Dois cenários para a oposição, após o empate de Marina e Dilma

No cenário mais provável, a ação dos eleitores se desenha de modo mais estratégico, favorecendo Marina Silva. Este comportamento, que antecipa os resultados finais das ações dos eleitores, seria mais forte e provável se não houvesse a regra do segundo turno. Novos números sobre doações às coligações podem dar pistas deste movimento eleitoral.
Blog por #épolítica  

As duas pesquisas eleitorais divulgadas na última quarta-feira (3) sedimentaram aquilo que a rodada anterior, no final de semana, já havia demonstrado sobre o atual momento eleitoral: Marina Silva (PSB/Rede) e Dilma Rousseff (PT) empatadas tecnicamente, com Aécio Neves (PSDB) distanciado.

Até o momento, Marina Silva foi competente não apenas na tarefa de manter sua base inicial – composta por eleitores jovens e/ou cuja intenção era votar em branco, nulo ou se abster –, mas também na de roubar eleitores previamente alinhados com o PSDB e com o PT (em menor escala).

Claramente identificada com o campo oposicionista, a despeito de ter sido ministra de Lula, a candidata Marina Silva lidera no principal colégio eleitoral do país, São Paulo, que também consiste no principal reduto eleitoral do PSDB.

Dois Cenários para a Oposição
Neste momento, dois cenários distintos do previsto inicialmente desenham-se com força. Até a última semana, era difícil antecipar com maior precisão qual deles tinha maior probabilidade; não mais.

 

As novas pesquisas eleitorais sugerem que o primeiro deles é o mais provável.

Cenário A - Voto Útil Antecipado

No primeiro cenário, a ação dos eleitores se desenha de modo mais estratégico, favorecendo Marina Silva. Assim, os oposicionistas concentrariam seus votos na candidata do PSB/Rede, apoiados nas informações atualmente disponíveis que conferem a ela maiores chances de derrotar Dilma Rousseff (PT) no segundo turno.

Este comportamento estratégico, que antecipa os resultados finais das ações dos eleitores, seria mais forte e provável se não houvesse a regra do segundo turno. Novos números sobre doações às coligações podem dar pistas deste movimento eleitoral.

Tal concentração de votos nos candidatos favoritos foi consagrada no que os cientistas políticos chamam de Lei de Duverger - algo que você provavelmente conhece intuitivamente por meio da expressão "voto útil". No entanto, a existência de um segundo turno poderia postergar estes efeitos.

Estudo realizado por Thomas Fujiwara, da Universidade de Princeton, sobre as eleições municipais brasileiras, corrobora a ideia de que o comportamento do eleitor é estratégico, mas que este efeito é minimizado pela ocorrência do segundo turno. (Para saber mais, clique neste link e confira o artigo)

Embora os cargos sejam distintos, parece razoável acreditar que os eleitores brasileiros utilizem o mesmo raciocínio na eleição presidencial. Se isto é verdade, as chances de vitória de Marina Silva em primeiro turno se reduzem, o que nos leva ao segundo cenário.

Cenário B - Eleitores (Tucanos) Sinceros

O segundo cenário foi fragilizado pelas pesquisas eleitorais mais recentes, mas poderia ganhar força no caso da campanha negativa contra Marina Silva ser efetiva.

Se os eleitores oposicionistas expressarem de modo mais sincero suas preferências no primeiro turno, sem levar em consideração aspectos estratégicos, a candidata já teria atingido seu potencial máximo de votos no primeiro turno e poderia recuar, reabrindo a competição pela vaga no segundo turno com Aécio Neves.

Para que este cenário se concretize, no entanto, a candidatura tucana precisa melhorar sua comunicação com o eleitorado de seus dois principais núcleos políticos – os estados de São Paulo e Minas Gerais.

Ao mesmo tempo, é preciso aproveitar melhor o potencial de votos em estados como a Bahia e o Paraná, que possuem palanques estaduais fortes para a oposição e menos afins a Marina.

Contudo, a lógica que preside as escolhas eleitorais nos estados não é – nem deveria ser – sempre a mesma que conduz à escolha da presidência, dificultando esta tarefa de casamento do eleitorado.

Prestigiado pela diretoria
O momento da candidatura de Aécio Neves, no entanto, se parece muito com a dinâmica de um técnico no comando de um clube de futebol brasileiro.

Surge a insatisfação da torcida, quando os resultados esperados não vêm. Em seguida, chegam os rumores de demissão, prontamente repelidos pela diretoria – dizendo apostar na recuperação do time e afirmando estar, o técnico, prestigiado.

Ao menos foi esta a impressão de quem via a coletiva de imprensa desta semana, convocada para reforçar seu compromisso com a candidatura. Curiosíssimo.

Se fosse futebol, todos saberiam que o técnico está próximo de uma demissão - a menos que ocorra uma sequência de resultados bons ou a vitória em um clássico.

No caso das eleições, Aécio não deverá ser demitido, mas certamente terá dificuldades em se manter como líder do PSDB, após resultados tão melancólicos. O plano de voo dos tucanos era bem diferente.

O Futuro de Aécio Neves
Finalmente, o candidato tucano é presidenciável de primeira viagem, e, dependendo das circunstâncias de um segundo governo Dilma ou de um provável governo de Marina, pode ressurgir como nome forte do PSDB à presidência em 2018. Aécio tem o benefício de ter sido eleito senador em 2010 e não estará fora dos holofotes políticos durante os próximos 4 anos.

Por outro lado, o cenário estadual mineiro pode transformar a eleição de 2014 como a grande derrota de Aécio. Boa parte de sua força política decorre da popularidade de sua administração e força no Palácio Tiradentes.

Contudo o PSDB - MG não está tendo uma vida fácil nas eleições estaduais. O candidato petista Fernando Pimental é o líder das pesquisas e pode colocar uma pá de cal nas pretensões de ascensão da ala mineira do PSDB contra a ala paulista.

Enquanto Aécio também patina em MG, o PSDB surfa nas eleições em SP: tudo leva a crer que o o governador Alckmin (PSDB) será reeleito e José Serra (PSDB) tem boas chances de ser escolhido como senador, mesmo enfrentando um difícil adversário como Eduardo Suplicy (PT).

Vítor Oliveira e Ivan Fernandes
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com