Bancos optam por hedge eleitoral, em vez de terrorismo financeiro

Dizer que atores do mercado financeiro não possuem influência sobre as eleições seria um absurdo. Mas parece que isso está mais associado ao dinheiro distribuído do que aos palpites dados.
Blog por #épolítica  

Poucas coisas irritam mais no debate político cotidiano que o maniqueísmo. Assim, a ideia de terrorismo financeiro parece tão estapafúrdia quanto a de que caminhamos em direção a uma ditadura comunista.

Não que megainvestidores sejam incapazes de produzir terrorismo, tampouco que políticos não sonhem com impérios de esquerda. Todavia, parece haver uma diferença substantiva em afirmar que haverá uma deterioração econômica, no caso de vitória do candidato X, frente a coisas como “amanhã 800 mil empresários vão fugir do país”, como já se ouviu em eleições passadas.

Diante do fogo cruzado semirreligioso, nos curvamos às evidências de que dispomos.

A despeito das análises contrárias à Dilma, ou da ideia de que ela não é a melhor candidata do ponto de vista da gestão econômica para o mercado financeiro, as instituições dessa natureza devem manter a mesma postura de outras eleições: análises conjunturais, que por vezes são mal feitas e por outras são bem consistentes, e uso da principal ferramenta para influenciar eleições, o financiamento de campanha, que muitos entendem como imoral – ainda que legal.

No creo en las brujas, pero que las hay, las hay...
Dizer que atores do mercado financeiro não possuem influência sobre as eleições seria um absurdo. Seja em função dos recursos de que dispõem, ou das redes às quais se conectam, sua capacidade de potencializar ou dificultar a vida de um candidato é maior que a de um cidadão isolado.

Mas parece que isso está mais associado ao dinheiro que distribuem do que aos palpites dados. Você seria capaz de votar na recomendação de um analista?

Assim, os principais bancos que atuam no Brasil possuem uma estratégia curiosa: enviar dinheiro equitativamente/proporcionalmente aos principais candidatos à presidência, em vez de apostar em um partido ou grupo político.

O que pauta essas organizações? As pesquisas, e o desejo de manter bom relacionamento com o governo de plantão. Mas tem o outro lado: são procurados pelos partidos e candidatos, e por vezes entendem que o melhor, na política da cordialidade brasileira, é ajudar.

Doações para a campanha presidencial (R$) 2010


Fossem os bancos tão determinados na tarefa de influenciar o resultado eleitoral a seu favor, seus recursos estariam canalizados totalmente para um dos partidos, ou para uma coligação. Correto?

Contra intuitivamente, muitos deles privilegiaram inclusive o partido menos identificado com políticas pró-mercado, durante sua última campanha presidencial.

Qual a racional? Manter o diálogo com o governo, a despeito do vencedor. Aparentemente, faz mais sentido ter a certeza de estar na lista de convidados, que obter um ingresso para a área VIP.

Algo muito próximo de uma operação de hedge, a fim de mitigar riscos políticos – a despeito da preferência eleitoral dos atores. Algo muito distinto de terrorismo. Muito distinto!

Racionalidade
Podemos discutir aqui horas e horas sobre a eficiência com que os mercados transformam informações em rendimento, bem como se os agentes são de fato racionais e capazes de tomar decisões de acordo em ambientes de risco.

Ainda que o mercado reaja a conjuntos de informação disponíveis, não acho um absurdo questionar a qualidade dessa informação, especialmente quando ela é interpretada por gente mais acostumada a entender fluxos de caixa que demandas por direitos sociais e civis.

Não obstante, existe um dado fundamental sobre o atual comportamento dos mercados: tudo o mais mantido constante, existe uma correlação significativa entre os preços de ativos – como ações de estatais – e o desempenho da oposição ao governo federal nas pesquisas eleitorais. Simples assim.

Em primeiro lugar, o mercado prefere Aécio, Campos e até Lula a Dilma. Por sinal, o mercado reforçou e comemorou com certa timidez o movimento “Volta Lula” – e nesse caso por uma razão simples: é livre pra isso.

Parece ser difícil refutar a hipótese de que o aumento nas chances da oposição causa o aumento dos preços das ações de empresas mais expostas ao setor público.

Portanto, beira o obscurantismo dizer que esta constatação por parte de um analista é terrorismo financeiro/eleitoral. Parece tão lógico quanto queimar uma mulher em praça pública por acusação de bruxaria.

Pior ainda quando os argumentos quase xenófobos dizem que um banco espanhol não pode fazer isso porque a Espanha está quebrada. Então quem pode? A Alemanha? Se sim, dançam os argumentos, pois o Deutsche Bank opinou de maneira semelhante.

Em segundo lugar, do ponto de vista de um eleitor afinado ao atual governo, é tão ruim assim que o mercado deixe clara sua preferência pela oposição?

Se o PT tem orgulho de promover políticas redistributivas e vê com bons olhos a maior interferência na economia – entre outros temas –, qual a surpresa em não ser o preferido do mercado? O incômodo deveria ser motivo de orgulho, não?

Como dado, o partido defensor do financiamento público de campanhas foi capaz de arrecadar, no mercado privado, com muito mais eficiência que os rivais, em ano não eleitoral – nacionalmente a legenda teve arrecadação dez vezes maior que o PSDB, o segundo colocado, em 2011. Aparentemente, o financiamento privado não ocorre em detrimento do PT.

Santander, Empiricus...
Especialmente no caso envolvendo a analista do Santander, a aparência é de uma ação exagerada por parte da candidatura situacionista, frente a um caso muito distinto do que ocorrera em 2002, com a famigerada declaração de George Soros, ou em 1989, com outro caminhão de teorias sobre o pós-PT.

Talvez o ressentimento petista com o temor do mercado tenha causado uma reação desproporcional, mas é preciso ponderar que a reação atual não foi verificada em 2010. Dilma era vista com muito mais simpatia e, a impressão que fica, é a de um mercado lidando com o passado recente da presidente – não com preconceitos, como em outros tempos.

Ninguém disse em carta que o Brasil dará um calote ou suspenderá o direito à propriedade, caso Dilma Rousseff seja reeleita. Essa era a versão 1989 da campanha.

Pelo contrário, os argumentos mais pessimistas sobre o futuro próximo da economia brasileira, como os da Empiricus Research, dizem respeito à heterodoxia do atual governo e suas esperadas consequências.

Pois é este o debate econômico proposto em 2014. Em artigo de 07 de julho, no Le Monde Diplomatique, Eduardo Fagnani, do Instituto de Economia da Unicamp, deu destaque a este tópico e afirmou que “[o combate à desigualdade] também exige o reforço do papel do Estado e a revisão dos pressupostos que dão substrato ao chamado “tripé” macroeconômico (câmbio flutuante, superávit fiscal e metas de inflação)”.

É tão absurdo censurar os críticos da heterodoxia econômica, quanto seria impedir os seus defensores de manifestá-la publicamente, com o agravante que analistas de mercado e – em especial – uma casa de análise independente como a Empiricus Research, possui o dever profissional de manifestar sua opinião.

Ao contrário de muitos no mercado, os analistas da Empiricus não projetam resultado de eleição. De toda forma, seu pecado – se existiu – foi o de ter utilizado uma campanha de marketing demasiadamente arrojada para um ano eleitoral, em que se busca o máximo de igualdade possível para os principais candidatos.

Aparentemente, não houve intenção de dolo à campanha da presidente, ainda que o resultado dos anúncios possa ter sido este. O julgamento se deu em função das regras bastante restritivas à comunicação que vigoram no Brasil, em período eleitoral, os quais precisam também ser debatidos.

Embora seja razoável o motivo da campanha de Dilma Rousseff, ao buscar o veto judicial à propaganda dos relatórios da Empiricus, o timing da decisão – logo após a crise com o Santander – passou toda a impressão de intolerância com a oposição e incapacidade de lidar com críticas.

Não basta ser democrata, jogando pelas regras do jogo. Às vezes, quando se ocupa o governo, é preciso ser o campeão da democracia, em cuja base está a tolerância à oposição legítima. Mas talvez isso seja apenas um exagero normativo...

Vítor Oliveira
Humberto Dantas
#épolítica

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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com