Jovens e insatisfeitos não bastam para Marina Silva chegar ao 2o turno

As intenções de voto em Marina residem nos grupos mais voláteis do eleitorado; candidata precisa se mostrar como opção para o eleitorado mais velho, o qual parece mais cioso das virtudes de PT e PSDB
Blog por #épolítica  

A primeira pesquisa Datafolha, após a trágica morte de Eduardo Campos, revelou o forte apelo de Marina Silva (Rede/PSB) junto ao eleitor jovem e pouco afinado ao quadro político partidário nacional.

Todavia, os marineiros (sem qualquer conotação pejorativa) não são suficientes para vencer uma eleição no plano nacional. Concretamente, não são capazes de conduzir Marina Silva ao segundo turno, sem uma ajuda maior de outros grupos eleitorais.

Tudo o mais mantido constante, a troca de Eduardo por Marina não implicou perdas aos adversários – ainda que o impacto relativo desse crescimento da terceira via seja maior, caso sejam considerados os votos válidos (excluindo-se brancos e nulos).

Quando Marina Silva entra na disputa, há uma redução de 10 pontos percentuais no total de eleitores chamados grosseiramente de indecisos, ou seja, que afirmam votar em branco, nulo, em nenhum dos candidatos ou que não soube responder, segundo a última pesquisa Datafolha.

Mobilização e Coordenação
Não é preciso brincar muito com os dados para perceber que o eleitorado de Marina é composto, majoritariamente, pelo grupo mais jovem e menos mobilizado pelos partidos tradicionais do eleitorado.

Segundo o TSE, o eleitorado entre 18 e 24 anos representa 15,2% do total, enquanto a faixa etária de 45 a 59 anos representa 23,4% do conjunto de eleitores aptos a votar em 2014.

Embora sejam raros os estudos sistemáticos sobre o perfil etário das abstenções, pesquisas pontuais com dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e com base em entrevistas após as eleições sugerem que, de fato, o grupo mais jovem está menos propenso a comparecer às urnas. Tendência que volta a ocorrer no grupo próximo aos 70 anos.

O gráfico abaixo mostra a probabilidade de uma pessoa comparecer ao primeiro turno, segundo sua faixa etária, e foi extraído de trabalho de Guilherme Arbache, do NUPPS (Nucleo de Pesquisas em Políticas Públicas da Universidade de São Paulo), que utiliza os dados do ESEB - banco de dados composto por entrevistas feitas após as eleições. (Link para o relatório

Ou seja, as intenções de voto em Marina residem, basicamente, no grupo menos propenso a votar e que, aparentemente, representa a fatia do eleitorado que recusa as opções apresentadas pelo sistema político brasileiro. No entanto, é preciso que estes eleitores de fato compareçam às urnas, no dia da eleição.

Não muito distante, portanto, da parcela da população que engrossou as manifestações de 2013 e cujo mote era “o povo unido governa sem partido”. A tabela abaixo mostra a intenção de votos em um dos principais pontos de reunião das manifestações do ano passado – a avenida Paulista, na cidade de São Paulo.

 

O que passou despercebido de muitos foi exatamente a dificuldade da candidata em se mostrar como opção – no primeiro turno – para o eleitorado mais velho, jutamente aquele que me parece cioso da estabilidade política, bem como dos ganhos sociais e econômicos obtidos pelo País desde meados da década de 1990.

Gostem ou não, PT e PSDB são atores principais neste palco e possuem seus méritos, a despeito do senso comum majoritariamente negativo sobre a política brasileira.

Obviamente este eleitorado mais velho não é uniforme, cada um apontando sua lealdade ao partido que lhe pareceu trazer os ganhos mais importantes – seja estabilidade econômica ou políticas públicas redistributivas, apenas para citar o que é mais facilmente imputável a tucanos e petistas.

Por mais que a tese do realinhamento histórico do Lulismo seja controversa em muitos aspectos, parece razoável admitir que exista um eleitorado cativo de PT e PSDB no plano nacional, sem avançar nas discussões de suas causas/origens. 

Naturalmente, o núcleo duro de seus eleitores nutre uma rejeição grande ao adversário tradicional - a qual beira a demonização. Não obstante, ambos têm em comum a visão de que um destes dois partidos foi responsável por mudanças, as quais impactaram suas vidas de modo significativo.

Tradeoff
Ser a candidata preferida pelos mais jovens e insatisfeitos é um problema? Seguramente, não. O desafio que se apresenta aqui, no entanto, é ser capaz de atrair outros grupos eleitorais, sem causar a desmobilização deste seu eleitorado cativo - porém volátil.

Será um desafio importante mostrar-se como candidata capaz de fazer um governo estável politicamente, aos que têm Collor na memória, ao mesmo tempo em que se tem como bandeira a recusa a alianças partidárias.

Marina Silva parece em posição confortável para ser a segunda melhor opção de qualquer um destes grupos, o que a transforma naturalmente na candidata melhor posicionada para desfazer a polarização PT/PSDB desde 1994. Estar no PSB - em vez do pequenino PV - também a favorece.

Ainda assim, precisará conquistar parte do apoio destes grupos ainda no primeiro turno, se quiser chegar a este ponto. E é este um importante limitador não apenas da candidatura de Marina Silva, mas também de qualquer outro candidato que desafie o duopólio PT-PSDB.

Vítor Oliveira
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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