A tragédia do PFL/Dem: sem o vice de Aécio e perto da insignificância

A escolha do senador Aloysio Nunes (PSDB) como candidato a vice-presidente, na chapa encabeçada pelo também senador Aécio Neves (PSDB), transformou-se no principal evento político da semana, ainda que esteja longe de ser uma surpresa. Algo que pouca gente parece ter notado é como esta escolha demarca a insignificância política daquele que já foi um dos maiores partidos brasileiros - o PFL/Democratas.
Blog por #épolítica  

Alguns dos capítulos finais de uma tragédia partidária foram escritos nesta semana, com a escolha do senador Aloysio Nunes (PSDB) para o lugar de vice-presidente na chapa de Aécio Neves (PSDB).

A cobertura da escolha foi intensa, mas pouca gente parece ter notado como ela demarca a insignificância política daquele que já foi um dos maiores partidos brasileiros – o antigo PFL, hoje Democratas.

Certamente, não chamou a mesma atenção da mídia que a escolha – quase inescapável – de Marina Silva (PSB/Rede), como vice de Eduardo Campos (PSB/PSB). Esta sim, uma medida feita para causar barulho e potencializar a candidatura presidencial junto à massas.

Assim, Aloysio Nunes se parece muito mais com as escolhas de Michel Temer e Marco Maciel – a despeito de sua militância na oposição armada ao regime militar –, por estar ligado ao papel de coordenação política exercido pelos partidos.

Dentro do presidencialismo de coalizão, cabe dividir o ônus e o bônus com os parceiros – e o vice faz exatamente isto. No entanto, a escolha de Nunes possui uma divergência fundamental: é do mesmo partido de Aécio Neves. Onde está o Democratas?

Parceiro Preferencial
Como já foi dito aqui neste blog, a história das eleições presidenciais brasileiras pode ser resumida no binômio PT-PSDB, sempre com um terceiro partido tentando um lugar ao sol.

No lado tucano, a indicação a vice foi costumeiramente estendida ao parceiro principal. Foi assim com FHC e Marco Maciel (PFL) em 1994 e 1998, José Serra e Rita Camata (PMDB) em 2002, Geraldo Alckmin e José Jorge (PFL) em 2006 e, finalmente, José Serra e Índio da Costa (Dem) em 2010.

Apenas em 2002, em função da crise da coalizão no final do governo FHC – que envolveu o abatimento em voo da candidatura de Roseana Sarney –, a parceria PSDB-PFL/Dem desandou, abrindo espaço para o PMDB.

Curioso notar que, em 2014, mesmo com este histórico e o apoio incondicional a Aécio Neves, não houve espaço para o Democratas na chapa. Do ponto de vista da coordenação partidária, fazia mais sentido curar as feridas internas do ninho tucano, que conceder a honra e a responsabilidade ao velho Partido da Frente Liberal.

Partidos
Analiticamente, tomamos os partidos brasileiros como atores unitários – algo amparado nas evidências fortes de que dispomos sobre seu comportamento parlamentar coeso.

Lá dentro do Congresso, as decisões são tomadas com base partidária. Mesmo as questões federativas, que para muitos mobilizariam as famigeradas “bancadas estaduais”, são filtradas, coordenadas e decididas pelos partidos.

Fora da arena parlamentar, a coisa não é tão fácil assim. Os partidos são na maior parte das vezes compostos por inúmeros grupos políticos, que lutam pelo controle da máquina partidária e dos recursos para a campanha dos membros mais ilustres do grupo. E isto não é privilégio da política tupiniquim...

Ascensão e Queda
Sabemos muito pouco sobre o funcionamento interno dos partidos políticos brasileiros, com exceção ao PT. Um trabalho recente produzido por Ricardo Ribeiro, nosso colega no Departamento de Ciência Política da USP, buscou explicações para a tragédia do PFL/Democratas.

De modo bastante resumido e simplista, apresento sua hipótese: a passagem do partido para a oposição, a partir de 2003, enfraqueceu-o de tal modo que o conduziu a uma refundação – aparentemente mal sucedida –, em que se buscou mudar o posicionamento do partido junto ao eleitor. A ideia era ganhar a classe média urbana.

Logo após o início do governo Lula, em 2003, dezenas de deputados abandonaram o então PFL rumo a legendas governistas. A recente criação do PSD representou um novo movimento de perda de quadros, em direção a um lugar no espectro político menos antipático ao governo federal.

O gráfico abaixo, retirado do trabalho de Ribeiro e feito com base nos dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), mostra a variação no tamanho das bancadas eleitas pelo PFL/Democratas ao longo das últimas décadas.

Gráfico 1 - Bancada Eleita PFL/Democratas (Em %)

Fonte: RIBEIRO, Ricardo Luiz Mendes. A decadência longe do poder: refundação e crise do PFL. 2011. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) - Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

Uma questão mais polêmica diz respeito ao efeito que o governismo possuiria sobre os eleitores.

Ribeiro defende que parte da tragédia do PFL/Democratas seria explicada pelo viés favorável a partidos membros da coalizão governista no plano nacional, que parte significativa do eleitorado em teria em diversos municípios, apresentando algumas evidências neste sentido.

Certamente voltaremos a este tópico nos próximos textos. Enquanto isto, deixo aqui o link para o trabalho do Ricardo Ribeiro.

 

Vítor Oliveira
#épolítica 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
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