Vencida pela rejeição? Dilma avança, mas ataques prejudicam seu 2o turno

No Ibope mais recente, Dilma atingiu marca preocupante para qualquer postulante: 42% afirmam que não votariam nela de jeito nenhum. O mesmo levantamento aponta Marina com 26% e Aécio com 35%. Números desse tipo podem determinar "a vitória da rejeição em primeiro turno"
Blog por #épolítica  

As pesquisas das últimas semanas têm sido bastante favoráveis à presidente Dilma Rousseff (PT), em sua intenção de vencer o pleito. O problema é que se pesquisas dão boas notícias ao Planalto, sobretudo as duas rodadas mais recentes, as sextas-feiras não têm sido tão afortunadas assim.

Foi numa sexta-feira que estourou mais um escândalo da Petrobras que obrigou o PT a rever sua propaganda na TV, e foi na última sexta-feira que um determinado dado da pesquisa do Ibope, que no todo parecia bastante positiva para o governo, trouxe um dado preocupante.

Assim, foi numa conversa com o cientista político Carlos Melo, com quem divido a disciplina de Sociologia e Política do Insper que notei algo relevante dito por ele associado ao fenômeno que discuto aqui. Aécio (PSDB) precisa desconstruir Marina para que possa ir ao segundo turno.

Ação e Reação
O tucano disse que, se não for eleito, o PSDB será oposição a despeito de quem vença as eleições. Acho pouco provável que isso ocorra caso Marina (PSB) vença, mas Aécio resolveu partir pra agressão como alternativa de chegada à segunda rodada. Não lhe cabe outra alternativa.

Já a campanha de Dilma (PT) tem utilizado nesse instante toda a sorte de argumentos, muitos radicais, para derreter a candidatura de Marina. Mas por que isso agora? Não estaria o PT utilizando artilharia de um segundo turno que já tem praticamente garantido em um instante muito distante do “juízo final”? O eleitor entorpecido pela forte campanha do PT contra Marina seria capaz de ser mantido nesse transe de medo e terror por mais de um mês?

Nos sonhos mais alucinantes pode ter gente disposta a ganhar a eleição em primeiro turno, o que os números mostram ser improvável. Mas o desafio era conseguir chegar em Marina nas simulações de segundo turno – o que ocorreu – e se firmar em primeiro lugar na rodada inicial, o que também ocorreu. Isso tudo de acordo com a última pesquisa do Ibope divulgada no final da semana passada.

Até aquele momento o PT estava conseguindo realizar dois milagres em termos de marketing político. O primeiro é convencer o eleitor de mudar sem sair do lugar. Isso porque um governante que enfrenta cenário hostil, com desejo de mudança, não costuma se dar bem ao defender seu legado. Dilma tem conseguido fazer isso, em parte, pela fragilidade dos adversários na qualidade histórica de oposição (Aécio e seu suave PSDB) ou nas desconfianças causadas no eleitor posto diante do novo (Marina e seu processo confuso de reflexão).

Fosse o PSDB um partido de oposição mais clara e persistente e Marina um nome que gerasse menos questionamentos, e provavelmente a presidente teria muito menos chances de ser eleita – hoje essa chance de sucesso é grande.

Crime sem castigo
O segundo milagre está associado à capacidade de bater e crescer. Nesse sentido, a campanha de Dilma tem se notabilizado por agredir e, ao mesmo tempo, subir. E isso é importante para quem deseja se manter no poder e tem à disposição a máquina pública federal – imensa – e o maior tempo no horário de TV. Aécio e Marina somados chegam a cerca da metade da exposição de Dilma.

A pesquisa Ibope/CNI, no entanto, mostrou algo que até agora não tinha sido captado pelos demais institutos e levantamentos. Se por um lado existe melhora na avaliação do governo e subida nas intenções de voto nos dois turnos, a rejeição à Dilma cresceu.

A verdade é que cresceram também as rejeições a Aécio e à Marina. Mas vamos com calma: Aécio está batendo, e normalmente quem agride se desgasta. Isso então era esperado. Marina tem apanhado mais do que estagiário do MMA, portanto, com pouco tempo para se defender só pode se render ao choro ou às táticas clássicas do tipo: “quero manter a campanha em alto nível e discutir propostas para um país melhor”.

Já Dilma havia visto a rejeição ao seu nome oscilar discretamente para baixo. No Datafolha da última semana, por exemplo, cravou 33% e desde julho tem variado entre 32% e 35%. Se serve de parâmetro: Aécio, batendo, foi de 16% para 23% e Marina, apanhando demais, de 11% para 18%.

Mas no Ibope mais recente Dilma atingiu marca preocupante para qualquer postulante: 42% afirmam que não votariam nela de jeito nenhum. O mesmo levantamento aponta Marina com 26% e Aécio com 35%. Números desse tipo podem determinar “a vitória da rejeição em primeiro turno”.

Lembre-se, por exemplo, que em 2012, nesse mesmo instante de setembro, Serra tinha 46% de rejeição em São Paulo. Diante desse fato relevante, fica a pergunta: Dilma pode vencer O primeiro turno, mas dificilmente vence NO primeiro turno, como desejam alguns. Numa segunda rodada, quando as campanhas têm rigorosamente o mesmo tempo de TV e rádio: o que pode ocorrer com quem utilizou artilharia pesada de segunda rodada em primeiro instante? O eleitor, apresentado ao medo, pode passar a confiar dele?

Pode, é claro. Bem como pode passar a desconfiar ainda mais. Mas o problema está deixando de ser a simpatia e confiança à Marina para se tornar afastamento e repulsa à Dilma. Nesse caso, as batidas não podiam abalar a rejeição à presidente, mas abalaram de acordo com o Ibope. Resta ver nos demais casos.

Humberto Dantas
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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