Rejeição pressiona Dilma e se compara à do segundo mandato de FHC

Dados recentes indicam que as vaias escutadas pela presidenta na Arena Corinthians são, sim, uma expressão da relativa rejeição a seu governo, algo comparável ao que ocorrera com Fernando Henrique Cardoso ao final de seu segundo mandato
Blog por #épolítica  

Estamos em plena Copa do Mundo; o Brasil celebrou na última segunda-feira (23) a sua classificação para as oitavas de final.

Ainda que a política fique em segundo plano durante este mês, repleto de grandes emoções dentro das arenas, parece que a partida eleitoral de outubro será tão disputada quantos os clássicos que assistimos nesta Copa das Copas.

Do lado da peleja futebolística parece que finalmente Felipão ouviu o clamor das arquibancadas e alterou o meio-campo da seleção, substituindo um apagado Paulinho - nem sombra do volante campeão mundial pelo Corinthians - por Fernandinho, o que trouxe de imediato mais movimentação e dinamismo na transição do time.

Já no campo da política, dados recentes divulgados pelo IBOPE/CNI indicam que as vaias escutadas pela presidenta na Arena Corinthians são, sim, uma expressão da relativa rejeição a seu governo, algo comparável ao que ocorrera com Fernando Henrique Cardoso ao final de seu segundo mandato.

Em 2014, como em 2002
Os resultados da nova pesquisa IBOPE/CNI sobre a avaliação, aprovação e confiança no governo Dilma, divulgada neste mês de junho, a pouco mais de um trimestre das eleições, trouxeram algumas informações que devem ter deixado os estrategistas do governo bastante inquietos e preocupadíssimos com as perspectivas de sucesso eleitoral, trazendo lembranças do pleito de 2002 com a diferença apenas que cada time agora está jogando do outro lado da disputa. 

A aprovação do governo de Dilma atingiu níveis bastante diminutos, se comparadas com as taxas de aprovação obtidas pelos dois governos capitaneados por Lula. Apenas no 2º mandato do governo tucano de FHC, que acabou jogando a titularidade do Planalto para a oposição, o candidato governista obteve índices tão baixos de aprovação, avaliação e confiança quanto os obtidos por Dilma neste mês.

Observando a série histórica dos dados do IBOPE/CNI, vemos que só em 2002 os resultados foram tão desfavoráveis ao governo. No pleito que decidiu o sucessor de FHC, cerca de 48% dos entrevistados desaprovavam o governo tucano.

Hoje esse índice bate na casa dos 50%, enquanto as taxas de desaprovação das gestões de Lula eram bem menores, de apenas 34% e 11% em 2006 e 2010, respectivamente.

E se compararmos os dados das respostas sobre a avaliação do governo de 2002 até agora, vemos outra vez que os índices de avaliação ruim/péssimo nunca foram tão altos e próximos ao cenário eleitoral de 2002.

Os 33% de avaliação ruim/péssima são maiores inclusive que a desaprovação obtida pelo governo FHC, em seu segundo mandato; em junho de 2002, cerca de 29% dos brasileiros desaprovavam a gestão tucana.

Bem me quer, mal me quer 
A comparação com a gestão Lula deixa os estrategistas dilmistas ainda mais preocupados. Em junho de 2006, mesmo após a crise do mensalão, apenas 19% dos brasileiros avaliavam o primeiro mandato de Lula como ruim/péssimo. E em junho de 2010, esses dados caíram ainda mais, atingindo míseros 3%.

Os índices de avaliação ótimo/bom, por sua vez, também aproximam o governo Dilma da avaliação sobre o 2º mandato de FHC. Em junho de 2002, apenas 29% aprovavam a gestão presidencial como ótima/boa. 

Hoje os índices são um pouco melhores: 31% de aprovação, mas bem abaixo da avaliação de ótimo/bom obtida nas duas gestões de Lula, 44% em seu 1º mandato e inacreditáveis 75% na pesquisa de 2010.

Outro dado que aproxima a gestão Dilma da performance obtida por FHC em seu 2º mandato, diz respeito às taxas de confiança no governo. Enquanto 53% dos entrevistados não confiavam no governo em junho de 2002, hoje esta taxa é de 52%, outra vez muito maior que a desconfiança dos entrevistados em Lula, que em 2006 era de 39% e em 2010 de apenas 15%.

Mudança no Jogo
Diante destes dados, o cenário eleitoral que se abre após a final da Copa do Mundo tem feições muito mais próximas daquilo que aconteceu em 2002, do que nas eleições de 2006 e 2010.

Isto dá ao jogo eleitoral um ar de competitividade que não foi sentido nos dois últimos pleitos e inclusive uma perspectiva mais favorável à alternância de poder que aquela enfrentada pelos petistas em 2006 e 2010.

E para conturbar ainda mais as perspectivas eleitorais da reeleição presidencial, pela primeira vez a rejeição de um dos principais candidatos presidenciais ultrapassa o limiar de 40%, a apenas um trimestre das eleições.

Rejeitados
Nesta mesma pesquisa IBOPE/CNI, a rejeição de Dilma bateu os 43%, enquanto a de Aécio é de 32% e a de Eduardo Campos de 33%. A rejeição dos candidatos oposicionistas se aproxima do índice enfrentado por Lula em 2006, quando 31% dos entrevistados o rejeitavam, enquanto o principal candidato de oposição Geraldo Alckmin era rejeitado por 19% (Datafolha - 28 a 29/06/2006).

Temos que levar em conta, nas comparações sobre as taxas de rejeição dos presidenciáveis, que usamos dados coletados no mesmo período pré-eleitoral, mas por institutos diferentes. E sujeitos, inclusive, a mudanças metodológicas no formato das questões, o que nos obriga a adotar um pouco de cautela nestas comparações.

Mas mesmo em 2002, ano que os tucanos perderam o Planalto, a rejeição do candidato governista José Serra - a um trimestre da eleição (Datafolha – 07/06/2002) - era bastante inferior: de apenas 21%, enquanto a do então líder da oposição Lula era de 31%.

Outros Tempos
Em 2010 os dados também indicavam um cenário muito mais favorável à candidatura de Dilma. Em pesquisa do Datafolha, a sua rejeição era de apenas 20%, enquanto a do candidato tucano de oposição, José Serra, era de 24% (Datafolha – 30/06 a 01/07/2010).

Esse cenário complica as perspectivas eleitorais do governo de Dilma Rousseff. Parecida, inclusive, com o cenário enfrentado por José Serra nas eleições para a prefeitura paulistana em 2012, dado que em julho seu índice de rejeição ultrapassava os 37% (Datafolha – 19 a 20/07/2012). E todos sabem qual foi o final dessa história: uma vitória no 1º turno, transformada em derrota no 2º.

Será que o mesmo acontecerá em 2014? Os dados acenam para este cenário, embora ainda exista tempo para o governo reverter o placar. Talvez seja o momento do governo imitar Felipão, sacar Paulinho e trazer alguma novidade para a peleja eleitoral.

 

Ivan Fernandes
#épolítica

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

Deixe seu comentário

Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com