Compra ou vende? A crônica do apreçamento apressado do segundo turno

O mercado brinda as ações das estatais, como se a pesquisa de julho fosse capaz de mostrar um quadro consolidado. Mas como especulação e apostas são sempre bem vindas, e o mercado adora dizer que é sensível, confesso que findo me divertindo com expectativas
Blog por #épolítica  

O mercado brinda as ações das estatais, como se a pesquisa de julho fosse capaz de mostrar um quadro consolidado. Mas como especulação e apostas são sempre bem vindas, e o mercado adora dizer que é sensível, confesso que findo me divertindo com expectativas.

Aécio, seguindo o que o mercado deseja, pode ganhar a eleição? Claro que sim. Tem mais chances, hoje, do que Campos e Everaldo, e menos chances que Dilma.

Mas as pesquisas podem ser vistas sob a lógica de suas tendências. Nesse caso, desde maio nada muda: Dilma tem algo como 36,5%, Aécio estaciona nos 20% e Campos oscila entre 7% e 11%. Mas no caso das movimentações de mais longo prazo, o mercado ansioso se ampara no mais surpreendente dado da pesquisa: num eventual segundo turno em fevereiro, Dilma tinha 53% e Aécio 29% - quase o dobro. Hoje eles estão tecnicamente empatados com 44% e 40%, respectivamente. Pronto! Telefone toca: “compra Petrobras, compra Petrobras”!

Sem querer ironizar, pois cada ramo profissional tem suas características, fiquemos com alguns dados importantes: no começo de julho mais de um terço do eleitorado dizia ter pouco ou nenhum interesse pelas eleições. Na pesquisa espontânea, pasme, ainda temos 54% de pessoas que não sabem em quem votariam quando “surpreendidas” pela pesquisa.

Perceba: mais da metade dos brasileiros sequer sabe o que fazer diante da urna – imagina se esse cara atuasse no mercado de ações! Assim, se somarmos quem conhece muito bem com quem conhece um pouco os candidatos teremos: Dilma 85%, Aécio 54% e Campos 41%.

Concebes a ideia de que 15% conhecem de “ouvir falar” ou não conhecem Dilma Vana Rousseff? Onde vivem? Renato Russo gritaria nos microfones: “que país é esse!”.

Perceba também que Dilma tem 35% de rejeição (ruim e péssimo na avaliação de seu governo) e Campos e Aécio mal são conhecidos do eleitorado. Bom ou ruim pro mercado? Depende do que eles ensaiarão no horário eleitoral gratuito – pra refrescar a memória com dado recente, Haddad tinha 8% dia 20 de agosto e com a TV chegou a 14% em menos de 10 dias.

Dilma terá quase 12 minutos de TV contra menos de cinco de Aécio – “vende Petrobras!!!!!!!”. Mas em 2002, Serra tinha 10 minutos e Lula cinco – “vamos segurar um pouquinho?” Vamos? Pode ser: os jingles foram lançados essa semana e o da presidente é complicado, sem refrão chato e confuso nas ideias. Duvido que chegue ao fim da campanha dessa forma.

Fecho minha análise bem humorada lembrando que o PSDB temia demais a candidatura de Aécio Neves em São Paulo porque entendia que ele não decolaria: o mineiro empatou com Dilma no estado com maior eleitorado no país – 25% x 25%. No geral, Dilma, desde fevereiro, perdeu eleitores com ênfase entre os menos escolarizados e no Nordeste – eleitorados fortes do PT nos últimos anos.

E agora? Aguarde; é cedo, para quem analisa política. Já para quem atua no mercado, qualquer segundo pode representar algo precioso. E aí, se for pra falar sério, consulte seus analistas e eles dirão se deves comprar ou vender algo...

 

Humberto Dantas
#épolítica 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com