Frágil no 2o turno, Marina perde apelo estratégico para eleitor tucano

Embora a diferença entre Aécio e Marina tenha diminuído significativamente no primeiro turno, ambos passaram a ocupar a mesma posição relativa a Dilma nos cenários de segundo turno, algo que pode reorientar a ação estratégica do eleitor
Blog por #épolítica  

A principal novidade para o eleitor oposicionista da última pesquisa Datafolha não foi o crescimento de Aécio Neves (PSDB) no primeiro turno, tampouco a nova oscilação negativa de Marina Silva (PSB/Rede), mas sim o fato de não haver diferença entre os dois no segundo turno.

Desde a entrada de Marina na disputa, que o voto estratégico do eleitor oposicionista tendeu a favorecê-la, uma vez que as pesquisas a apontavam com boas chances de vencer Dilma Roussef (PT) no segundo turno.

O eleitor vota estrategicamente, antecipando o resultado do segundo turno para definir sua posição na primeira volta. Já comentamos sobre isso em post anterior (link) e existem boas evidências por trás dessa ideia - ainda que ela seja mais forte quando o turno é único.

Assim, embora a diferença entre Aécio e Marina tenha diminuído significativamente no primeiro turno, é a indiferença entre os dois nos cenários de segundo turno que pode pesar neste momento.


Quando os dois cenários de 2o turno são observados conjuntamente, vemos que Marina e Aécio passam a ocupar a mesma posição relativa a Dilma Rousseff

Ibope x Datafolha
Antes de que arremessem tomates em nossa direção, é preciso ressaltar que o Ibope (colhido um dia antes) sugeriu uma chance maior de vitória da candidata Marina Silva no segundo turno, a despeito de ter confirmado a trajetória de deterioração frente a Dilma.

Não obstante, o raciocínio aqui exposto pode ser estendido ao cenário do Ibope, embora com menos força, caso a hipótese (menos provável) de que há um empate técnico entre Dilma e Marina se mostre verdadeira nas pesquisas da véspera eleitoral.

Aquele eleitor tucano que prefere ver Dilma Rousseff derrotada a votar no seu candidato preferido e perder, até aqui, tinha em Marina Silva as maiores chances para concretizar sua sanha oposicionista.

Todavia, às vésperas do pleito, este mesmo eleitor já tem informações suficientes para acreditar que não vale mais a pena escolher Marina.

Aécio já é uma opção tão competitiva quanto Marina no segundo turno. O que pode não significar muita coisa para o resultado final – visto que Dilma venceria ambos –, mas pode ser o bastante para reorientar o comportamento do eleitorado de oposição.

Migração
Sintomas deste comportamento estratégico já foram vistos nos últimos dias, conforme o último texto publicado aqui no #épolítica.

Marina foi jogada pela competente comunicação petista – e por suas próprias escolhas – na mesma posição eleitoral do PSDB, como antagonista do atual governo. Perdeu eleitores que simpatizam com o atual governo e, na reta final, perde eleitores tucanos.

Ao mesmo tempo, viu-se presa numa briga interna entre sua candidatura e o partido que a sustenta – algo esperado, mas que demorou a se manifestar. Como todo torcedor de futebol sabe, problemas de vestiário ganham força nos momentos de crise.

Curiosamente, Marina Silva chega ao primeiro turno com uma base eleitoral que cada vez mais reflete seu discurso: nem PT, nem PSDB. Sua taxa de rejeição cresceu e é comparável à de Aécio Neves, algo que só ilustra a competência da comunicação adversária.

Se é verdade nossa conclusão de que o eleitorado marineiro não é o bastante para leva-la ao segundo turno (tudo melhor explicado neste post), por ter uma probabilidade menor de comparecer à urna que o tradicional eleitor tucano, a vice-liderança de Marina Silva nas intenções de voto pode ser uma miragem.

Outros aspectos do segundo turno
Por último, mas não menos importante, outro elemento teórico deve ser levado em conta na análise da lógica do voto estratégico nestas eleições. Qual o potencial migratório dos votos tucanos para Marina e dos votos marineiros para Aécio, no segundo turno?

Como Marina busca posicionar-se entre os dois pólos da competição política nacional, é esperado que os votos de Aécio sejam canalizados de maneira mais consistente para Marina no 2º turno do que o contrário.

O anti-petismo fala alto no mundo tucano, enquanto Marina se recusou a apoiar Serra ou Dilma no 2º turno, em 2010. Talvez aqui esteja o nó da decisão do 2º turno: qual será a postura adotada pelas lideranças do PSDB, caso Aécio fique de fora?

Tendo em vista a ameaça à hegemonia do PSDB no campo oposicionista, uma vitória da Dilma no 2º turno poderia ser até positiva para Aécio Neves, pois o facultaria a novamente ser candidato 2018 - quando entraria como um candidato conhecido do eleitorado.

Em outra face, o anti-petismo da cúpula tucana pode falar mais alto. Uma aliança com Marina, com a posterior participação tucana no alto escalão do governo do PSB/Rede, pode levar a possíveis declarações de FHC & cia. em favor de Marina.

Certamente, algo que as pesquisas atuais não refletem - mas que tem potencial teórico para ocorrer. Resta saber se o eleitor é capaz de observar esta informação e agir de acordo no primeiro turno.

#épolítica
Vítor Oliveira e Ivan Fernandes

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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