4 passos para transformar a forma como os brasileiros lidam com dinheiro

Iniciativas dos EUA mostram como estimular as pessoas a tomar decisões financeiras mais inteligentes.
Blog por Thiago Alvarez  

Devido ao meu trabalho com o GuiaBolso.com, fui convidado a participar da Eisenhower Fellowships, que seleciona 21 líderes de todo mundo para visitar os Estados Unidos, difundir suas iniciativas e coletar as melhores práticas existentes em seus campos de atuação.

Junto comigo, por exemplo, está Shridhar Venkat, CEO de uma ONG da Índia responsável por alimentar 1,4 milhão de crianças diariamente. Está também Wael Attili, que criou o maior canal de Youtube do Oriente Médio com mais de 40 milhões de visualizações mensais, e Rana Dajani, da Jordânia, que foi recentemente nominada ao Women in Science Hall of Fame.

Além de divulgar o que o GuiaBolso.com está fazendo no Brasil, também tenho falado com várias pessoas que estão tentando melhorar a vida financeira dos americanos aqui. Conversei, por exemplo, com a ex-tesoureira dos Estados Unidos, Anna Cabral (a assinatura dela está
nas notas de dólar!). Falei também com Annamaria Lusardi, responsável pelo programa de alfabetização financeira da OCDE, além de professores de Harvard, como a Brigett Madrian, que estudam como as pessoas se comportam com dinheiro.

Inspirado por tantas conversas com pessoas focadas nesse tema, consegui identificar um padrão nas iniciativas de cada uma delas. Com base nisso, compartilho com vocês quatro passos fundamentais para que a gente consiga transformar a forma como nossa sociedade lida com dinheiro:

1. Alfabetizar financeiramente crianças e adolescentes

 Na escola, devem ter te ensinado muito sobre química orgânica ou planárias, mas dificilmente você aprendeu como usar um cartão de crédito ou fazer um orçamento doméstico.Apesar de serem essenciais para todas pessoas viverem no mundo real, os princípios de finanças (juros, inflação e diversificação de investimentos) são ignorados por boa parte dos sistemas escolares não só no Brasil, mas em todo mundo.

Aqui nos Estados Unidos, por exemplo, o currículo é definido por cada Estado e poucos estão incorporando aulas de finanças. Mas apesar de essa área ainda estar engatinhando em todo mundo, algumas iniciativas interessantes estão sendo testadas.

Uma delas é liderada por Annamaria Lusardi e visa incorporar uma avaliação de alfabetização financeira pelo PISA, pesquisa feita a cada três anos pela OCDE para avaliar o desempenho de estudantes de diversos países do mundo. Esse, na verdade, é um primeiro passo, já que o ideal seria incorporar esse tema ao currículo escolar de todas as crianças.

Outra ação interessante é conduzida pelo D2D Fund, um Think Tank especializado em finanças pessoais. Eles estão criando jogos de computador e aplicativos para trabalhar esse tema entre jovens adolescentes.

2. Facilitar o processo de decisão financeira em benefício das próprias pessoas

Vários estudos mostram que mesmo as pessoas financeiramente educadas ainda não tomam as melhores decisões na prática. Em muitos casos, isso acontece ou porque existem muitas alternativas (o que acaba gerando uma paralisia de decisão) ou porque é necessária uma ação explícita das pessoas, que muitas vezes estão acomodadas.

Conheça algumas iniciativas para resolver esse problema que estão dando certo nos EUA:

a) Adesão automática à previdência privada:

Muitas empresas que oferecem esse benefício a seus funcionários transformaram a adesão em opção padrão e também padronizaram o escalonamento das contribuições. O funcionário só tem que se pronunciar se ele não quiser participar ou preferir reduzir a contribuição.

b) Criação de uma fatura de cartão de crédito mais inteligente e informativa:

A emissora de cartão de crédito Discover simplificou muito sua fatura e passou a mostrar qual é a avaliação de crédito do cliente. Dessa forma, fica mais fácil de o consumidor entender quanto paga de juros se pagar o mínimo da fatura e também saber o que precisa fazer para melhorar a taxa que paga de juros.

3. Prevenir abusos contra consumidores

Depois da crise de crédito americana em 2008, o congresso americano aprovou a criação do Órgão de Proteção ao Consumidor Financeiro (CFPB - Consumer Finance Protection Bureau). Além de regular os bancos em relação às práticas junto aos clientes, eles também fiscalizam essas instituições financeiras. Com isso, algumas delas acabaram sendo multadas por oferecer crédito predatório. A sua atuação ainda está sendo ajustada e nem todos concordam com o alto grau de poder atribuído a essa instituição. O mais importante aqui é entender o princípio de haver uma instituição que busca equilibrar a relação entre instituições e consumidor.

4. Criar uma rede de suporte para pessoas com grandes dificuldades financeiras

Mesmo quando esses três primeiros itens estiverem amplamente funcionando, alguns consumidores continuarão enfrentando dificuldades financeiras, afinal produtos financeiros carregam risco. No Brasil, por exemplo, as principais causas de inadimplência são perda de emprego ou doença na família.

Se a pessoa tiver feito seu dever de casa, provavelmente terá uma reserva de emergência para esses momentos, mas nem sempre é possível se precaver de tudo. Nos EUA, essas pessoas podem recorrer a Agências de Crédito ao Consumo, organizações sem fins lucrativos que dão orientação financeira às pessoas e tentam ajudá-las a renegociar suas dívidas.

Além de ser bom para o consumidor, esse recurso também é bom para os bancos, que conseguem reduzir o número de clientes inadimplentes. O Barclays, por exemplo, está prestes a lançar uma iniciativa em que encaminhará automaticamente clientes que estão em risco para essas agências.

Essas ações nos mostram que é possível criar mecanismos para auxiliar consumidores a navegarem pelo mundo das finanças. No Brasil, já temos algumas iniciativas nesse sentido, mas não dá para negar que ainda temos um longo caminho pela frente.

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

É fundador do GuiaBolso.com, um site de controle financeiro automático e gratuito. Foi consultor da McKinsey & Company. thiago@guiabolso.com.br