A tragédia imprevisível e a modificação das expectativas eleitorais

O retorno de Marina Silva torna a disputa eleitoral mais apertada e incerta. Caso o PSB consiga se coordenar internamente, existirá a primeira ameaça crível à polarização entre PSDB e PT no plano nacional - a qual deveria ser mantida com a concorrência de Campos em 2014.
Blog por #épolítica  

Embora a bola de cristal do mercado tente mitigar, dia após dia, a incerteza eleitoral, não saber quem vencerá uma eleição é um dos aspectos mais fascinantes da democracia e – certamente –, uma prova do seu bom funcionamento.

A ameaça de Marina Silva ao duopólio PT-PSDB é, neste sentido, algo positivo. Mesmo que trágica, a eleição de 2014 tem a marca da imprevisibilidade e deixa como legado a dificuldade em se prever uma corrida eleitoral – especialmente quando se tenta prever o efeito de eventos “externos” aos fatores tradicionais.

Assim como nas análises sobre a precificação de ativos e na gestão de carteira, boa parte dos modelos que preveem resultados eleitorais desconsideram sistematicamente fatores de risco e eventos de natureza aleatória. Não é fácil, assim como não será fácil entender o que acontece com a entrada em jogo de Marina Silva.

Virada de Mesa
Há poucos meses, as principais expectativas relativas às eleições de 2014 previam que dois fenômenos externos ao cotidiano das disputas partidárias tinham o potencial de afetar o equilíbrio da competição política.

De certo modo ligados, seriam eles: (1) a Copa do Mundo e (2) a onda de insatisfações sociais e políticas, que estimularam a ida de boa parte da população às ruas em 2013.

Contudo, as hipóteses a respeito das potencialidades negativas que a Copa do Mundo traria para o jogo eleitoral não encontraram respaldo nas pesquisas. Ao mesmo tempo, um evento singular e repentino poderá ser capaz de virar a mesa.

Externalidades
Tanto a ideia de que as chances da reeleição de Dilma – em caso de desastre organizacional – seriam reduzidas a pó, quanto a de que sua aprovação seria impulsionada em caso de sucesso (dentro e fora de campo), não se mostraram fortes o suficiente.

Em que pese o fato da maré de pessimismo ter se amainado, com o bom trabalho organizacional mostrado pelo Brasil durante a disputa futebolística, seu efeito não se tornou perene. Já as manifestações de massa perderam fôlego, com o polêmico aumento da repressão - também em função da reversão de expectativas com a Copa, que neste caso, pode ter sido crucial.

A política eleitoral brasileira, depois do dia 13 de julho, parecia ter contornado as externalidades cujo impacto anunciado era grande, tal qual em outras eleições da Nova República.

Singularidade
Mas mais uma vez o imprevisível – e muito trágico – entrou em ação. A ascensão política do jovem Eduardo Campos foi interrompida da forma mais triste possível para sua família e todos aqueles que o cercavam.

Após alguns dias necessários para a reflexão sobre a própria vida, espera-se que o calendário dos bastidores da política prossiga, com sua inevitável teia de relações e disputas.

Eduardo Campos ainda não conseguira canalizar o apoio difuso obtido por Marina Silva em 2010, mostrando-se um adversário frágil para o tucano Aécio Neves, na disputa pela segunda vaga do 2º turno.

Embora fosse evidente que Eduardo alçaria voos mais altos em sua carreira política, a chegada ao Planalto em 2015 parecia improvável.

Portanto, o retorno de Marina Silva para a cabeça da chapa torna a disputa eleitoral mais apertada e incerta, a despeito do tradicional exagero que se faz sobre a participação da terceira força em eleições nacionais, desde 1998.

Caso se confirme este cenário e o PSB consiga se coordenar internamente, existirá a primeira ameaça crível à polarização entre PSDB e PT no plano nacional – a qual deveria ser mantida com a concorrência de Campos em 2014.

Vantagem em Suspenso
Nas pesquisas de abril deste ano, o desempenho de Marina já era superior ao de Aécio Neves – ainda que isso se devesse por ser mais conhecida do eleitor –, e a imagem da candidata da Rede/PSB tenderá a ficar ainda mais turbinada com os acontecimentos recentes.

Além disso, a tão sonhada unificação das oposições pelos tucanos no 2º turno torna-se mais difícil, caso o candidato da oposição seja o próprio Aécio Neves. Como em 2010, é muito provável que Marina mantenha o seu discurso de distanciamento dos bastidores da luta entre tucanos e petistas.

Por outro lado, caso o cenário de vitória de Marina sobre a Aécio, com sua consequente ida ao 2º turno, pode representar de fato o único cenário no qual a oposição tende a se unificar contra o governo.

Isto por que imagina-se o anti-petismo do eleitorado tucano muito mais forte que entre os marineiros.

Discursos
Além de todo o capital político obtido e mantido desde 2010, a louvação à figura de Eduardo Campos será incluída no repertório de Marina Silva, ainda que os efeitos deste uso sejam difíceis de projetar.

A candidatura do PSB será também presenteada por uma extensa exposição espontânea em todos os veículos de comunicação.

A chegada das eleições na casa do cidadão brasileiro não se dará desta vez apenas pelos apelos da Justiça Eleitoral e pelo início da campanha eleitoral televisiva, mas sim pela série de reportagens e a enxurrada de informações sobre o próprio acidente que levou Eduardo e pela imagem que será construída sobre sua figura.

Em momentos como esse é esperado que a notícia veiculada capture apenas os melhores momentos de sua carreira política. É pouco provável que os principais veículos de comunicação se dediquem a tecer críticas mais fortes e contundentes ao currículo de Eduardo Campos, o que seria forte indelicadeza.

E além do mais, as críticas que foram por ele realizadas até agora não serão mais facilmente rebatidas pelos candidatos adversários.

É muito difícil ter uma estratégia de como desconstruir o discurso adversário, a qual não soe rude ou mesmo desumana, quando este oponente morreu de forma tão comovente.

Para os olhares e ouvidos do cidadão que ainda não decidiu seu voto, Marina Silva parecerá muito mais palatável.

Ivan Fernandes e Vítor Oliveira
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com