de governador, mas ainda assim manteve altos níveis de adesão do eleitorado aos cargos de deputados por meio do volume de votos de legenda.

Importante salientar que a despeito desse indicador o partido poderia ter mudado sua estratégia, e investido sobre votações nominais de seus candidatos. Isso não ocorreu: na Assembleia Legislativa o partido encolheu seu total de eleitos em oito deputados e na Câmara dos Deputados, entre os petistas paulistas, a redução foi de seis vagas.

 

Gráfico 3 – Votação de legenda do PT em São Paulo: Deputados estaduais e federais – 2002 a 2014

 

Diante do resultado colhido, tão preocupante quanto ao PSDB tem sido entrar no Nordeste do país, onde conquista alguns estados, controla algumas prefeituras, com destaque para poucas capitais, mas não tem boa performance em pleitos presidenciais desde, principalmente 2006, ao PT fica o desafio de compreender o quanto a lógica do anti-petismo paulista tem reduzido de forma significativa as chances da legenda conquistar o estado. Tal desafio passa não mais por entender como chegar ao cargo de governador, mas também como voltar a conquistar expressiva votação de legenda e número significativo de cadeiras nos postos legislativos.

#épolítica
Humberto Dantas e Samuel Augusto Oliveira*

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*Gestor público e pós-graduando em Ciência Política (Especial para o #épolítica)

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com