Menos alinhado ao PT, eleitor de baixa renda pode dar vitória a Aécio

O favoritismo dos candidatos petistas desde 2006 se deu pela supremacia no segmento de renda familiar até cinco salários mínimos. Se os críticos do Lulismo estão certos, o eleitor mais pobre continuará a ser governista, enquanto a faixa intermediária – entre 2 e 5 salários mínimos – poderá votar na oposição, por conta da queda na avaliação do governo Dilma
Blog por #épolítica  

A primeira rodada de pesquisas eleitorais sobre o segundo turno foi lançada nesta semana. A despeito dos números, as pesquisas confirmam a tendência de crescimento de Aécio Neves (PSDB) e de estagnação de Dilma Rousseff (PT), após a melhora às vésperas do primeiro turno.

Saber o resultado das eleições deste ano é fácil: basta fazer um “curso” de adivinho, uma vez que a eleição está acirrada demais para uma previsão deste quilate – o famoso too close to call.

O que podemos falar, no entanto, diz respeito aos limites de crescimento de cada candidatura, tendo em vista a reedição da polarização PSDB-PT. Focaremos aqui em Dilma Rousseff por um motivo simples: a riqueza de estudos sobre o PT e suas vertentes é muito maior.

O favoritismo dos candidatos petistas desde 2006 se deu em função da grande diferença de votos obtida no segmento mais populoso, segundo a renda – ou seja, as famílias que recebem menos de cinco salários mínimos.

"Em 2014, este favoritismo socioeconômico diminuiu consideravelmente, reduzindo as chances de Dilma"


Em 2014, este favoritismo "socioeconômico" diminuiu consideravelmente, reduzindo as chances de Dilma Rousseff. Abaixo, apresentamos duas visões teóricas sobre o alinhamento dos eleitores com renda menor, bem como uma visão sobre o que deverá ocorrer no segundo turno.

O Lulismo
Uma das principais teorias recentes sobre o comportamento do eleitor brasileiro é de autoria de André Singer1Segundo o autor, as políticas públicas redistributivas (em especial) e a ascensão socioeconômica de uma parcela significativa da população brasileira durante o primeiro mandato de Lula teriam causado um realinhamento histórico do eleitorado brasileiro.

Assim, enquanto em 2002 não seria possível especificar a camada socioeconômica que elegera o presidente, contando com forte presença do voto de eleitores com maior escolaridade e renda, em 2006 ela está segmentada.

Especialmente após o escândalo do “Mensalão”, os eleitores com maior renda passariam a rejeitar sistematicamente o governo Lula, ao contrário daqueles de até 5 salários mínimos – cuja preferência recaía por candidatos conservadores, mas que abraçaram o lulismo quando este deixou de ameaçar a ordem instituída.

"As políticas públicas e a ascensão socioeconômica durante o primeiro mandato de Lula teriam causado um realinhamento do eleitorado"


Entre as evidências utilizadas por Singer para sustentar sua hipótese está o descolamento entre o voto no PT e em Lula, entre 2002 e 2006. Enquanto Lula aumentou seu percentual de votos, o PT perdeu espaço na Câmara dos Deputados.

Este realinhamento teria similaridades com o que ocorreu nos EUA durante o New Deal, na década de 1930, ou durante as manifestações por direitos civis na década de 1960, os quais alteraram substantivamente as bases de apoio dos partidos Republicano e Democrata.

Críticas ao Lulismo: o papel do governismo
Não obstante, existem algumas evidências que indicam problemas com esta argumentação. Segundo estudo de Lucio Rennó e Andrea Cabello2, não existem evidências de que a renda explique mudança nos eleitorados de Lula em 2002 e 2006.

Assim, o principal fator que explicaria o alinhamento a Lula em 2006 e, por tabela, a Dilma Rousseff em 2010, diz respeito à avaliação positiva feita a seus governos. A pergunta a se responder, portanto, é se o Lulismo sobreviveria eleitoralmente com baixa aprovação do governo Dilma Rousseff.

"A pergunta a se responder, portanto, é se o Lulismo sobreviveria à baixa aprovação do governo Dilma Rousseff"


Outra crítica desenvolvida por César Zucco3 diz respeito ao governismo do eleitorado brasileiro. Ao contrário do que sugere o debate atual, as regiões mais pobres do país – desagregadas sob a forma de municípios – não possuem qualquer aliança partidária estável, mas sim uma preferência por candidatos governistas.

Durante os mandatos de FHC, quanto mais baixo o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de um município, maior o percentual de votos obtido por um candidato do partido do governo federal. O mesmo ocorreu durante os dois mandatos de Lula.

Projetando o desempenho de Dilma Rousseff
Se é verdade a hipótese de Singer sobre o comportamento do eleitor brasileiro, o desempenho da candidata Dilma Rousseff tenderia a ser mais forte nos estratos de menor renda do eleitorado.

Estima-se que o eleitorado cuja renda familiar mensal é de até 5 salários mínimos equivalha, grosso modo, a cerca de 60% do total. Obviamente, nenhum candidato deverá obter todos os votos deste segmento, mas a herdeira do Lulismo teria vantagem para captá-los. 

As pesquisas de intenção de voto da eleição anterior sugerem que Dilma tinha algo próximo a 60% dos votos válidos deste segmento, neste mesmo momento da campanha. Com 56% do total de votos válidos, Dilma Rousseff foi eleita em 2010.

Prestando atenção no mesmo segmento de renda familiar, é possível afirmar que Dilma não repetirá o desempenho nesta eleição, pois perde de Aécio na faixa entre 2 e 5 salários mínimos - mas vencia Serra em 2010.

Ademais, Dilma tem desempenho inferior ao de 2010 em todas as faixas de renda, sugerindo um teto significativamente abaixo dos 56% do total de votos.

Gráfico 1

Embora tenha boas chances de vencer, este cenário dificilmente ocorrerá com o mesmo patamar de votos de 2010. Ou seja, a maioria dos votos válidos deverá ser muito apertada.

Ausência de alinhamento
Os gráficos 1 e 2 comparam o desempenho dos candidatos à presidência em 2014 no segundo turno com o mesmo período de 2010, segundo as pesquisas Datafolha. Os dados sugerem que o alinhamento sugerido por Singer parece pouco capaz de prever o resultado.

Gráfico 2

É mais do que razoável afirmar que o desempenho de Aécio Neves junto à camada mais pobre é melhor que o de José Serra, em 2010. Aécio Neves chega a ter maior intenção de voto junto aos eleitores entre 2 a 5 salários mínimos, segundo o Datafolha.

Sem rodeios, o acirramento na disputa pelos eleitores deste segmento deverá ser decisivo para a eleição.

Se os críticos de Singer estão corretos, o eleitor mais pobre continuará a ser governista, enquanto a faixa intermediária – entre 2 e 5 salários mínimos - pode ser mais vulnerável à avaliação do governo.

Moral da História...
Ou seja, em 2010 a avaliação muito favorável do governo Lula – com algo próximo de 80% de ótimo/bom – segurou o alinhamento desta camada intermediária entre a baixíssima renda e as classes mais altas, garantindo a supremacia de Dilma Rousseff.

Por melhor que seja, a avaliação do governo Dilma não é páreo para a de seu antecessor (hoje está na casa dos 40% de ótimo/bom), deixando em aberto a disputa pelo eleitor cuja renda está entre 2 e 5 salários mínimos.

Portanto, do ponto de vista socioeconômico, é certo que Aécio Neves tem mais chances que os candidatos tucanos que o antecederam. Também é possível dizer que estas características dão um leve favoritismo à sua candidatura, frente à de Dilma Rousseff.

#épolítica
Vítor Oliveira

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Links e Referências do texto:

1 - "Raízes sociais e ideológicas do Lulismo"  Singer, André (2009)

2 - "As Bases do lulismo: A volta do personalismo, realinhamento ideológico ou não alinhamento?" Rennó, Lúcio e Cabello, Andrea (2010)

3 - "The President’s ‘New’ Constituency: Lula and the Pragmatic Vote in Brazil’s 2006 Presidential Elections" Zucco, Cesar (2008)

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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