Marina Silva lidera com 2º turno, mas pode já ter chegado a seu teto

O céu de brigadeiro eleitoral proporcionado pela tragédia com Eduardo Campos chegou ao fim. Aécio Neves (PSDB) não está eliminado da disputa, tampouco a vitória sobre Dilma Rousseff (PT) no segundo turno é definitiva. Ainda assim, pode ser o suficiente para impedir mais dissidências no PSB, fortalecendo a candidatura de Marina.
Blog por #épolítica  

Se há controvérsias sobre quem foi o vencedor do debate da TV Bandeirantes, realizado na última terça-feira (26), não há dúvidas de que a pesquisa Ibope a respeito das intenções de voto para presidente foi muito positiva para Marina Silva (PSB/Rede).

É preciso, no entanto, evitar algumas conclusões precipitadas. A fotografia do mês de agosto não elimina Aécio Neves (PSDB) da disputa, tampouco define a vitória de Marina sobre Dilma Rousseff (PT) no segundo turno. Ainda assim, pode ser o suficiente para impedir mais dissidências no PSB.

Não obstante a tragédia que vitimou Eduardo Campos e que abriu espaço para intensa exposição de Marina Silva na mídia, os resultados são motivo para muita comemoração por parte da campanha pessebista /da Rede. Mas que não fique aqui a ideia simplista de comoção, pois resultado semelhante a este Marina já colhia em abril de 2014, na última pesquisa que levou seu nome e em julho de 2013.

Marina simboliza o desejo de mudança de boa parte dos brasileiros, mesmo que seja para um rumo incerto – o que pode representar seu ponto fraco. Nem sempre a "esperança vence o medo".

Dilma pode sangrar mais?
Rui Falcão, presidente do PT, afirmou que estava tranquilo na liderança ao término do evento da Rede Bandeirantes. Contudo, Dilma não lidera mais a corrida presidencial, pois a lei é clara: existem dois turnos e, na segunda rodada, Marina estaria eleita.

Outro pontos também chamam a atenção na pesquisa. Em primeiro lugar, a intenção de votos na presidente Dilma caiu quatro pontos percentuais, mesmo em um contexto de redução da avaliação negativa de seu governo.

Isto pode sugerir uma migração sustentada dos votos de Dilma para Marina, dado que esta ocorreu mesmo em um cenário positivo para a candidata à reeleição – embora esta seja apenas uma conjectura.

Ao contrário do último Datafolha, que só apontara a chegada de eleitores anteriormente desmobilizados, esta pesquisa Ibope revelou que os dois principais candidatos perderam espaço para Marina Silva, em escala semelhante. Mas a situação ficou complicada para quem tinha pouco voto e agora tem menos ainda, caso do Pastor Everaldo que caiu de 3% para 1%.

Caso seja verdade a hipótese de que Marina Silva está em seu teto no primeiro turno, o final desta perna da corrida eleitoral poderá ser definido pela assimetria com que os outros candidatos perderam eleitores neste mês.

Café sem leite
Dos levantamentos estaduais realizados recentemente, a situação mais preocupante para a campanha tucana se encontra em São Paulo, onde a preferência esmagadora dos eleitores por Geraldo Alckmin (PSDB) não se traduz em vantagem para Aécio Neves, quando é feita a troca de Eduardo Campos por Marina Silva.

Esta leitura foi feita pela campanha de Aécio, que logo em sua primeira incursão, no debate da TV Bandeirantes, questionou Marina sobre a ausência de seu apoio ao governador Alckmin, a despeito da coligação entre PSDB e PSB em São Paulo.

Aparentemente, a estratégia inicial dos tucanos parece ser a de sugerir incoerências e de incutir a pecha de risco na candidatura de Marina Silva – algo razoável, em um estado pouco afeito a mudanças no poder – lá se vão 20 anos de PSDB no Palácio dos Bandeirantes, sem grandes chances de mudança neste ano.

O Queridinho do Mercado
Também pode ter sido este um dos objetivos do PSDB, ao antecipar o anúncio de que Armínio Fraga será o Ministro da Fazenda, em caso de vitória. Contudo, esta nomeação reduz a flexibilidade no discurso e pode ser uma âncora pesada demais para quem precisará enfrentar o PT no segundo turno.

Ainda assim, parece uma medida para assegurar a preferência do mercado, assegurar o fluxo de doações e minimizar defecções de aliados. A estratégia parece otimizar as chances do partido no curto prazo, apostando que a onda de Marina perca força ao longo da campanha.

Existem bons motivos para achar que isso pode ocorrer, como o pouco tempo de Marina no horário eleitoral gratuito e o desejo de o PT ter Aécio, e não Marina, na segunda rodada. Como consolação, o Ibope mostrou uma menor distância entre Aécio e Dilma (6 pontos percentuais) que entre Marina e Dilma (9 pontos percentuais), no segundo turno.

Seleção Natural
Desde o início do embate televisivo, Marina foi o alvo preferencial dos candidatos e pareceu – não sem motivos – desconfortável com a posição de vidraça eleitoral. Foi apenas o início deste movimento, que testará a resiliência destes eleitores recém conquistados.

Ao contrário de 2010, quando fora sistematicamente poupada e cortejada pelos outros candidatos, Marina Silva terá sua vida pública devassada. Pequenos deslizes, ainda que moralmente perdoáveis, serão suficientes para testar a resistência de seu encanto aos desiludidos com PT e PSDB.

Neste sentido, o céu de brigadeiro eleitoral proporcionado pela tragédia com Eduardo Campos chegou ao fim. Seu espaço espontâneo na mídia também será reduzido, conforme o tempo passa e o interesse das pessoas pelo ex-governador diminui.

Será preciso aguardar também maiores detalhes sobre a demografia e a distribuição regional desses eleitores de Marina Silva, para que se trace uma avaliação melhor sobre as vulnerabilidades e virtudes da nova postulante à presidência.

Vítor Oliveira e Humberto Dantas
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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