Debate e novas denúncias não devem reduzir chances de Dilma Rousseff

O eleitorado sensível à temática da corrupção já migrou para a candidatura de Aécio a longa data, sobretudo por não ser de hoje o esforço do PSDB em rotular o partido adversário como mais afeito à corrupção (seja verdadeiro ou falso tal argumento).
Blog por #épolítica  

As pesquisas Ibope e o Datafolha indicaram um resultado semelhante e desagradável para o eleitorado tucano, na última quinta-feira (23). Pela primeira vez ao longo deste disputadíssimo 2º turno, alguém escapou das famigeradas margens de erro e assumiu a liderança.

Enquanto a vantagem de Dilma Rousseff no Datafolha é de 6 pontos percentuais – 53% à 47% –, a vantagem de acordo com o Ibope é ainda maior: 8 pontos percentuais – 54% à 46% (sempre em votos válidos).

Tal cenário parece confirmar a virada petista, após o fôlego ganho pela campanha situacionista na última semana, revertendo o quadro pró-Aécio que emergiu de imediato após o 1º turno. Nem mesmo o último debate televisivo, ou as novas denúncias feitas pela revista Veja devem mudar o quadro.

Rejeição
Praticamente todas as outras candidaturas se aliaram a Aécio Neves. Mesmo o arredio grupo da candidata Marina Silva – a Rede Sustentabilidade – e o partido pelo qual competiu em 2014 – o PSB, parceiro petista de outras eleições.

Além disso, outro dado torna mais difícil a tarefa tucana de derrotar a atual presidente – os índices de rejeição foram invertidos. Hoje a rejeição a Aécio Neves, segundo o Ibope, é maior do que a rejeição a Dilma Rousseff.

Cerca de 42% dos eleitores não votariam em Aécio de jeito nenhum enquanto o número para Dilma é de apenas 36%. O mesmo cenário se repete no Datafolha: 41% dos pesquisados não votariam de jeito nenhum em Aécio Neves, enquanto 37% não votariam na presidenta Dilma.

Salvo grande equívoco das pesquisas de intenção de votos, indicam que Dilma Rousseff deve ser reeleita neste 2º turno. Apenas um grande maremoto político poderia alterar tal cenário. E em apenas dois dias de campanha, é pouco provável que isto ocorra.

Debate e Denúncia
Mesmo uma grande performance de Aécio e uma péssima atuação de Dilma no debate desta sexta-feira não deverão ser suficientes para estancar a sangria tucana e reverter a movimentação eleitoral indicada pelas pesquisas.

Pouco provável também é o potencial efeito das novas denúncias, apresentadas na capa da Revista Veja desta semana.

O eleitorado sensível à temática da corrupção já migrou para a candidatura de Aécio a longa data, sobretudo por não ser de hoje o esforço do PSDB em rotular o partido adversário como mais afeito à corrupção (seja verdadeiro ou falso tal argumento).

Ameaça Social
Por outro lado, o grande desafio tucano – e que foi, mais uma vez, pouco respondido nestas eleições – é conseguir convencer o eleitorado brasileiro de que um novo governo peessedebista não ameaçará as conquistas sociais dos últimos 15 anos.

Assim, a campanha petista fez excelente trabalho político ao deixar claro para eleitor brasileiro que o PT seria o partido dos mais pobres, enquanto o PSDB seria o partido das elites (mais uma vez, a despeito de ser verdadeiro ou falso tal argumento).

Em um país extremamente desigual como o Brasil – segundo dados do Projeto Desigualdade da Universidade do Texas (UTIP), o 20º país mais desigual dos 75 para os quais se tem medidas do índice de GINI – é natural que o debate que mobilize mais eleitores seja o debate redistributivo.

Na discussão sobre corrupção versus o debate sobre políticas públicas redistributivas, mais uma vez as emoções e imagens produzidas sobre a questão da desigualdade pesaram mais para a decisão do voto, que as imagens sobre a corrupção.

A propaganda petista trouxe mais do mesmo das eleições anteriores, com exceção apenas da incorporação do argumento mudancista como forma de superar os desafios impostos pela candidatura de Marina Silva – cujo discurso procurava subverter a lógica pobres x ricos, cristalizada na disputa PSDB x PT.

Já o PSDB trouxe uma mudança importante. Um aceno aos segmentos mais conservadores da sociedade, como a defesa da redução abrandada da maioridade penal.

A despeito de seu conteúdo normativo, o tema é levantado por uma parte expressiva dos eleitores brasileiros. Em pesquisa realizada em junho de 2013 pela CNT/MDA, cerca de 92,5% dos brasileiros seriam favoráveis à redução da maioridade penal. E em pesquisa do Datafolha apenas com eleitores paulistas, os mesmos 93% defendiam tal medida.

Eleitoralmente, o PSDB não conseguiu desconstruir a imagem de partido elitista, algo extensamente trabalhado pelos petistas ao longo dos últimos quinze anos e que sempre é intensificado às vésperas dos pleitos nacionais.

#épolítica
Ivan Fernandes

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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