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A tragédia anunciada em que a culpa é de todos

No dia 2 de setembro de 1822, Maria Leopoldina, então princesa regente do Brasil por ausência de D. Pedro, assinou o decreto de independência que declarou o país livre de Portugal. Ela então enviou uma carta a D. Pedro para que ele proclamasse a independência do Brasil, feito no dia 7 de setembro às margens do Rio Ipiranga. Ontem, 2 de setembro de 2018, 196 anos depois, irônica e tragicamente o Museu Nacional na Quinta da Boa Vista foi destruído num incêndio de grandes proporções. Começamos de forma trágica a semana da independência do Brasil, com perdas irreparáveis para a história brasileira e mundial.

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Museu Nacional do Rio
(Fotos Públicas)

 

O Museu Nacional era abrigado no Palácio de estilo neoclássico que foi residência da família real portuguesa e, após a proclamação da República, pela família imperial brasileira. Abrigava enormes coleções de geologia, botânica e paleontologia, sendo considerado o maior museu de história natural da América Latina. O fóssil mais famoso, chamado de Luzia, era o mais antigo a ser encontrado na América do Sul. Na parte onde se situava a antiga residência real, havia a coleção de móveis e quadros originais de D. João VI, além de diversos documentos e peças da época do descobrimento do Brasil até a proclamação da República. Ontem, cerca de 20 milhões de itens viraram pó.

Rapidamente a tragédia foi usada para palanque político, com dedos apontados para uns e para outros na tentativa de culpar o adversário e fazer valer suas agendas político-ideológicas. Políticos como Gleisi Hoffmann, Lindbergh Farias, Guilherme Boulos, Fernando Haddad e Manuela D’Avila foram correndo para suas redes sociais para culpar o governo atual e a PEC do Teto de Gastos pelo total abandono que se encontrava o Museu. Acontece que a culpa é deste governo e de todos os anteriores, além da péssima gestão da UFRJ que já amargou outros vários incêndios em dependências de sua responsabilidade, como no Palácio da Praia Vermelha em 2011, na Faculdade de Letras em 2012, no Laboratório do Centro de Ciências e Saúde em 2014, nos prédios da Ilha do Fundão em 2016, no prédio da Reitoria e no alojamento Estudantil em 2017 e no último andar do Prédio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo em fevereiro desse ano.

Em 2004, 14 anos atrás, o Secretário estadual de energia do Rio de Janeiro já avisava o risco de incêndio que o Museu sofria. Segundo matéria da Agência Brasil, o secretário estava abismado com as fiações expostas e sem conservação, alas com infiltrações, dizendo se tratar de “uma situação de total irresponsabilidade com o patrimônio histórico”. Na época, o diretor do Museu disse que a crise já durava 40 anos, se agravando nas últimas décadas por descaso e demora na liberação de verbas. Sendo assim, a culpa passa pelos militares, Sarney, Collor, Itamar, FHC, Lula, Dilma e Temer. Visitei o museu há cerca de 8 anos e, apesar de impressionada com a suntuosidade do palácio e suas coleções, me entristeci em ver que a manutenção era péssima, não só no caso das fiações e infiltrações, mas também banheiros inutilizáveis, muita sujeira, vidros quebrados e segurança pífia. Segundo depoimento do jornalista Laurentino Gomes, o museu era pouco acolhedor para quem quisesse visita-lo. “Abandonado, desleixado, com um acervo rico porém esquizofrênico, pouco acolhedor para quem se animasse a visitá-lo, o Museu Nacional era um símbolo do que nos tornamos nos últimos anos, uma caricatura do que gostaríamos de ser e nunca fomos. [...] O acervo era confuso e pouco didático, entregue aos maus cuidados de funcionários e curadores burocráticos, sem inspiração e entusiasmo. Nunca foi, de fato, um museu bem-amado."

O Museu tinha um custo anual de aproximadamente R$550 mil reais, que não passa de um trocado perto do custo dos nossos políticos e de verbas repassadas a artistas que não precisariam de dinheiro público para realização de seus eventos. Já fazia 15 anos que os visitantes não podiam ver o esqueleto gigante de uma baleia Jubarte e há 14 anos que a exposição dos dinossauros estava fechada. Há pelo menos 20 anos era necessária uma reforma elétrica de orçamento de R$45 mil, que nunca saiu do papel. A verba da União destinada a UFRJ, que é responsável pelo repasse ao Museu, começou a sofrer cortes em 2014, dois anos antes da PEC do Teto de gastos, passando a receber somente 60% do necessário.

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Curiosamente, em junho desse ano foi aprovado um contrato de financiamento com o BNDES, no valor de R$21,7 milhões para apoio à restauração e requalificação do Museu. Não se sabe ainda qual foi o destino dos recursos ou se ele chegou a ser utilizado de alguma maneira. Além disso, a UFRJ atuou para obter recursos extras por meio de emendas parlamentares. Em 2013 foi aprovado um repasse de R$20,9 milhões para aplicação em 2014, mas o governo (então chefiado por Dilma), não repassou a verba e nada foi executado. Caberia ao ministério da Cultura priorizar a utilização desse recurso, mas nada fez.  Já em 2016 e 2017, como mostra o relatório da Pró Reitoria de Planejamento, Desenvolvimento e Finanças da UFRJ, foram conseguidos R$ 2,24 milhões, que seriam suficientes para obras importantes de elétrica e hidráulica no Museu, mas foram utilizados para criação da Rádio UFRJ FM. Cabe dizer que o reitor da UFRJ é fundador do PSOL, do mesmo partido dos que hoje acusam a PEC do Teto pelo problema (sendo que a situação fiscal do país está do jeito que está por total irresponsabilidade nos gastos públicos). Para piorar, não havia água nos hidrantes próximos ao Palácio e os bombeiros tiveram que apelar para caminhões-pipa e até para a água do lago próximo, o que prejudicou muito o combate ao incêndio.  

A destruição de um dos maiores acervos históricos do mundo escancara a nossa irresponsabilidade travestida de jeitinho brasileiro. Temos uma máquina pública inchada que permite descalabros com o dinheiro dos pagadores de impostos e que é incapaz de preservar nossa história. É possível ainda ver manifestações assombrosas que comemoram o incêndio, por se tratar da residência da família real e imperial, reiterando que falhamos miseravelmente como pátria. Vi também a culpa recair sobre os bombeiros, que mal tem recursos para fazer seu trabalho. Somos reféns de governos corruptos e gananciosos há muitos anos, mas sempre fomos passivos com os absurdos. Artistas que se locupletam de verbas estatais foram incapazes de manifestar escárnio com a situação calamitosa do Museu Nacional e agora posam de estupefatos com a tragédia, mais do que anunciada. Nos últimos 20 anos, nenhum Presidente da República, nenhum Ministro da Cultura e nenhum Ministro da Educação estiveram no Museu. O número de visitantes do Museu em 2017 foi menor do que o de brasileiros no Louvre, denunciando a falta de capacidade de estimular o turismo cultural num país que as pessoas praticamente lutam apenas para sobreviver. Ver as chamas consumirem um prédio histórico, de importância secular e com conteúdo de valor imensurável me fez ainda mais descrente com a capacidade do nosso país em saber de suas prioridades.

A culpa pela degradação da cultura, coroada pela destruição de um patrimônio histórico irreparável, é de todos. De todos os governos federais, de todos os governos do Estado do Rio de Janeiro, expoente de uma situação caótica que vai muito além da cultura e educação e da gestão da UFRJ. Vivemos em um Estado de exceção onde nada mais tem valor.

Falhamos. E deixamos a história morrer.

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Renata Barreto

Renata Barreto é economista com especialização em derivativos, atua no mercado de capitais há 15 anos com experiência em trading, advisory e estruturações. Hoje concentra seu trabalho em investimentos e produtos internacionais, além de escrever sobre política e economia.

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