Nova pesquisa eleitoral Istoé/Sensus informa menos do que parece

Aparentemente, ela indica que Dilma Rousseff (PT) caiu de modo consistente e que Aécio Neves (PSDB) cresceu significativamente. Contudo, problemas metodológicos tornam difícil a comparação nestes termos.
Blog por #épolítica  

A nova pesquisa Sensus, encomendada e publicada pela revista Istoé no último sábado (14), parece dizer muito sobre a corrida eleitoral para a presidência da República. No entanto, faz pouco sentido dizer que houve “queda” ou “crescimento” de qualquer dos candidatos.

Antes de tudo, é preciso ressaltar um ponto fundamental: todas as pesquisas nascem erradas, ou ao menos, nenhuma pesquisa é precisa. Existe uma margem.

Em um mundo perfeito, nós deveríamos ler as pesquisas do seguinte modo: com base nos eleitores pesquisados, é possível afirmar que determinado candidato está em algum ponto entre X e Y na preferência da população como um todo.

No caso da pesquisa Istoé/Sensus, primeiro substitua “determinado candidato” por “Dilma”, depois X e Y por 32,6% e 35,4%, respectivamente. Faça o mesmo com todos os candidatos, utilizando a margem de erro como baliza.

Isso significa que você entendeu tudo o que precisa para ler adequadamente uma pesquisa eleitoral? Não; certamente, não.

Ossos do Ofício
Infelizmente, vivemos em um mundo longe do ideal e os problemas com as pesquisas eleitorais não se restringem ao modo como elas são apresentadas.

Toda esta conversa sobre as margens de erro faria mais sentido se os institutos de pesquisa utilizassem amostras probabilísticas, definidas aleatoriamente, para definir quem será entrevistado. Isso significa que todo mundo deveria ter a mesma chance de ser “sorteado”.

Agora, imagine um método para fazer o tal sorteio e entrevistar as pessoas Brasil afora? Pois é, custa muito dinheiro e demanda muito tempo. No caso do uso de telefones, a recusa se deve à baixa penetração de linhas fixas e residenciais.

Neste cenário, a prática dos institutos é definir quem vai ser entrevistado por meio de quotas. Em vez de sortear, os institutos buscam imitar a distribuição de características da sociedade, como escolaridade, renda, sexo e idade.

Assim, se você vai entrevistar milhares de pessoas, é mais fácil mandar seus pesquisadores a um punhado de cidades que a, possivelmente, milhares de cidades.

Existe um debate ferrenho sobre a validade científica do uso destas quotas, ainda assim, é a metodologia padrão utilizada em pesquisas de mercado e eleitorais. Deixemos que os estatísticos briguem.

Pesquisa para quê?
Então, as pesquisas não prestam? Nada disso; mas elas devem ser lidas com muita cautela, como um indício das trajetórias e das posições entre os candidatos. Pequenas variações significam quase nada.

E esse é um dos problemas com a leitura apressada da Istoé/Sensus mais recente. Apenas um.

Aparentemente, ela indica que Dilma Rousseff (PT) caiu de modo consistente, pois recuou 1,8 ponto percentual, e que Aécio Neves (PSDB) subiu de modo consistente – portanto, valores maiores que o da margem de erro, de 1,4 p.p., ainda assim muito pequenos.

Além da já mencionada questão das quotas, que é de todas as pesquisas eleitorais, outra problema específico da Istoé/Sensus diz respeito à diferença no tipo de cartela utilizado para realizar entrevistas, nos dois levantamentos produzidos até aqui. 

Apenas para refrescar a memória dos leitores, a pesquisa anterior Istoé/Sensus foi acusada de enviesar as respostas, em função da ficha de entrevista ser definida em ordem alfabética – algo que, alegadamente, deixava em evidência o nome de Aécio Neves.

Isto foi alterado no levantamento mais recente, passando para o tradicional formato de pizza, em que os candidatos aparecem distribuídos em uma cartela circular, sem destaque individual. Na figura acima, estão dispostas as duas cartelas utilizadas.

Neste caso, o instituto Sensus parece ter feito um mea culpa, adotando a prática de mercado em vez da ordem alfabética, após a enxurrada de críticas recebidas. Isto é bom, pois favorece a comparação da fotografia do Sensus com as dos outros institutos de pesquisa.

No Fim das Contas
Ainda assim, a diferença das cartelas torna muito difícil fazer a comparação com a pesquisa anterior do próprio instituto. Faz pouco sentido, portanto, dizer que Dilma caiu e Aécio subiu.

No limite, o caso de crescimento de Aécio parece mais concreto, em um cenário sem o vício da ordem alfabética.

Contudo, a pesquisa recente reforça a análise de que a tendência atual, anterior à propaganda em rádio e TV, é a polarização em torno dos candidatos do PSDB e do PT, bem como o distanciamento de Eduardo Campos (PSB) dos líderes.

Dizer muito mais que isso seria forçar a barra.

Vítor Oliveira
#épolítica 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil dos blogueiros

Ivan Fernandes, doutor em Ciência Política pela USP, professor da UFABC e da Fundação Mario Covas. Atuou como pesquisador visitante na Universidade de Illinois em Urbana Champaign em 2012 e foi professor nos cursos de graduação em Direito e Relações Internacionais na FMU.

Vítor Oliveira é graduado em Relações Internacionais e mestre em Ciência Política, ambos pela USP. É consultor da Pulso Público - Relações Governamentais e professor da Fundação Mario Covas.

Humberto Dantas é mestre e doutor em Ciência Política pela USP, professor do Insper e coordenador de cursos de pós-graduação na FESP-SP e na FIPE-USP, além de apresentador da Rádio Estadão.
eh.polit@gmail.com