55% em um ano, queda em junho: ainda vale investir em títulos de inflação?

Para a professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Myrian Lund, investir nesses títulos continua interessante, mas é preciso olhar para o longo prazo
Por Diego Lazzaris Borges  
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SÃO PAULO – No ano passado e nos primeiros meses deste ano, as NTN-Bs (Notas do Tesouro Nacional – Série B), títulos públicos atrelados ao IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo) se destacaram em relação à rentabilidade. A expectativa de aumento da inflação e os cortes nas taxas de juros impulsionaram a valorização destes ativos. Para se ter uma ideia, as NTN-Bs com vencimento em junho de 2035 acumulam uma rentabilidade de 55,6% nos últimos 12 meses.

Se considerado apenas o mês de junho, entretanto, os títulos de prazo mais longo recuaram – o IMAB+5 , índice que calcula a rentabilidade média das NTN-Bs com prazo superior a 5 anos caiu 1,72%, fazendo com que os fundos classificados na Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) como Renda Fixa Índices também tivessem desvalorização média no mês (0,08%).

Mas mesmo com a expectativa de uma inflação mais controlada, os investidores não deixam de olhar para esta aplicação. No mês de junho, a participação das NTN-Bs no volume total vendido pelo Tesouro Direto foi de 69,3%, enquanto em maio atingiu o recorde histórico de 70,8%.

Para a professora da FGV (Fundação Getúlio Vargas), Myrian Lund, investir nesses títulos continua interessante, mas é preciso olhar para o longo prazo. Isso porque as NTN-Bs são realmente mais voláteis e no curto prazo pode haver uma oscilação grande no valor de face dos títulos, que pode resultar em ganhos maiores ou até mesmo perdas, como aconteceu em junho. “Quem compra títulos ligados à inflação deve adequar a data de vencimento ao seu objetivo de longo prazo, como aposentadoria, por exemplo”, diz Myrian.

Além disso, ela lembra que as NTN-Bs são uma forma que o investidor possui de garantir sempre o ganho real da sua aplicação financeira (rentabilidade descontada a inflação)– a remuneração destes títulos é IPCA mais um cupom de juros, que pode variar dependendo do nível atual da Selic.

O professor de finanças do Labfin FIA e da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), Bolívar Godinho, concorda que para quem pretende permanecer com o título até o final, as NTN-Bs são sempre uma alternativa interessante por garantirem o poder de compra do investidor. “O título corrigido pela inflação é a melhor proteção”, afirma.

Ao mesmo tempo, ele ressalta que estes títulos estão oferecendo uma rentabilidade real menor do que há alguns meses e por isso o investidor pode fazer um cálculo simples para saber se vale a pena comprar. (Para a comparação ele utilizou o valor dos títulos no dia 25 de julho)

“A LTN (Letra Financeira do Tesouro), título prefixado, com vencimento em janeiro de 2015 está pagando 8,31% ao ano. Já a NTN-B Principal com vencimento em maio de 2015 paga IPCA mais 2,89%. Ao dividir 1,0831 (os três últimos números são a rentabilidade da LTN) por 10289 (os três últimos números são a rentabilidade da NTN-B) temos 1,0527. Se você esperar que a inflação vá ser maior do que os últimos três números deste resultado (5,27%), vale mais a pena investir em NTN-B. Se a expectativa for de que a inflação fique abaixo disso, o melhor seria investir em LTN”, afirma Godinho.

Expectativa de inflação em baixa
Para o professor do Ibmec, Luiz Fiipe Rossi, investir em NTN-B neste momento pode não ser a melhor alternativa, justamente por conta da expectativa de inflação mais baixa e do desaquecimento da economia nacional. “Não há mais dúvidas de que a crise chegou aqui no Brasil, nossa economia está desacelerando”, afirma Rossi.

Com isso, ele aponta que os preços não devem ser um problema nos próximos anos e a inflação não deve preocupar tanto. “Justamente por este motivo, neste momento acho que a melhor opção são os títulos prefixados”, aconselha.

O gestor da Lecca Investimentos, Georges Catalão, também acha que o momento não é ideal para comprar NTN-Bs. Para ele, o melhor é aumentar a estratégia de investimentos em títulos pós-fixados em juros, como CDBs pós-fixados e LFTs (Letras Financeiras do Tesouro), títulos públicos indexados à taxa Selic. “Este cenário de queda de juros pode estar perto do fim”, aponta. Com isso, investir em títulos ligados à taxa básica de juros pode fazer mais sentido. “Estes títulos oferecem uma rentabilidade constante, sem volatilidade e podem ser beneficiados com o aumento dos juros”, finaliza.

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