A tragédia do PFL/DEM: Parte II - A perda de prefeitos e da oligarquia

A escolha do senador tucano Aloysio Nunes como candidato a vice na chapa encabeçada pelo também tucano Aécio Neves transformou-se numa cabal demonstração do esgotamento quase completo do Democratas - fundado como PFL - como partido de primeira ordem da política brasileira. Este enfraquecimento tem raízes na desconexão oligárquica do partido com a perda da sua base de poder nos municípios brasileiros, sobretudo nas duas regiões mais pobres do país - Norte e Nordeste. De partido fundamental para a estabilidade, o Democratas tornou-se um ator inexpressivo no sexto embate eleitoral entre PSDB e PT.
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Em post anterior (link) discutimos como o convite feito por Aécio Neves ao tucano Aloísio Nunes para ser o vice-presidente da principal chapa de oposição reflete o esgotamento quase completo dos Democratas como partido de primeira ordem da política brasileira. Agora discutimos as raízes municipais desse enfraquecimento.

O Partido Democratas fora fundado em 1985, então como PFL, em meio às articulações de Tancredo Neves (PMDB) no Colégio Eleitoral e desde seu nascimento mostrou sua vocação governista.  O PFL surgira de uma ruptura do partido da Ditadura Militar – o então sucessor da Arena - o PDS, para formar a “Aliança Democrática” com Tancredo e fiar a transição democrática. 

SEMPRE NO GOVERNO
Uma das lideranças desta dissidência – José Sarney – após criar o PFL, migrou para o PMDB e ocupou o posto de candidato à vice-presidente. Com os eventos que se seguiram à vitória de Tancredo, Sarney tornou-se o primeiro Presidente após a Ditadura. E durante o seu mandato, o PFL foi importante aliado de seu governo.

O mesmo aconteceu no período Collor / Itamar. Durante o governo FHC, o partido atingiu o seu apogeu político ao eleger por duas vezes consecutivas o vice-presidente Marco Maciel.

PODER OLIGÁRQUICO
Em todo esse período, as alianças entre PFL – PMDB e depois entre PFL – PSDB representavam uma espécie de consórcio entre progressistas, reformistas e urbanos do centro - sul e lideranças mais conectadas ao passado oligárquico brasileiro.

As origens do poder oligárquico estavam na maioria dos casos associadas a coronéis do Norte e Nordeste. Tais consórcios políticos garantiam a reprodução oligárquica a partir da presença constante do PFL como aliado do governo federal e também ao ser o partido que comandava mais prefeituras nestas duas regiões mais empobrecidas do país.

Contudo as políticas de inclusão e de fortalecimento da renda realizadas pelo lulo-petismo corroeram a fonte primordial da força política do PFL, transformado em Democratas (DEM) em 2007, ao transferir parte do poder municipal do DEM para a aliança entre PT e PMDB.

A PERDA DO PODER MUNICIPAL
O sintoma mais claro do esfacelamento do PFL/DEM é a perda do número de prefeituras sob seus domínios no Brasil e sobretudo no Norte/Nordeste.

No Brasil como um todo o PFL/DEM perdeu nada menos do que assustadores 71% de suas prefeituras entre as eleições de 2000 e de 2012. Enquanto em 2000 possuía 1026 prefeitos eleitos, ficando apenas atrás do PMDB - dono de 1255 prefeituras, em 2012 o número caiu para apenas 295.

Por sua vez, para o PMDB tudo continuou como dantes no quartel de Abrantes, mantendo um número muito próximo de prefeituras (1255 e 1024, respectivamente).

Já para o PSDB, outro partido que acompanhou a tendência de queda do PFL/DEM, a sua curva foi bem mais suave, refletindo muito mais sua perda de poder no âmbito federal do que o esfacelamento de seu poder municipal: obteve em 1998 cerca de 989 prefeituras e em 2012 apenas 702; queda bem menos aguda, mas ainda sim importante - 29%

O PT, por sua vez, apresentou um crescimento de 240% no número de prefeitos eleitos, indo de 187 para 635 prefeitos eleitos.

NORTE E NORDESTE
Nos dados do NORTE e NORDESTE, as tendências são todas mais agudas. O PFL/DEM perdeu 83% de suas prefeituras – caindo de 541 para apenas 94, enquanto a queda do PSDB foi de 50%. Já o PT teve crescimento de mais de 450% no número de prefeituras sobre o seu domínio – subindo de apenas 42 para 239 em 2012.

Em ambos os casos, como esperado, o PMDB manteve-se com o mesmo número de prefeituras. Em 2008 transformou-se pela primeira vez no principal partido do interior do NORTE/NORDESTE ao passar o número de prefeitos do PFL/DEM, posição mantida em 2012.

NOVOS CENÁRIOS
Este brutal enfraquecimento do DEM tem como principal efeito o esvaziamento das forças daquela Direita mais antiga e com viés oligárquico da política brasileira. Simboliza também os "finalmentes" da transição democrática brasileira. O último grande partido que surgiu do ventre do governo militar distancia-se pela primeira vez das decisões tomadas em Brasília.

É possível pensar em duas respostas do sistema partidário para essa lacuna criada na Direita:

a) Uma reordenação do posicionamento dos partidos, com alguém migrando para a direita e ocupando este espaço vazio. O PSDB é o principal candidato, já que a sua agenda original socialdemocrata foi tomada pelo PT e até hoje o partido encontra dificuldades em definir um discurso político eleitoral claro. 

b) Em segundo lugar, uma oportunidade de se construir uma nova Direita – que talvez nunca tenha existido no Brasil - que se distancie do conservadorismo oligárquico, a marca de nascença do DEM, e se aproxime de propostas mais conectadas com a contemporaneidade ao colocar como pautas prioritárias de sua agenda a eficiência econômica e quiçá a menor participação do Estado na vida e no bolso do brasileiro.

IVAN FERNANDES
#épolítica.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com