O que você pode aprender sobre dinheiro com os sites de relacionamento

Quando um sistema permite e recompensa a mentira, todos perdem.
Blog por Thiago Alvarez  

Outro dia li um artigo escrito por Paul Oyer, professor de Economia da Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, que acabou de lançar um livro chamado “Tudo o que eu precisava saber sobre economia eu aprendi com online dating”. O texto fala basicamente sobre o conceito de cheap talk, que prevalece nos sites de relacionamento. 

Cheap talk é um termo usado na teoria dos jogos em economia para o envio de mensagens e sinais que não envolvem custos por parte de um agente. O grande ponto que o professor explora é que no mundo de encontros online o custo de contar algumas mentiras, por parte de quem está falando, é baixo, por isso muita gente acaba mentindo.

Como diminuir a mentira num site de relacionamento

Pesquisas mostram que uma pessoa típica nesses sites se descreve, na média, dois centímetros mais alta, cinco quilos mais magra e um ou dois anos mais nova do que realmente é, entre outras invenções. O blog do OkCupid, serviço de encontros online americano, descobriu que a média de altura que os homens no site dizem ter é muito mais alta do que a média da população americana, com um número inexplicável de homens dizendo ter 1,83m. De forma similar, eles reportam que tem quatro vezes mais pessoas falando que ganham acima de $100,000 por ano do que deveria ter, de acordo com as estatísticas do país.

O problema é que os “infladores de perfis” têm um grande impacto em todas as pessoas que querem dizer a verdade. As mentiras que eles contam levam os outros a descontarem afirmações como cheap talk. Se todo mundo sabe que muitas pessoas que dizem ser “saradas e atléticas” são na verdade mais próximas da categoria “pouco acima do peso”, então se você se colocar na categoria “pouco acima do peso”, isso provavelmente vai querer dizer aos outros que você é significativamente obeso. Caso você insista em ser sincero, a “inflação de perfil” vai, na verdade, fazer com que todos assumam que você é mais gordo e feio do que você realmente é. O mesmo acontece com a quantidade enorme de convites que os homens normalmente enviam para chamar as mulheres para sair, já fazendo com que elas descontem como cheap talk o fato de o homem estar realmente interessado.

Então como fazer com que as pessoas que estão do outro lado recebendo a mensagem se livrem do cheap talk e de fato acreditem nisso? É preciso introduzir um custo à mensagem. Ou seja, se aquela mensagem de fato tiver um custo para quem está enviando, quem a receber irá entendê-la como uma mensagem de maior credibilidade. Um site coreano fez um estudo disso, introduzindo a possibilidade de mandar uma rosa virtual a apenas duas pessoas que o usuário gostaria de convidar para sair. O efeito foi drástico, pois afinal de contas, a rosa era um sinal claro para quem recebeu de que a pessoa que a encaminhou tinha um legitimo interesse nela, em comparação a outras pessoas do site. O custo para quem enviou: mandar aquela rosa àquela pessoa significava não poder remetê-la a uma outra. Funcionou. O número de pessoas aceitando convites que vinham com a rosa virtual aumentou muito, uma vez que ela era considerada como um sinal de credibilidade que de fato havia grande interesse naquele convite.

Cheap talk acontece em vários lugares

Ler isso me fez pensar bastante em outras esferas de nossa vida, em que o cheap talk pode predominar. Recentemente publiquei uma vaga no LinkedIn para o GuiaBolso.com. Recebi mais de mil currículos. Alguns muito bons, mas outros de pessoas que nada tinham a ver com a posição anunciada. Como não custa nada para os usuários do site se candidatar a uma vaga, eles acabam adotando a opção mais segura, que é enviar seus currículos a todas as vagas que encontram pela frente. Além disso, quando entrevistamos esses candidatos, muitos inflaram sua experiência.

Você é adepto do cheap talk consigo mesmo?

Cheap talk também acontece com as finanças pessoais. Principalmente quando o seu eu do presente tenta mentir para o seu eu do futuro. "Minha vida financeira será muito bacana, terei toda liberdade financeira do mundo. A partir do próximo ano vou economizar dinheiro." Aí passam-se alguns anos e o seu eu do presente fala novamente "Estou meio apertado agora porque tive muitos gastos nos últimos anos, mas fica tranquilo porque vou conseguir guardar dinheiro em breve."

Nos sites de relacionamento, em algum momento, você terá que conhecer a outra pessoa na vida real, sair para jantar, assistir a um filme no cinema. E se você mentiu muito no site a decepção será grande para ambos os lados porque as expectativas eram muito maiores do que a realidade. Nas finanças pessoais o mesmo acontecerá quando você encontrar o seu eu do futuro - a sensação não será legal. Você ficará decepcionado com o seu futuro, e rancoroso com seu passado. 

Para minha felicidade, também tenho percebido um movimento diferente depois que lançamos o GuiaBolso.com. Vi muita gente querendo encarar sua realidade financeira com total transparência e vontade de melhorar. O cheap talk que as pessoas acabavam fazendo consigo mesmas acaba diminuindo porque conseguem controlar suas finanças mais facilmente e está tudo ali, bem transparente. Elas percebem que diferente dos sites de encontro, o custo de planejar um orçamento fora da realidade existe: você está deixando de enxergar sua situação financeira com clareza e fazer um plano factível para juntar dinheiro.

E você, é adepto do cheap talk?

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

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Perfil do blogueiro

É fundador do GuiaBolso.com, um site de controle financeiro automático e gratuito. Foi consultor da McKinsey & Company. thiago@guiabolso.com.br