Bacanais partidários?

Não existe novidade e tampouco deve ser visto como aberração o fenômeno das alianças entre partidos nos estados brasileiros. Os estímulos locais e as lógicas regionais são mais fortes, apesar de que o eleitor poderia ter um pouco mais de capacidade de punir alguns acordos. A despeito disso, o fato é que uma análise histórica das alianças mostra tendências razoáveis e uma avaliação da atualidade aponta alguns partidos mais e outros menos apegados a comportamentos federais.
Blog por #épolítica  

As alianças entre partidos para a disputa de governos estaduais e as eleições presidenciais formam mesmo um imenso bacanal de acordos, como tem repetido os entusiastas de punições, os insatisfeitos de ocasião ou os amantes de reformas políticas? Com base em um conjunto de dados do Banco de Dados Eleitorais do Centro de Estudos da Metrópole, ofertado pela pesquisadora Lara Mesquita, resolvi fazer alguns testes. Descobri o óbvio e desvendei algumas coisas novas e interessantes no período de 1994 a 2014.

O óbvio é que o nível de participação em alianças (coligações) é crescente desde 1994. Enquanto naquele ano havia uma média de 4,8 partidos por candidatura coligada (por estado), em 2014 esse número atingiu 9,2. Não sem antes sofrer queda em 2002 por conta da invenção do Tribunal Superior Eleitoral que recebeu o nome de verticalização e desorientou os partidos nos seus cálculos locais, que são muito mais razoáveis que as apostas federais – acredite nisso.

E lembre-se: só se disputa a presidência e a vice no Brasil, o resto é estadual. Os estímulos só podem ser maiores em termos descentralizados, e isso a teoria política já provou que funciona para países federativos como um todo.

Assim: quanto mais os partidos se capilarizam pelo país e são livres para celebrarem acordos, mais teremos alianças. Outro cenário possível seria termos mais candidaturas, mas não é o que acontece. A média de partidos envolvidos nas eleições para governador por estado em 1994 era de 19, e saltou para quase 25 agora. O total de legendas no país era de 24 em 1994, indo para 30 em 1998 e batendo 32 em 2014. Mais legendas, mais capilarizadas e sem mais tantos candidatos, resultado: mais acordos. É assim que funciona, mas isso está no campo do óbvio.

No campo da novidade, um estudo que fiz com 12 partidos políticos: os maiores e mais relevantes presentes em todas as eleições do período de 20 anos estudado: PFL-DEM, PPR-PPB-PP, PL-PR, PTB, PSDB, PMDB, PV, PPS, PSB, PDT, PT e PC do B – nos três primeiros casos ocorreram mudanças de nomes ou fusões. A pergunta: existiria lógica nas coligações entre os partidos nas disputas para governador? Ao contrário do que dizem os alarmistas de plantão: seria possível verificar algo que pudesse ser entendido como tendência? Sim, existem tendências.

Se pegarmos as seis eleições para governador do período e multiplicarmos pelos 27 estados teremos 162 disputas para governador nesses vinte anos. Para a surpresa geral, PT e PC do B, por exemplo, estiveram coligados em mais de 75% dessas eleições, o que faz da dupla a aliança mais comum em torno de candidatos a governador. Acima de 40% de acordos apenas outras seis ligações: PSDB e PFL-DEM (47%); PC do B e PSB (43%); PTB e PFL-DEM, PT e PSB, e PTB e PPR-PPB-PP todas com 41%; PPS e PSDB, e PPR-PPB-PP e PFL-DEM com 40%.

Não existem razões em tais ligações? Aspectos ideológicos e históricos envolvem tais associações entre estes partidos, bem como questões de dependência de legendas menores em relação às maiores. Aqui não parece existir desordem, apesar de os fenômenos não serem verificados tais como uma regra absoluta, sobretudo porque em muitos estados esses pares não se entendem por razões igualmente relevantes sob o ponto de vista histórico, principalmente.

Do outro lado desse ranking de alianças encontramos, com menos de 10%, o PT com o PSDB (2,5%) e com o PFL-DEM (3,1%), bem como o PC do B com essas duas organizações de centro e direita em percentuais idênticos: 6,2%. Não existe lógica? Alguma há de existir. O problema, no entanto, é que sobra uma montanha de outros cruzamentos possíveis entre legendas que variam entre 12% e 40% e parecem emprestar verdadeiro ar de “vale tudo” aos acordos. Caos? Não necessariamente.

Mas devemos entender que nos estados os tamanhos dos partidos variam, e eles são avaliados, em termos eleitorais, muitas vezes, por recursos como tempo de TV e coisas do tipo. Assim, um partido nacionalmente forte e localmente fraco pode findar entrando em qualquer tipo de negociação, adensando o sentimento de desordem. Isso deve ser considerado, e também o fato de que os mais diferentes acordos locais se juntam em Brasília em torno de bancadas coesas no Congresso Nacional. Por sinal, muito do que se acorda na eleição nacional não faz sentido local algum.

Como explicar isso para o eleitor, sem que ele considere tudo uma verdadeira baderna? Simples: entendendo aspectos relevantes de nossa política.

Nesse sentido busquemos verificar nessas eleições de 2014 quais os partidos que mais se alinham aos companheiros de coligação presidencial nos estados e aqueles que mais se alinham a adversários. Peguemos as principais legendas do presente político brasileiro: DEM, PP, PTB, PSD, PROS, SDD, PR, PSDB, PMDB, PT, PDT, PC do B, PPS e PSB e as três principais candidaturas presidenciais (Dilma, Aécio e Campos).

Tomemos o número de alianças estaduais como base, ou seja, o total de governos estaduais que cada par de partidos disputa junto. O maior número são as 20 alianças entre o SDD e o PSDB, e o menor número é zero, total de acordos entre PT e PSDB – se bem que quase se uniram no Mato Grosso do Sul. Dos 14 partidos desse exercício, dez se alinham, em média, mais com aliados federais do que com adversários, sendo o saldo do PT o mais expressivo: média de 3,3 estados com opostos e 9,3 com aliados federais. O PSDB vem logo em seguida com 5,70 (15,3 estados com aliados e 9,6 com adversários).

Na ponta oposta, com números negativos, temos: PR, PTB, PP e PSD. Percebe-se que são partidos de ideologias mais à direita e todos governistas. Três deles apoiam com naturalidade a candidatura do PT, em tese de esquerda. Seriam os responsáveis maiores pela desordem? A história recente do país, inclusive, envolve três deles no maior julgamento de corrupção do país e o nascimento do PSD é repleto de polêmicas.

Assim, se por um lado pode haver certa lógica, por outro existem interesses capazes de transcender aquilo que se espera de um partido enquanto representante de planos e objetivos claros para o país. Longe de considerar que tudo é uma grande algazarra, o desafio para alguém que busca fazer análises políticas é compreender que em cada estado existem histórias diferentes, e que os partidos têm pesos distintos que, apesar de sofrerem impactos de determinações nacionais das legendas, costumam ter vida própria.

Assim: olho na história de cada estado e fuja das soluções simples para fenômenos complexos. Bacanais são festas infinitamente mais complexas e, para alguns mais divertidas, do que alianças partidárias.

 

Humberto Dantas - #épolítica
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Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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