Um giro pelos estados em busca da "nova política"

Um giro pelos estados mostra que nos pleitos para os governos estaduais não existe a nova política, ao menos é o que mostram as pesquisas, apesar das possibilidades de mudanças - se é que elas são necessárias.
Blog por #épolítica  

Marina Silva é resultado da demanda da sociedade por uma "nova política"? Ou parece ser a alternativa a um governo que se desgastou de forma intensa nos últimos anos ou meses?

Se a resposta estivesse associada a este segundo ponto, seria mais natural que a oposição “verdadeira” despontasse nas pesquisas com maior ênfase. Estaríamos falando da candidatura de Aécio Neves (PSDB).

Mas o PSDB fez mesmo uma oposição ostensiva, clara e perceptível aos olhos dos cidadãos que hoje buscam uma alternativa a algo que parece incomodar fatias expressivas dos eleitores (o Ibope mostra que cerca de 70% querem mudanças)? Não.

Tanto é verdade que o próprio PT cansa de declarar que os maiores organismos de oposição no Brasil são o Judiciário e a imprensa. A declaração é polêmica, e pode ser compreendida como provocadora, mas o fato é que a oposição aos padrões beligerantes de outrora não existiu, e parece pagar caro por isso.

A alternativa não existe. Ou melhor: existe. O PT vai bem nas pesquisas com Dilma porque corre o risco de conseguir superar uma máxima que desafia princípios do marketing político: pregar a mudança, e convencer as pessoas disso, sem que saiamos do lugar.

Ou seja: mudar no mesmo. Isso é competência do PT ou incompetência da oposição? As duas coisas. E nesse ambiente os 20 milhões de eleitores insatisfeitos de 2010 – e grande parte era formada por insatisfeitos – se juntaram a eleitores pragmáticos que entendem que só Marina pode vencer o PT, ou ainda àqueles que efetivamente se cansaram da “velha política”, como se esse conflito fosse algo muito novo.

A questão, no entanto, é que a maioria parece pouco capaz de entender que a “nova política” não será feita reeditando o mito de Dom Sebastião, algo interminável em nossa cultura e que nos remete àquela figura vivida por Lima Duarte em O Salvador da Pátria: o Sassá Mutema. Isso não indica negar Marina, mas sim que sobre ela não adianta depositarmos expectativas singularizadas.

O velho de novo, nos estados
A despeito de tais aspectos, parece possível dizer que se existe desejo por uma “nova política” ela se restringiria ao país, ou seja, especificamente ao cargo de presidente da República – o que revela miopia ou falta de preparo do eleitor, ou uma insatisfação mais pontual.

Olhemos para as eleições estaduais. Por exemplo: temos nas disputas locais quatro ex-governadores cassados recentemente pedindo voto. Três deles lideravam (ou lideram) a corrida, apesar de alguns correrem o risco de perderem seus postos de candidatos na justiça.

Na Paraíba, Cássio Cunha Lima (PSDB) perdeu o mandato em 2009 e com a ficha suja foi eleito senador em 2010. Ganhou o direito de tomar posse porque a lei não valeu naquele ano. Mas e agora que lidera a corrida na Paraíba? Em Tocantins a história se repete com Marcelo Miranda (PMDB), que também lidera, mas foi igualmente retirado do posto entre 2009 e 2010, depois de ter sido eleito em 2006.

Por fim, temos José Roberto Arruda, pendurado na justiça, mas firme na liderança do Distrito Federal - apesar de a justiça lhe negar registro. À época em que governava estava no DEM, e hoje pede votos pelo PR. No Piauí temos ainda Mão Santa, mas este não está bem nas pesquisas, apesar de ainda encantar parcelas do eleitorado.

Completariam a lista  Flamarion Portela de Roraima, mas sua cassação custou “apenas” a possibilidade de conquistar vaga na Assembleia Legislativa local. Apenas? Por que essa mania de menosprezarmos o Legislativo? E tem mais: sua esposa Ângela (PT) vai bem demais nas pesquisas e pode ser a próxima governadora. Quem lidera é  Neudo Campos (PP) de quem  Flamarion era vice quando assumiu o cargo em 2002 e foi reeleito. Poderia terminar a lista Jackson Lago (PDT), mas ele faleceu. Seu irmão tenta dar sequência à carreira política da família, mas está muito mal posicionado nas pesquisas. Nova política? 

Herança 
O leitor poderia dizer que devemos olhar para outros estados. Quais? Em muitos deles, como São Paulo (PSDB), Acre (PT), Paraná (PSDB), Goiás (PSDB), Sergipe (o vice assumiu e pode ser reconduzido, pelo PMDB) e Santa Catarina (PSD), por exemplo, a reeleição está próxima daqueles que já os governam – em alguns casos faz muitos anos.

Em outros, como Rio de Janeiro, Amapá, Espírito Santo, Amazonas, Bahia e Piauí, por exemplo, ex-governadores lideram as pesquisas. E isso porque estamos falando apenas de quem está na frente. Incluir os postulantes que estão em segundo lugar em cada estado ofertaria dimensão ainda maior de uma completa falta do que poderia ser a tal “nova política”.

Para completar a lista, alguns políticos conhecidos, nomes de sempre, que representam famílias cristalizadas no poder, como os Alves no Rio Grande do Norte, os Calheiros em Alagoas e os Barbalho no Pará também lideram pesquisas com seus caciques (RN) ou com seus filhos (AL e PA).

Novo X Diferente
Para terminar, a luz da “esperança” estaria sendo acesa em estados como Maranhão (Flávio Dino do PC do B), Mato Grosso (Pedro Taques do PDT), Mato Grosso do Sul (Delcídio Amaral do PT), Minas Gerais (Fernando Pimentel do PT) e Ceará (Eunício Oliveira do PMDB)?

Analise bem esses nomes, busque saber de que grupos vieram e verás que não existe tanta novidade assim. A "nova política", nesse quinteto, é exceção. Ou seja: a forma de sempre, que nada tem de nova. Afinal, como sonhar com a “nova política” se temos os mesmos velhos eleitores de sempre, as mesmas relações, a mesma cultura?

No plano federal, parte do povo parece mesmo é que está cansada do governo, sem representar o novo, mas sim o diferente – e isso nem sempre, e não necessariamente, soa como positivo, apesar de ser interessante observar tentativas e movimentos. Que movimentos? Por uma “nova política”? Que "nova política"? Volte pro começo e leia novamente... 

Humberto Dantas
#épolítica

facebook.com/ehpolitica 

 

Nota: Que fique registrado aqui: as pesquisas aqui utilizadas mostram o que temos em termos de intenção de votos nos estados ,em cenários de primeiro turno captados entre o começo de agosto e o início de setembro. Os líderes destacados podem não vencer as eleições. E podem ter perdido a liderança. Alguns certamente passarão ao segundo turno na dianteira e não vencerão, outros podem ser cassados etc. Mas existe uma certeza: "nova política" estadual anda raro de ver.

 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com