Em petrobras

Timing é tudo: por 3 dias, emissão de bonds da Petrobras salvou-se do fracasso

Estatal captou US$ 4 bilhões no exterior via Global Notes com taxas bem mais atrativas em relação ao precificado após as turbulências políticas

SÃO PAULO – Desde a entrada de Pedro Parente na presidência da Petrobras (PETR4), em maio de 2016, a confiança do mercado com o futuro da estatal cresceu inegavelmente. Em um ano à frente da petrolífera, as ações preferencias subiram cerca de 70%, ao mesmo tempo que o custo de endividamento da estatal, que chegou a bater 15% no ano passado, oscila hoje na faixa de 6%, segundo o próprio presidente.

Essa "lua de mel" com os investidores motivou a estatal ir duas vezes ao mercado externo neste ano para angariar recursos. Em janeiro, a Petrobras ofertou Global Notes (títulos de dívida negociados no exterior) com vencimento em 2022 e 2027 com sucesso, uma vez que os US$ 4 bilhões oferecidos foram aceitos pelo mercado imediatamente. Para se ter uma ideia do triunfo, a demanda aproximada foi 5,1 e 4,6 vezes superiores ao volume final para os prazos de 5 e 10 anos, respectivamente.

Diante do sucesso e seguindo com o seu plano estratégico para até 2021, que tem como um dos objetivos, reduzir sua dívida, a Petrobras foi novamente ao mercado. Porém, desta vez, não foi a demanda pelos títulos de dívida da estatal que chamou mais a atenção, mas sim o timing mais do que cirúrgico.

Timing é tudo
No dia 15 de maio, a Petrobras ofereceu ao mercado três tipos de vencimento de dívida: 2022, 2027 e 2044. Repetindo o sucesso da oferta passada, os US$ 4 bilhões ofertados foram imediatamente absorvidos pelo mercado, com taxa real (rendimento oferecido ao investidor) de 4,875%, 6,00% e 7,00%, respectivamente. Guardem esses números.

Dois dias depois, na noite da quarta-feira (17), foram divulgados os áudios da delação premiada da JBS (JBSS3), fato que resultou em um dia de caos nos mercados no dia seguinte. Um importante indício pra perceber a maior percepção de risco para o Brasil foi o salto de 30% do CDS (Credit Default Swap) brasileiro no dia. E, como já diz uma das leis mais básicas de finanças - "quanto maior o risco, maior o retorno esperado".

Aplicando essa lógica para o mercado dívida, o aumento do risco gerado pelo caos político impacta diretamente para cima no rendimento que o investidor quer receber ao adquirir um título. Foi neste quesito, que o timing cirúrgico da Petrobras fez toda a diferença: na tabela abaixo, você confere quanto que o mercado estava exigindo em cada um dos três bonds da Petrobras no dia 18 de maio. Perceba a diferença em relação ao "yield" inicial:

Diferença entre o Rendimento ao Investor oferecido pela Petrobras e o praticado pelo mercado no dia 18 de maio
Vencimento do Título (ano) Rendimento ao Investidor (oferecido pela Petrobras em 15/05) Rendimento ao Investidor (marcação ao mercado do dia 18/05)* Diferença entre as Taxas (%)
2022 4,875% 5,472% +12,25%
2027 6,000% 6,631% +10,52%
2044 7,000% 7,403% +5,76%
*Fonte: Terminal Bloomberg

O que isso significa?
A decisão de entrar no mercado no dia 15 de maio, em comparação ao aumento do risco gerado após o dia 18 de maio, foi fundamental para a Petrobras por dois motivos:

i) levando em conta o caos gerado pelas delações e o aumento substancial da percepção de risco, provavelmente, segundo operadores de mercado, não haveria oferta;

ii) caso a oferta fosse catalogada em 18 de maio, o Rendimento ao Investidor oferecido pela Petrobras deveria ser maior, conforme aponta a coluna Diferença entre as Taxas da tabela.

Sobre a segunda suposição, a lógica é a seguinte: tomando como exemplo o vencimento de 2002, no dia 15 de maio, a Petrobras ofereceu uma taxa de remuneração ao mercado de 4,875%. Agora, supondo a oferta no dia 18 de maio e que a taxa oferecida pela a estatal fosse a de mercado, o investidor deveria aceitar uma remuneração 12,25% maior. Este fato implicaria em maior custo para a empresa ou em uma captação menor.

Risco ainda segue alto
Apesar da reação do mercado nos últimos dias, que subiu 5% frente a mínima de quinta-feira, conforme o fechamento de quarta-feira (24), ainda estamos longe de fechar esse gap de confiança que o cenário político proporcionou. E essa percepção também segue nos títulos de dívida.

Ao observar a evolução dos principais Global Notes brasileiros - Petrobras (linha verde), Itaú Unibanco (ITUB4; linha amarela), Bradesco (BBDC4; linha rosa) e Vale (VALE5; linha vermelha) - com vencimento em 2022, pode-se perceber que o "pico de risco" foi atingido exatamente em 18 de maio junto com o CDS (linha branca). Desde então, houve uma redução nos níveis de risco, mas nada que se compare ao precificado antes de quinta-feira passada.

Olhando especificamente para Petrobras, de sexta-feira (19) até a última quarta-feira (24), a média da taxa dos títulos com vencimento em 2022 ficou em 5,372%, enquanto de 2027 e 2044 foi de 6,476% e 7,376%, respectivamente. Portanto, não ocorreu uma queda expressiva das taxas diante do fechamento da fatídica quinta-feira, ou seja, a percepção de risco permanece alta no caso da estatal.

E, por tudo isso que foi exposto, o timing da captação da Petrobras foi cirúrgico, pois a estatal conseguiu aproveitar a última janela de oferta de títulos ao mercado até então.

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