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Bill Gross, um dos maiores gestores de recursos do planeta, endossa o bitcoin

Quando alguém do calibre de Gross fala, eu escuto. Não se deve subestimar a opinião de quem é encarregado de gerir bilhões de dólares de clientes e que é pago para estar certo no tempo certo. E o que ele escreveu na carta aos investidores deste mês merece toda atenção. "Bitcoin e tecnologias de block chain privadas acordadas por um pequeno grupo de bancos globais são somente alguns exemplos de tentativas de estabilizar o valor dos ativos atuais em termos de poder de compra futuro", escreveu Bill Gross no seu Investment Outlook de outubro de 2016.

Quando alguém do calibre de Gross fala, eu escuto. Não se deve subestimar a opinião de quem é encarregado de gerir bilhões de dólares de clientes e que é pago para estar certo no tempo certo. E o que ele escreveu na carta aos investidores deste mês merece toda a atenção.

"Bitcoin e tecnologias de block chain privadas acordadas por um pequeno grupo de bancos globais são somente alguns exemplos de tentativas de estabilizar o valor dos ativos atuais em termos de poder de compra futuro", escreveu Bill Gross no seu Investment Outlook de outubro de 2016.

Não é a primeira vez que ele menciona o bitcoin. Em 2013, o famoso gestor de fundos bilionários da Janus Capital, à época no comando da PIMCO, tuitou sobre a moeda digital de forma, digamos, um pouco pejorativa, dando a entender que se tratava de mera "prosperidade artificial". Em parte, entende-se, pois a cotação, então em torno de US$ 700, passara de US$ 1.200 dias antes, uma volatilidade assustadora.

Alguns meses depois, Gross referiu-se novamente à moeda criptográfica, porém, dessa vez, com um tom mais positivo e respeitoso.

Mas a menção de agora é muito mais significativa.  Trata-se de um endosso implícito – embora ainda discreto e cauteloso – de um dos maiores investidores do planeta. Isso não deve ser menosprezado.

E o que tem feito Gross reconhecer os méritos do bitcoin são justamente as políticas monetárias insanas dos bancos centrais. “Os mercados financeiros tornaram-se um cassino de Vegas/Macau/Monte Carlo, apostando que uma oferta ilimitada de crédito gerada pelos bancos centrais pode com êxito inflar novamente as economias globais e revigorar o crescimento nominal do PIB.”

Há diversos meses, Gross vem elevando o tom de suas críticas às posturas do tipo “custe o que custar” (whatever it takes) dos banqueiros centrais. Promessas de mais afrouxamentos quantitativos (QE) com taxas de juros negativas têm levado, na visão de Gross, a uma maior instabilidade financeira, em que os retornos já não justificam os riscos. A perda de confiança nesse sistema é uma questão de tempo. Com o alerta “Isso não pode acabar bem”, Gross fecha a sua carta mensal.

Quem acompanha meu blog sabe que concordo plenamente com essa visão. A arrogância cega dos banqueiros centrais do mundo desenvolvido está inflando bolhas de ativos no planeta inteiro. E, não, eles não sabem o que estão fazendo. Eles não têm tudo sob controle. Infelizmente, é um grande experimento monetário que, como diz Gross, não tem como acabar bem.

Mas o mais interessante dessa carta do gestor da Janus não é nem a sua crítica veemente ao sistema financeiro vigente – isso não é novidade –, e sim o fato de ele aventar o bitcoin e o blockchain como potenciais soluções, potenciais alternativas a essa desordem monetária imposta desde cima a toda sociedade.

Certamente, Gross não aloca recursos de seus fundos nesse ativo digital criptográfico. Primeiro, porque talvez esteja até impossibilitado de o fazer devido a questões regulatórias. Imagino que muitos de seus clientes tenham restrições estatutárias contra investimentos não tradicionais ou não perfeitamente regulamentados dentro do marco legal de suas jurisdições.

Em entrevista à rede Bloomberg, o investidor é questionado precisamente sobre isso. Visualmente surpreso com as opiniões de Gross – que afirma que o bitcoin é um "substituto potencial à cunhagem de moeda" , o âncora da Bloomberg pergunta se ele estaria então “endossando de fato o bitcoin como alternativa e se ele investe no ativo por meio de seus fundos”. Vejam abaixo o trecho na íntegra.

A resposta de Gross é excelente. Negando que esteja investindo na criptomoeda, ele responde: “Estou falando de soluções potenciais que nós podemos eventualmente necessitar como alternativa com estabilidade, comparada ao sistema atual que temos agora. Isso está provavelmente a anos de distância. Mas é algo que devemos olhar para a frente, para o futuro, em vez de olhar para trás”.

Muito embora ele não possa diversificar a carteira dos seus fundos com o bitcoin, aposto que, em privado, ele já esteja ou acumulando um punhado para si ou recomendando a seus amigos que reservem uma pequena parcela de sua liquidez para esse ativo inédito com enorme potencial de upside (ou, ao menos, com potencial de preservação de poder de compra).

Ouro, relíquia histórica que é, também seria uma opção nesse cenário de caos financeiro, de acordo com o gestor. Mas, surpreendentemente, parece que, na margem, o bitcoin estaria na frente nessa disputa pelo capital dos investidores. Pelo menos essa é a minha interpretação da carta e da entrevista de Bill Gross.

Tenho dito e repito: os bancos centrais modernos serão os principais responsáveis por lançar o bitcoin ao estrelato, ao mainstream. Porque quando a “proposta de valor” dos donos das impressoras das moedas de reserva é injetar liquidez ilimitada, desvalorizar o dinheiro, impor juros negativos e criminalizar o dinheiro em espécie, a única saída, a única alternativa possível, é o bitcoin.

É uma questão de tempo para que mais investidores percebam que estamos diante do novo ativo de proteção do século XXI. Um novo porto seguro. 

Importante: As opiniões contidas neste texto são do autor do blog e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney.

perfil do autor

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Fernando Ulrich

Fernando Ulrich é mestre em Economia da Escola Austríaca, com experiência mundial na indústria de elevadores e nos mercados financeiro e imobiliário brasileiros. É conselheiro do Instituto Mises Brasil, estudioso de teoria monetária e entusiasta de moedas digitais. É autor do livro "Bitcoin - a moeda na era digital".

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