Qual o verdadeiro patamar de rejeição a Dilma Rousseff?

Metodologias diferentes podem confundir e trazer resultados distintos. Não obstante, são formas diferentes de transformar em números um conceito teórico - a rejeição junto ao eleitorado. Cabe salientar suas diferenças e entender o que isto significa
Blog por #épolítica  

Nesta semana, escrevi um texto tratando de rejeição. Mostrei que Dilma Rousseff (PT), com 42%, atingira um patamar estrondoso e capaz de ruir suas intenções de reeleição.

Não tem muito segredo: quanto maior a rejeição menor a chance de um segundo turno ser feliz para um dado candidato. O adversário passa a ser ele mesmo. E como vencer? Só os grandes marqueteiros sabem dizer, e as chances são reduzidas de haver acerto.

Mas perceba algo instigante. Semana passada o Ibope começa nos mostrando as seguintes taxas de rejeição: Marina 12%, Aécio 18% e Dilma 31%. E termina com os seguintes dados: Marina 26%, Aécio 35% e Dilma 42%. A primeira pesquisa dentro de um quadro de normalidade que tem se desenhado nos últimos dias.

A segunda, algo assombroso para todos os postulantes, de forma relativa, e para Dilma de maneira absoluta. Passamos o final de semana aguardando e começamos essa semana com novos dados do Ibope: a pesquisa de ontem mostrava que Marina tem 14%, Aécio 19% e Dilma 32% de rejeição.

Ou seja: nada diferente do começo da semana passada. Então o que é isso? O que ocorre? Em quem confiar? O Ibope está manipulando os dados?

Metodologia
Nada disso. Clientes encomendam pesquisas e aprovam questionários dentro de uma lógica aceitável e flexível. A pesquisa do começo dessa semana e do início da semana passada são comparáveis, ou seja, são feitas sob questionários muito semelhantes – sob encomenda da Globo e do jornal O Estado de S. Paulo.

A pesquisa do final da semana é feita sob a contratação da Confederação Nacional da Indústria, é uma pesquisa conjuntural tradicional realizada faz meses e meses. Mas perceba algo associado aos questionários dessas pesquisas:

Na pesquisa que vem sendo enfileirada em gráficos de linhas nos principais meios de comunicação o Ibope pergunta da seguinte maneira: [DISCO 1] Dentre estes candidatos a Presidente da República, em qual o(a) sr(a) NÃO VOTARIA DE JEITO NENHUM? Mais algum? Algum outro? (RM – NÃO ACEITE O MESMO NOME MENCIONADO NA P.04)”.

Perceba: ao entrevistado é entregue um disco onde todos os candidatos ocupam espaço igual e a isso se segue a pergunta. O cidadão não pode responder o mesmo nome que indicou na pergunta 4, ou seja, o mesmo que ele apontou como seu favorito, seu voto. E pode indicar quantos nomes quiser para dizer que “não votaria de jeito nenhum”.

Já na pergunta do Ibope encomendada pelo CNI temos a seguinte situação: “[CARTELA 1] Agora, para cada um dos possíveis candidatos a Presidente da República que eu citar, gostaria que o(a) sr(a) me dissesse qual destas frases melhor descreve a sua opinião sobre ele(a): (LEIA CADA NOME E MARQUE O CÓDIGO CORRESPONDENTE – FAÇA RODÍZIO ENTRE OS NOMES – RU POR LINHA)

CÓDIGOS:

1 – COM CERTEZA VOTARIA NELE(A) PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA

2 – PODERIA VOTAR NELE(A) PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA

3 – NÃO VOTARIA NELE(A) DE JEITO NENHUM PARA PRESIDENTE DA REPÚBLICA

4 – NÃO O(A) CONHECE O SUFICIENTE PARA OPINAR

8 – NÃO SABE

9 – NÃO RESPONDEU

Os nomes testados são apenas os de Aécio, Dilma e Marina. Perceba. Na segunda pesquisa o entrevistador provoca o entrevistado citando nomes, dando todas as alternativas, e aguardando respostas. Na primeira pesquisa o cidadão está relativamente “mais livre” para observar de quem ele não gosta no disco. No segundo ele também fala a respeito de quem ele até poderia votar.

Questionamentos
Quem está certo? Quem está errado? Claro que poderíamos dizer que um instituto deveria manter um padrão mais uniforme de levantamentos, mas também devemos respeitar que clientes têm seus métodos e, dentro do razoável, o instituto faz a pesquisa. Assim, as pesquisas aqui apresentadas são bem razoáveis, mas podem confundir o eleitor.

Nosso papel? Também explicar esse tipo de situação. Com um dado importante: justamente por saber que são métodos diferentes, em instante algum o Ibope comparou as pesquisas contratadas por Globo e Estadão com aquelas contratadas pela CNI. Isso é bastante razoável, e cabe a nós sempre observarmos.

Mas a pergunta derradeira. Afinal de contas, em relação à candidata que possui os dados mais acentuados de rejeição, ou seja, Dilma: ela é rejeitada por 31% ou por 42% da sociedade?

Pela série histórica e pelo método mais utilizado, podemos dizer que por pouco menos de um terço dos eleitores; mas os dois dados são válidos, a depender da pergunta que se faz, sendo duas formas diferentes de se averiguar a rejeição. Necessário, apenas, pontuar suas diferenças, assim como em uma pesquisa sobre intenção de voto - estimulada e espontânea.

Aqui não se pretende torcer - aqui se analisa. Vende ou compra Petrobras? Não saberíamos dizer; esse não é o nosso negócio. Mas continua sendo razoável afirmar que o nível de rejeição a Dilma Rousseff a prejucaria no segundo turno.

Humberto Dantas
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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