Marina não é Russomano, mas devolve votos a tucanos e petistas

Tão logo Marina Silva chegou, anunciou-se o fim da polarização. Já conhecida do eleitor por conta de 2010 e com um discurso que foi capaz de mobilizar um estoque de eleitores tidos por indecisos, a candidata partiu de um patamar alto. Mas o “fenômeno” Marina tornou-se maior ao ser inflado por eleitores afeitos a PT e PSDB, para os quais – imagina-se – parecia não haver contradição no voto marinheiro e seu gosto pessoal.
Blog por #épolítica  

Marina Silva (PSB/Rede) não deixou sua condição de favorita para enfrentar Dilma Rousseff no segundo turno, embora as pesquisas de intenção de voto recentes ilustrem uma deterioração esperada – mas que já parecia fadada a não ocorrer.

A sucessora de Eduardo Campos devolveu parte do eleitorado que, inicialmente, roubara dos principais concorrentes – Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB). Ainda assim, a resiliência do inchaço foi surpreendente para o analista que vos escreve.

A analogia com a candidatura de Celso Russomano à prefeitura de São Paulo em 2012 parece óbvia, ainda que exagerada, uma vez que Marina já fora bem votada em 2010.

PT e PSDB são os maiores partidos do país e organizam a competição política nacional desde 1994, com base em duas coalizões adversárias e razoavelmente definidas, as quais orbitam um centro político consolidado.

Polarização
A tese é simples, mas esteve ameaçada desde a morte de Eduardo Campos: o custo para um novo entrante na política nacional é elevado, uma vez que organizar uma campanha por todo o Brasil custa caro e requer acordos políticos que tomem por base algo mais que o imediatismo eleitoral.

Reforçam esta tendência as regras do jogo eleitoral para a presidência, que reforçam a bipolaridade do pleito, bem como o desenvolvimento de um eleitorado cativo ao longo dos últimos anos, em que tucanos e petistas lideraram o debate público.

Tão logo Marina Silva chegou, anunciou-se o fim da polarização. Já conhecida do eleitor por conta de 2010 e com um discurso que foi capaz de mobilizar um estoque de eleitores tidos por indecisos, a candidata partiu de um patamar alto.

Mas o “fenômeno” Marina tornou-se maior ao ser inflado por eleitores afeitos a PT e PSDB, para os quais – imagina-se – parecia não haver contradição no voto marinheiro e seu gosto pessoal.

Recuperação
De fato, o duopólio PT/PSDB nunca esteve tão ameaçado quanto em 2014, ainda assim, os dois partidos mostraram musculatura para reconquistar parte do rebanho desgarrado. Neste quesito, o PT parece ter sido mais consistente.

Ainda assim, o desempenho negativo de Marina Silva nos principais colégios eleitorais do país - e também alguns dos principais redutos do duopólio PT/PSDB - confirma este raciocínio. A tabela abaixo ilustra o movimento.

Obviamente o medo foi importante para que esta mudança ocorresse. Contudo, exageros e Regina Duarte à parte, apelar ao conservadorismo do eleitor não é proibido, tampouco moralmente condenável per se.

Campanha negativa pode ser feio e longe da predileção, mas está longe de ser um erro ou um déficit democrático. Condenável seria mentir, algo que ocorreu, mas não em função do tom adotado. Isto pode ocorrer mesmo em um debate propositivo.

Embora Marina Silva ainda tenha plenas condições de vencer a corrida eleitoral, com um segundo turno apertado demais para prognósticos, fica evidente que o discurso “nem PT, nem PSDB” possui inconsistências – especialmente quando traveste uma opção velada por um dos dois polos.

Do ponto de vista eleitoral, encontrou limitações claras e um teto. Mesmo que o Brasil não seja o desastre que a oposição apregoa, tampouco a maravilha da propaganda governista, tais discursos são consistentes com a história de quem os emite.

#épolítica
Vítor Oliveira

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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