O problema de petistas e tucanos: como bater (em) Marina Silva?

Alheia aos dois polos das trincheiras políticas brasileiras, ela parece circular tranquilamente entre o tiroteio - pouco parece abalá-la. Aécio precisa vencê-la no primeiro turno; Dilma, no segundo.
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Eduardo Campos não teve a oportunidade de se apresentar ao Brasil. Marina Silva teve, em 2010. Por um partido pequeno – não nanico –, teve quase 20 milhões de votos e agora volta para a disputa presidencial por uma legenda média e aparentemente fragmentada. `

Nada que o tempo não cole, ou rache de vez. Assusta o PSDB no primeiro turno, e ao PT no segundo. Se os dois turnos fossem hoje, em mera elucubração, estaria eleita. Você confia? Marina é complicada, dizem alguns. Para outros é genial. Esses opostos incomodam. Seria interessante uma análise mais fria, mais técnica. Algo que fuja de deboches e ofensas, e que ao mesmo tempo não diga “DE” Marina, ou abandone artigos como estivéssemos falando de uma divindade.

No campo econômico a candidata Marina parece ceder à ideia de que é cercada de gente que conhece mais que ela. E nesse caso se aproxima do PSDB, em palavras de sua própria equipe. Em termos políticos prega uma nova política, falando da participação social que é tão cara ao PT.

Nova Política
Temos chances de pensar uma nova política apenas votando nela? Seria bom pensarmos na composição do Congresso, pois (e mas) cultura política não se muda ao entardecer (ou alvorecer) de um dia. O fato é que se você lesse o texto de suas primeiras aparições no horário eleitoral, sem que lá estivesse o nome da candidata, e consequentemente sem colocar paixão ou temor associado à imagem dela, veria que o discurso é capaz de convencer.

A visão superficial – e em dois minutos nada pode ser profundo – que tem de PT e PSDB é ponderada e razoável. Ela parece mesmo capaz de simbolizar com mais clareza as vozes das ruas: ninguém mais aguenta, e quando aguenta está entrincheirado em um ou outro polo de uma guerra insuportavelmente ruim para o país, a briga entre tucanos e petistas.

A Marina que fala bem, seria capaz de governar bem? Segmentos de seu próprio partido, ou da incubadora de Rede chamada PSB, assumem que não. Seria o caso de escrever a “Carta Sustentável ao Povo Brasileiro”? Ou o “Documento Sonhático para o instante Realizático”? Pode ser que sim.

Mas o fato é que a despeito das fragilidades, ou dos pontos a serem explicados, Marina incomoda demais. A quem? Sobretudo a PT e a PSDB. O problema para os dois polos das trincheiras políticas brasileiras é que ela pode circular tranquilamente entre o tiroteio - pouco parece abalá-la. Aécio precisa vencê-la no primeiro turno, Dilma precisa derrota-la no segundo.

Na verdade, para o azar de Marina, é possível que o PT prefira demais Aécio Neves no segundo turno. A comparação entre os governos Lula e FHC é fórmula conhecida entre os Trabalhadores. Se ainda cola não sei, mas eles adoram e preferem essa fórmula. Mas então o que dizer contra Marina? Difícil saber o que colará. E nesses casos a desconstrução de Marina pelos tucanos e petistas tem que ser feita com delicadeza.

Fazendo as contas
Marina tem 11% de rejeição, Aécio 18%, Dilma ultrapassar 30 pontos. Nos dois primeiros casos são índices baixos, mas Marina é mais conhecida que Aécio. Isso representa dizer que tem dois atributos: as pessoas sabem quem ela é e não a rejeitam até agora. E nesse caso, a desqualificação será lenta. Ao estilo do que fizeram com Russomanno em São Paulo. Trabalho de arqueólogo. Soprar a poeirinha, passar o pincelzinho. Esperar o tempo passar.

Dá tempo? Difícil dizer, e tem mais: Marina parece menos artificial politicamente que o defensor dos consumidores, mas aparenta fragilidade física, e o brasileiro adora defender quem parece fraco.

Lembro Covas dizendo que não podia atacar Marta Suplicy em 1998 porque ela “batia como homem e apanhava como mulher”. E assim a culpa seria sempre da “truculência dele”. Nada fácil então. O jogo é de paciência. E a lógica vale até o último domingo de outubro. Marina tem grande chance. Desmontá-la lembra aquelas cenas de filme em que o sujeito precisa cortar o fio da bomba. Na ficção o herói corta o certo sempre, mas aqui a vida é de verdade.

Além disso, quem disse que ela é uma bomba? Quem disse que Aécio e Dilma são os heróis? Longe disso. E pode ser que Marina seja a nova política, só não vale dizer que ela é a heroína, pois isso não seria a nova política. Seria a política de sempre.

Humberto Dantas
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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