Em negocios

Sem incentivo oficial, músicos iniciam "revolução" para conseguir trabalhar

Empreendedorismo é "segunda profissão" de músicos em cenário onde captar recursos é cada vez mais difícil

Luiz Gabriel Lopes
(Divulgação)

SÃO PAULO – Com 185 projetos em aberto neste momento, a categoria “Música” é uma das mais movimentadas do site Catarse, que permite financiamento coletivo de projetos por pessoas comuns interessadas em consumir seus produtos. Em outras plataformas, como o Kickante, o padrão se repete, e até artistas já consagrados, como o controverso Lobão, aparecem entre as campanhas para financiamento de discos e turnês.

Esse é apenas um dos formatos aos quais os músicos brasileiros resolveram recorrer diante de um cenário onde o financiamento por vias oficiais se mostra cada vez mais escasso. Em muitos momentos, artistas veem a necessidade de vestir a roupagem de empreendedores e abusar da criatividade para realmente deslanchar - sem precisar fazer sacrifícios financeiros ou "vender tudo".

É o caso de Otávio Carvalho, baixista e tesoureiro do grupo Vitrola Sintética, indicado ao Grammy Latino em 2015 e 2016. Formado em publicidade, Otávio percebeu que poderia juntar dinheiro com a profissão e, aos poucos, abrir um estúdio completo com seus colegas – tendo em vista que equipamentos para esse tipo de empreendimento são vendidos por valores cada vez mais acessíveis. Foi o que fizeram.

“A construção do estúdio veio com o trabalho que a gente desenvolvia com publicidade, que é muito movimentado em recursos. Com o tempo, conseguimos ampliar essa fonte, mas a base veio a partir disso”, conta o artista, que chegou a fazer cursos no Sebrae para atender melhor às demandas de seus clientes e crescer de maneira saudável. Ele acredita que a cabeça empreendedora é essencial também nos momentos em que se apresenta como banda. “Você precisa saber onde vai usar o dinheiro dos shows, administrar a verba para clipes, cuidar do marketing, divulgação”, exemplifica.

Luiz Gabriel Lopes, da banda Graveola, pensa parecido. “Em qualquer ocupação que você tiver, vai precisar de uma dose de empreendedorismo, de consciência do mercado onde está inserido. Onde estão seus potenciais nichos de diálogo, de multiplicação”, opina. Mas destaca: “não precisa ser de uma forma aprisionante, de abdicar da arte, mas sim destilar uma visão para entender o circuito em que você quer se inserir”.

Adepto ao financiamento coletivo, Luiz conseguiu R$ 30 mil a partir desta fonte para lançar seu terceiro disco, MANA, mas também criou, em projeto solo, um formato de contato com seu público que possibilita relação mais intensa com as pessoas que realmente têm interesse em sua arte.

“Muita gente sempre perguntava quando eu iria para tal lugar, e aí eu comecei a tentar estabelecer um contato com essas pessoas. Fazer uma provocação – ‘e ai, como é que a gente faz?’”. A partir disso, percebeu que havia uma rede de pessoas disposta a realmente viabilizar sua ida aos locais em questão. Luiz aliou essa disposição a um formato que já estava em sua agenda, de voz e violão. “Existe uma logística muito facilitada em torno da produção de um pequeno show”, descreve.

A potencialização desse projeto veio, justamente, através do crowdfunding. “Uma das recompensas [para apoiadores do projeto] era o show na casa [do apoiador]. A pessoa podia comprar antecipadamente o esquema, e arcava com a logística”, relembra. “Muita gente comprou essa recompensa e a partir disso comecei a ver que esse formato era muito interessante muito viável”. Luiz comemora o que considera tendência mundial: “é viabilizar um próximo trabalho de um artista que elas acompanham. Acho que isso é uma revolução do mercado”.

Outras pessoas já notaram essa revolução. Há, inclusive, até uma plataforma específica para que esse diálogo ocorra, a queremos.com.br. Nela, fãs podem organizar um coro para incentivar que seus artistas favoritos toquem em suas cidades. Os interessados recebem informações quando os shows estiverem para acontecer e acesso antecipado aos ingressos. 

Corte começa com a cultura

Para Otávio, a Cultura é o primeiro lado para onde o governo olha quando começa a cortar gastos. Soma-se a isso a mudança na mentalidade do consumo de música. “O MP3 criou o conceito de música de graça. A pessoa desacostumou a pagar pela música, pela arte. Isso se transforma em uma cadeia e, para você produzir um disco, é muito difícil”, diz.

Quanto ao streaming, que correspondeu a 49% do faturamento no mercado fonográfico em 2016 e segue em pleno crescimento, o músico acredita que ainda há longo caminho a ser percorrido até que haja justiça. “Essas plataformas ainda têm uma relação difícil com o retorno de pagamento. Não está muito claro o padrão, às vezes o cara tem milhões de acessos e ganha uma mixaria. Precisa achar um caminho para melhorar essa relação”, analisa.

Por esse ângulo, trabalhar em uma via de mão dupla ajuda na relação músico-produtor. “Sei, como produtor, a dificuldade que é gravar um disco e ter que também viabilizar. Consigo pensar junto com o artista de uma forma que eu consiga pagar minhas contas e que ele não precise vender tudo o que ele tem para pagar pelo disco”.  

Luiz também vê as vantagens dos formatos independentes. “Ou ele [o músico] é refém de uma estrutura que financia e na qual existe espaço pra muito poucos, ou utiliza as ferramentas disponíveis”, resume. O formato independente “é muito positivo na medida em que você não depende da legitimação de um circuito que talvez não esteja interessado no que você produz, porque isso não significa que não existe público, pessoas interessadas no seu trabalho”.

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