Com drama e sem aceno aos mercados, Dilma mostra força da democracia

Como saldo positivo desta campanha, em nenhum momento a legitimidade do pleito foi posta em questão, mesmo com uma vitória apertada da candidatura à reeleição da presidenta Dilma Rousseff. Não há espaço para hegemonia de qualquer partido político – seja sobre o Congresso ou sobre o voto – e nem existe nenhum midas político no Brasil.
Blog por #épolítica  

Encerrou-se a mais surpreendente eleição presidencial brasileira, desde a redemocratização, com a vitória de Dilma Rousseff (PT) sobre Aécio Neves (PSDB) no segundo turno, por apertados 51,64% a 48,36% dos votos válidos.

Como saldo positivo desta campanha, em nenhum momento a legitimidade do pleito foi posta em questão, mesmo com uma vitória apertada da candidatura à reeleição da presidenta Dilma Rousseff.

Há aqui um sinal claro e límpido da maturidade democrática das instituições, da sociedade e da política brasileira. Mesmo a vitória tendo sido conquista à lá Libertadores, com gol aos 45 minutos do 2º tempo, não existem reclamações sérias sobre a legitimidade do pleito.

O eleitorado e as elites políticas brasileiras, finalmente, consideram que uma vitória por meio a zero vale os mesmos três pontos do que uma vitória acachapante de uma goleada mágica de cinco gols a zero.

1 - Uma Democracia Viva!
Algumas lições importantes podem ser tiradas deste pleito – lições que vão contra a visão comum da crônica política brasileira e que mostram a maturidade da democracia e dos partidos nacionais.

A primeira lição é que a democracia brasileira mostra-se mais viva do que nunca. Não há espaço para hegemonia de qualquer partido político – seja sobre o Congresso ou sobre o voto – e nem existe nenhum midas político no Brasil. A tensa e conflitiva disputa voto a voto pela vitória no 2º turno das eleições demonstra que as coalizões políticas brasileiras estão bem estruturadas e de fato representam grupos dentro da sociedade brasileira.

2 - E não é que os partidos existem?
A segunda lição é que os partidos brasileiros existem! De direito e também de fato! A velha ladainha da crônica política – e mesmo da literatura acadêmica – de que os partidos brasileiros são estruturas amorfas, que não possuem representatividade na sociedade, é a cada eleição – e ainda mais claro nessa – reprovada!

Os partidos brasileiros – sobretudo os dois principais líderes das coalizões situacionista e oposicionista, PT e PSDB – estruturam de fato o voto, o debate e a cada ano tornam mais sólidas suas raízes na sociedade brasileira.

Caberia aqui uma discussão metodológica a respeito dos problemas do uso da volatilidade eleitoral nos votos para as eleições legislativas – que são as usualmente utilizadas na literatura acadêmica para mensurar a força e estabilidade das estruturas partidárias; contudo, optamos por deixar a tecnicidade deste argumento sobre a literatura para outro post.

Apontamos, de outra forma, que essa literatura erra ao analisar o caso brasileiro, pois sem sombra de dúvidas os pleitos principais que organizam as coalizões políticas no Brasil são as eleições majoritárias para governadores (que organizam o debate regional) e a eleição presidencial – que estrutura de maneira incisiva e impiedosa o debate político nacional.

Sem partido, sem voto
Inclusive, tivemos nesta eleição o primeiro ensaio de grande envergadura de uma candidatura alternativa – ainda que estruturada às pressas após o terrível acidente que ceifou a vida do então candidato e ex-governador Eduardo Campos. Marina da Silva se apresentou como candidata de grande viabilidade e com capacidade de propor um novo programa diferente dos líderes das duas coalizões. Inclusive, sem entrar nos méritos da discussão ponto a ponto de cada material de campanha, foi a candidatura que elaborou o documento mais complexo e consolidada de uma proposta de plano de governo.

Mas a estrutura eleitoral – partidária foi impiedosa. Em menos de um mês todo o capital político conseguido por Marina, que associava sua imagem às manifestações de junho de 2013 e somava-se à superexposição após o acidente em Santos, foi completamente demolida pela ação conjunta dos candidatos do duopólio, ainda que a desconstrução da propaganda governista tenha sido assaz violenta – tendo, inclusive, grande responsabilidade pelo mais violento debate entre candidatos em um 2º turno visto na história desse país.

3 - Um país dividido?
A vitória de Dilma por apenas 3,28 pontos percentuais de votos válidos ou pouco mais de 3 milhões de votos, num universo quase 143 milhões de eleitores registrados, é muito apertada. E inclusive ambos os candidatos em seus discursos pós declaração dos resultados indicaram a necessidade de se reunificar o país. Diante disto, é necessário refletir sobre o quanto de fato o país está dividido.

A primeira consequência é que desta vez o presidente eleito não terá a tradicional lua de mel em seus primeiros meses após a posse. Seu governo já nascerá velho, em ambiente hostil dado por críticas e denúncias.

As urnas serviram para pesar suas decisões e ações, diferentemente das eleições de 1998 e 2006, quando FHC e Lula foram reeleitos com largas maiorias. Comparativamente, a oposição teve seu fôlego renovado, mesmo que as cartas ainda sejam dadas pela presidenta.

Bola na mão?
Em segundo lugar, é preciso ter ponderação para analisar as declamações mais efusivas e rancorosas de eleitores que viram seu candidato perder a eleição. Fora as declarações de cunho racista e xenófobo – que devidamente punidas – é necessário entender a frustação de quem perdeu de maneira tão apertada.

Assim como em um jogo de futebol disputado, é natural que os torcedores do time que perdeu nos minutos finais acusem o juiz de ter invertido uma falta no meio campo ou mesmo de ter dado muitos minutos de acréscimo ao final do jogo.

As declarações contra o bom senso dos eleitores que garantiram a vitória da Dilma Rousseff por parte de eleitores de Aécio Neves são tão naturais como, em caso de vitória de Aécio, os eleitores de Dilma criticariam aqueles que garantiram a vitória da oposição (o exemplo da vitória de Geraldo Alckmin em São Paulo no 1º turno ilustra bem essa natural reação dos eleitores do candidato derrotado).

4 - A reação de Dilma
Por outro lado, e o que importa para a nação, é preciso entender o significado do discurso da vitória de Dilma e do reconhecimento da derrota por Aécio. O discurso do tucano foi breve, logo reconhecendo a legitimidade da vitória de Dilma. Ponto para a democracia. Em seguida apontou para a necessidade de reunir o Brasil. Por sua vez, a presidenta Dilma fez menções à necessidade de reunir o país após eleições tão divididas, mas nenhuma alusão em especial foi feita ao estado que representa a força da principal oposição ao governo – o estado de São Paulo.

O principal mote do discurso da candidata reeleita foi como dar prosseguimento ao clamor por mudanças apontado pela sociedade brasileira nas manifestações de junho de 2013. E mais uma vez o grande espantalho, aquele que indica tudo sem apontar a nada, foi levantado: a Reforma Política; e em seu viés mais demagógico: um plebiscito.

Tal argumento já fora levantada pela presidenta durante as manifestações, o que indica, talvez, que o tal elemento novo deste 2º mandato não o distancie muito do que foi o primeiro. Contudo, as cartas ainda serão postas na mesa e mudanças pós – eleitorais podem (e devem) acontecer.

Nenhuma aceno ao mercado
Por fim, outro elemento ausente do discurso da vitória foram acenos de mudanças na política econômica do governo. O ministro demissionário Guido Mantega continua sem substituto à altura, enquanto é esperado que na próxima semana o mercado reaja à derrota do seu candidato preferido, Aécio Neves.

Resta agora saber qual decisão sobre a orientação econômica do próximo governo será tomada. O ensaio neodesenvolvimentista será mantido, assim como as práticas rejeitas pelos mercados, como a contabilidade criativa? Ou serão tomadas decisões mais pragmáticas, como as tomadas durante a gestão Lula?

#épolítica
Ivan Fernandes

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com