Copa do Mundo e eleições: a lógica votopédica

Passada o que para muitos foi uma hecatombe nuclear no Mineirão, a pergunta a ser respondida pelos analistas políticos é se a eliminação da Seleção nas seminais da Copa do Mundo terá repercussões eleitorais. Nossa hipótese é que as primeiras semanas do evento mostraram uma organização melhor que a esperada e isto, primordialmente, teve impacto positivo na intenção de voto em Dilma Rousseff.
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Passada o que para muitos foi uma hecatombe nuclear no Mineirão, a pergunta a ser respondida pelos analistas políticos é se a eliminação da Seleção nas seminais da Copa do Mundo terá repercussões eleitorais.

Um primeiro olhar para o passado nos mostra que, desde 1994, as eleições para governador e presidente ocorrem no mesmo ano que as Copas do Mundo. Assim, vamos para o sexto pleito sob tais condições.

De lá para cá, em 1994 ganhamos nos Estados Unidos e o governo fez seu sucessor. No torneio seguinte o Brasil perdeu uma final para a França e viu o presidente Fernando Henrique Cardoso ser reeleito, em 1998, ainda em primeiro turno. Quatro anos depois, a Seleção foi campeã – com direito a cambalhotas de Vampeta na rampa do Planalto – e o candidato da situação (José Serra) perdeu em segundo turno para Lula.

Momento especial
A análise qualitativa, que poderia ser expandida para as copas de 2006 e 2010, não corrobora a hipótese de que o candidato presidencial da situação tem seu desempenho atrelado ao da Seleção.

A pátria, por assim dizer, penduraria as chuteiras após a Copa? Pode ser que sim; por sinal, se analisarmos questões econômicas (Plano Real, combate à inflação, desemprego, avanços sociais) e políticas teremos poucas razões para acreditar em futebol como expressão eleitoral.

No entanto, vivemos uma circunstância especial. A Seleção não apenas disputa a Copa, como também a joga no Brasil, cujo setor público é responsável por sua organização em diversos níveis – federal, estadual e municipal. Nesse caso, a Copa não é apenas um torneio, mas um evento associado à gestão pública.

Em que pese a composição multipartidária dos governantes de estados e municípios, corresponsáveis pela organização da Copa, a sensação é de uma identificação maior com o governo federal e, mais especificamente, com a atual presidente e seu partido, o PT, que buscaram intensamente associação à competição.

Com razão: a organização e a capacidade de o país “cumprir com o prometido” estavam em jogo. Cumprimos? Sim, em parte. Mas o suficiente para contagiar o país com um bom humor que se verificou nas pesquisas. Mas e agora que fomos humilhados? O bom humor diminui? Pode ser que sim. Mas o tempo é variável necessária.

Seleção X Organização
Assim, a expectativa de que a derrota humilhante da Seleção tenha reflexo nas urnas passa por um pressuposto, a nosso ver, um pouco exagerado: o de que o eleitor não conseguiria discernir a diferença entre campo e organização.

Cabe perguntar se a mudança positiva no humor do brasileiro em relação à Copa, verificada pela última pesquisa Datafolha, foi reflexo dos resultados obtidos pela Seleção, ou se deu em função de um desempenho melhor que o esperado na organização do evento. Parece possível prever uma associação entre ambos.

Nossa hipótese é que as primeiras semanas do evento mostraram uma organização melhor que a esperada e isto, primordialmente, teve impacto positivo na intenção de voto em Dilma Rousseff.

Antes que a tradicional chuva de pedras comece, não queremos com isto dizer que o evento foi bem organizado. Pode até ter sido, mas isso é indiferente ao argumento: o ponto é que a Copa reverteu as péssimas expectativas criadas sobre sua organização.

Do ponto de vista eleitoral, significa que a presidente foi capaz de recuperar uma parcela do eleitorado de quem já era a preferida, mas que havia optado por dizer que “não sabia” em quem iria votar, ou que votaria em branco, uma vez que o desempenho melhor da candidata se deu – basicamente – em função da queda da soma de “branco/nulo/nenhum” e “Não sabe”.

Destaque nesse ponto: a última pesquisa mostrou um acréscimo de seis pontos aos três principais candidatos, e diminuição de brancos, nulos e indecisos. Isso tem grande relação com humor.

Ademais, apenas para relembrar, a presidente cresceu 4 pontos percentuais, enquanto seus principais oponentes também oscilaram positivamente um ponto. O grupo, tradicionalmente, chamado de “indecisos”, passou de 30 para 24 pontos percentuais.

Imagina na Copa...
No fim das contas, isto tudo significa dizer que humor positivo com o evento não é tão sensível ao desempenho da Seleção em campo, mas sim à percepção da organização com o evento? Pode ser, mas perder de 7x1 pode ser demais!

Ainda assim, alguns dados da pesquisa fazem crer que esta é a interpretação correta:

1) A pesquisa foi colhida logo após a exibição terrível da Seleção contra o Chile e antes do jogo melhor contra a Colômbia. Ou seja, em um ambiente, no mínimo, pouco empolgante do ponto de vista do futebol jogado.

2) O Datafolha apontou um aumento de 15 pontos percentuais nos que diziam que a organização da Copa pelo Brasil causava “mais orgulho”. Ao mesmo tempo, constatou uma queda de 14 p.p. no grupo que respondeu que a Copa causava “mais vergonha”.

3) Ao mesmo tempo, houve uma queda de 3 pontos percentuais nos que diziam que o desempenho da Seleção causava “mais orgulho”, e um aumento de 7 p.p. nos que diziam que o desempenho causava “mais vergonha”

4) Praticamente não houve mudança da percepção de orgulho e vergonha atrelada a protestos, o que parece isolar os dois efeitos anteriores: desempenho e organização.

5) No mesmo período em que houve aumento da intenção de votos em Dilma Rousseff, houve queda de 3 pontos percentuais da avaliação de Felipão.

Opinião sobre temas da Copa do Mundo - Datafolha
(Resposta Estimulada e Única)
 
Tema Mais Orgulho Mais Vergonha Não Sabe
*Fonte: http://media.folha.uol.com.br/datafolha/2014/07/03/copa-do-mundo.pdf
Organização Pelo Brasil (03/06 a 05/06) 45% 42% 13%
Organização Pelo Brasil (01/07 a 02/07) 60% 28% 12%
Desempenho da Seleção (03/06 a 05/06) 69% 15% 16%
Desempenho da Seleção (01/07 a 02/07) 66% 22% 12%

 

Honestamente, este é apenas um palpite bem informado, de quem infere que o desempenho de Dilma Rousseff no último Datafolha esteve – sim – vinculado à melhora do humor com a Copa, mas que isto se deveu, basicamente, a uma organização melhor que o esperado.

Ou seja, Dilma cresceu por conseguir recuperar aquele eleitor que – embora gostasse dela –, estava envergonhado com a organização da Copa do Mundo. Mas esse humor também mexeu positivamente, de forma discreta e dentro da margem de erro, nos adversários.

Em plena Copa o país estaria atento às eleições? Isso não podemos afirmar, mas os cenários vão se desenhando dentro do esperado: com o tempo. A próxima pesquisa será capaz de ajudar mais nessa lógica futebolística-eleitoral.

Vítor Oliveira e Humberto Dantas
#épolítica

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com