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Economia com Renata Barreto

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Um absurdo chamado Brasil

Nosso lindo e enorme país é um emaranhado de loucuras. Na política, arrisco dizer que estamos no top 5 mundial de bizarrices, com falhas constitucionais que permitem afrontas como a candidatura de um condenado por corrupção. Mais do que isso, somos um país destroçado pelo populismo, com uma parte significativa da população querendo mais e mais Estado. O que esperar dessas eleições?

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

lula rio

Ser brasileiro é um desafio. Os jornais nos constrangem com notícias inacreditáveis, que fazem qualquer seriado fictício sobre política morrer de inveja. Não é fácil explicar para um estrangeiro, principalmente se ele for de algum país bem desenvolvido, as situações que enfrentamos todos os dias e que, infelizmente, já se tornaram corriqueiras. Com as eleições se aproximando, fica mais evidente que vivemos numa espécie de hospício onde os lúcidos é quem são os loucos. Entretanto, pela primeira vez, vemos movimentos novos ganharem força no país, criados em meio à pior crise econômica e no auge dos escândalos de corrupção. Nunca se falou tanto sobre política e economia, nunca se expôs tanto os políticos e nunca se brigou tanto por ideologias. Muitos acreditam que a polarização que tomou conta do Brasil é ruim, mas eu penso diferente, acho que finalmente colocamos os pingos nos is e conseguimos ver os problemas como eles são. Ter opinião sobre determinadas coisas não é fácil e cria inimizades, mas tivemos que chegar ao fundo do poço para começar a ter o mínimo de consciência política. Por que eu seria amiga de quem acha que ganhar dinheiro e ter sucesso é errado, por exemplo? Como aceitar que conceitos econômicos sejam destroçados para manipular a população? Como ficar inerte à total inversão de valores que assola o país? Impossível.

O cenário que vejo se formar para as próximas eleições é um resultado direto de todo esse circo, onde os palhaços somos nós e os políticos gargalham em viver de benesses pagas com nosso dinheiro. O Brasil é o paraíso dos privilégios, com uma máquina pública inchada, ineficiente e extremamente cara para o bolso do pagador de impostos, que não vê retorno algum. A esquerda, que governou o país por quase 14 anos, se recusa a fazer uma autocrítica e encarar a realidade, traçando cenários irreais, alimentando a própria sabotagem. Em São Paulo, por exemplo, quando Doria ganhou a eleição para prefeito logo no primeiro turno, o que não acontecia desde 1992, disseram que quem não votou em Haddad era ignorante, que não entendia dos projetos visionários do petista em relação à mobilidade urbana e, pior, que eram a elite retrógrada que não quer ver avanços sociais. Acontece que Haddad não ganhou em nenhuma região de São Paulo e sua melhor votação foi em Pinheiros, bairro nobre que tem o segundo maior IDH da cidade. O que deu errado? Seus projetos não beneficiaram a população mais pobre e a alta rejeição ao PT, por conta dos escândalos de corrupção, se traduziram num linchamento eleitoral que foi recebido pela esquerda como uma falta de inteligência da população. Essa desconexão com a realidade e incapacidade de autocrítica serão, provavelmente, responsáveis por um resultado eleitoral bem diferente dos últimos anos.

A realidade do Brasil de hoje é de total insegurança. O maior medo de qualquer brasileiro, de qualquer classe social, é tomar um tiro no meio da rua, ser assaltado e morto, ver sua família sofrer na mão de bandidos e, pior, não ver qualquer esforço para que isso tenha fim, com criminosos sendo tratados como vítimas. O Brasil tem uma situação que se equivale a áreas de guerra, com mais de 60 mil mortes por ano por assassinato, com aumento significativo de latrocínios (roubo seguido de morte) nos últimos anos. Em maio de 2015, o médico Jaime Gold foi assassinado a facadas por dois menores que roubaram sua bicicleta, no Rio de Janeiro. Os assassinos cumpriram pena de apenas 1 ano e 9 meses no DEGASE (Departamento Geral de Ações Socioeducativas) e, um deles, quatro meses após ser solto, foi preso novamente depois de assaltar um mercado em Petrópolis. Na ocasião do assassinato, personalidades da esquerda chegaram a dizer que o assalto poderia ser justificado como uma “justiça social forçada”, pois o médico estava ostentando sua bicicleta cara. Justificaram também arrastões, chegando a falar que apenas “playboys” ficariam chateados em perder seus Iphones. A candidata ao governo do Rio de Janeiro pelo PT, Márcia Tiburi, já falou que vê uma “lógica no assalto”, para depois ensinar sobre ética para funcionários de empresas estatais, paga com dinheiro público. Vocês realmente acham que a maior parte da população vê isso com bons olhos? Gente que também teve todas as dificuldades do mundo e que não escolheu o caminho do crime? O grande erro da esquerda é achar que a população comum está mais preocupada com as pautas que eles julgam como prioridade, geralmente ligadas às minorias. E isso não quer dizer que falar sobre tais pautas não seja importante, mas como falar de direitos LGBT, por exemplo, antes de ter o mínimo de segurança para sair de casa? As estatísticas de mortes de gays, travestis e transexuais são mais uma prova de que o Brasil é um país extremamente violento, que não protege nenhum cidadão, seja qual for sua orientação sexual. Morrem aproximadamente 171 pessoas por dia no país e o pior dessa violência desenfreada é a falta de punição e brechas na legislação penal que permitem excrescências tamanhas, como por exemplo o indulto de dia das mães para Suzane Von Richthofen, condenada por matar os pais.

A ascensão meteórica do candidato Jair Bolsonaro (PSL) é uma prova do descontentamento geral da população com essa situação de insegurança. Entretanto, seus opositores acham que os eleitores do deputado assim o são porque são preconceituosos, machistas, homofóbicos, etc. Existe uma parcela que é, assim como muitos eleitores de outros candidatos também o são, mas conversando com pessoas de todos os tipos, percebo que a maioria ignora as falas infelizes do candidato porque se identificam com seu discurso duro contra a bandidagem. Outro ponto que hoje faz muita diferença, é sua provável honestidade, sendo um dos poucos políticos não envolvidos em corrupção. Quando percebem que a turma que se julga mais inteligente e mais intelectual os julgam por essa escolha, ficam com mais vontade ainda de votar em quem causa tal histeria coletiva. Se isso vai ser bom para o Brasil, ainda não sabemos.

Por outro lado, temos Lula, que mesmo preso pôde se candidatar à presidência, o que é só mais um retrato da bagunça que é o nosso país. Você tem o direito de gostar da figura dele, por qualquer motivo que seja, mas é um absurdo inexorável querer que ele seja solto apenas por isso, divulgando a falsa notícia (que estranhamente não é checada por nenhuma agência de fact-checking) de que ele fora condenado sem provas. Na última pesquisa divulgada pelo DataFolha, Lula aparece com 39% das intenções de voto. Sem entrar no mérito da confiabilidade da pesquisa, atribuo a popularidade de Lula a ideia, de boa parte da população, que ele sabe como fazer o Brasil entrar nos eixos. Infelizmente, sem conhecimento econômico, as pessoas ignoram a questão da corrupção por acreditarem que Lula tem a capacidade de fazer o Brasil andar como aconteceu em seu primeiro mandato, além de acreditarem na propaganda enganosa que o PT faz com maestria, com números inflados e manipulação das estatísticas. Com a alta probabilidade de ter sua candidatura impugnada, a estratégia é tentar passar o máximo possível de votos ao seu escolhido a vice, o mesmo Haddad que foi rejeitado já no primeiro turno nas últimas eleições para prefeito (e que agora também se tornou réu por improbidade administrativa). E é aí que, acredito eu, o PT não conseguirá emplacar. As pessoas que votam em Lula, mesmo que pelos motivos errados, não votam num desconhecido sem um histórico contundente e seus votos serão dissipados entre os outros candidatos.

Em 2014, já víamos influência das redes sociais nas eleições, mas após quatro anos de muita discussão política hoje vemos que as vozes da internet se tornaram tão ou mais importantes do que a televisão. O candidato João Amoedo, do partido NOVO, se comprometeu a não usar o dinheiro proveniente do fundo eleitoral e cresce exponencialmente nas redes sociais. Suas intenções de voto dobraram em pouco tempo, segundo a mesma pesquisa do DataFolha que citei acima. 2% de intenções ainda é pouco, mas já ultrapassa os candidatos Guilherme Boulos, do PSOL e Henrique Meirelles, do MDB. Enquanto isso, uma pesquisa independente que circula pelo whatsapp, já contabiliza mais de 500 mil votos e coloca Bolsonaro em primeiro lugar e Amoedo em segundo. Isso não significa que esse cenário se configurará, mas indica que pessoas ativas nas redes sociais tendem a um caminho totalmente diferente do que aconteceu nos últimos anos. Não é por acaso, aliás, que vemos um número crescente de influenciadores conservadores e liberais serem calados temporária ou permanentemente, com diversas páginas apagadas e perfis bloqueados. Eu, que nunca fui adepta de teorias conspiratórias, hoje acredito que exista um movimento coordenado para tentar ganhar das vozes populares sem controle das mídias aparelhadas. Mas isso é história para um outro artigo.

Outro fato interessante dessas eleições é perceber a alta rejeição do PSDB, que tem Geraldo Alckmin como candidato. Na última pesquisa eleitoral ele apresenta somente 6% das intenções de voto, mas é razoável imaginar que esse número suba após as propagandas eleitorais na televisão. De qualquer forma, a rejeição ao partido e a figura de Alckmin é um retrato importante do momento atual do Brasil. O PSDB é um partido de velhos políticos, ligado a corrupção, tendo seu último candidato à presidência esculhambado pela opinião pública após diversos escândalos. Aécio Neves hoje concorre a deputado federal, depois de desistir da candidatura ao Senado por Minas Gerais, com um medo terrível de perder o foro privilegiado. Uma outra excrescência, dessa vez no sistema eleitoral brasileiro, permite que deputados que não tenham sido bem votados sejam eleitos se “puxados” por um bom número de votos de colegas de partido. Foi o que sobrou para Aécio. Alckmin, que hoje é apoiado pelos partidos que compõe o chamado “Centrão” (DEM, PP, PRB, PR e Solidariedade, que tem números expressivos de políticos envolvidos em corrupção), é visto por muitos como mais do mesmo, apesar de um discurso mais moderado e boa capacidade de expor propostas.

Ciro Gomes (PDT), um dos candidatos mais perigosos na minha opinião, apesar de ser autoritário e ter tido também falas infelizes e até episódios de agressão, segue como opção de parte dos eleitores de centro-esquerda que acreditam em sua retórica de bom entendedor de economia, que na realidade não procede. Ciro chegou a dizer que irá tirar os brasileiros do SPC, que não é necessária reforma da previdência, que revogaria a reforma trabalhista e até já declarou que Lula só poderia ser solto se ele chegasse ao poder. É engraçado que seu destempero e falas populistas parecem não assustar a mídia. Ele aparece com apenas 5% das intenções de voto, mas não deve ser dado com vencido. Sua capacidade de fazer mentiras parecerem verdade ilude muitos e pode receber parte dos votos de Lula.

Marina (REDE), por sua vez, aparece com 8% das intenções de voto e também pode crescer até as eleições, tendo já sido apontada como a principal herdeira de votos de Lula. Seu perfil frágil e a confusão de propostas parece ser o seu maior problema, flerta com a esquerda (apesar de ter um economista liberal) e não se posiciona de forma contundente em relação a corrupção, principalmente quando perguntada sobre Lula. Entretanto, ela tem simpatia de parte do público feminino que encontra nela um discurso moderado, mas não acredito que seja suficiente para ir ao segundo turno.

O Brasil hoje sofre uma difícil crise econômica, apesar da ligeira melhora dos últimos tempos, mas mais importante que isso, sofre uma crise moral. A guerra de classes que hoje é tão evidente, a inversão de valores, a degradação cultural, tudo isso é percebido por boa parte da população que quer oportunidade de crescer, produzir e está cansado da violência, dos desmandos e injustiças. As opções de candidatos à presidência ainda refletem muito desse Brasil antigo, mas toda essa crise abriu uma enorme janela de oportunidade para o senso crítico, inovação e ideais antes impossíveis de serem divulgados no país. Na minha opinião, apesar de sempre colocar as expectativas para baixo, temos hoje a capacidade de, no mínimo, renovar o legislativo, que importa muito na aprovação e colocação de projetos. Não reelejam corruptos, apoiem as instituições da justiça para que as operações continuem e cobrem ativamente de seus candidatos a viabilização das propostas de campanha. Eu quero viver num país mais livre, onde o pensamento não se prenda às amarras do politicamente correto, onde a riqueza seja comemorada e as oportunidades fartas. Quero viver onde o noticiário não me faça ter vergonha, onde a justiça funcione e o trabalho seja valorizado. O absurdo que se tornou nosso país é culpa de todos nós que nos omitimos por tanto tempo da discussão política e deixamos o país nas mãos erradas. Mudar e melhorar não é fácil, nem será tarefa simples resolver os problemas de todas as ordens que o Brasil enfrenta. O Brasil está perto de decidir os rumos do futuro, não desperdicem a chance de fazer a diferença.

Seu voto é só o começo.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores.

 

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Renata Barreto

Renata Barreto é economista com especialização em derivativos, atua no mercado de capitais há 15 anos com experiência em trading, advisory e estruturações. Hoje concentra seu trabalho em investimentos e produtos internacionais, além de escrever sobre política e economia.

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