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Como uma das maiores empresas do Japão vai usar juro negativo para replicar seu sucesso no Brasil

Rakuten já é líder em vários mercados, mas operações no Brasil tendem a disparar a partir do mês que vem

SÃO PAULO – Criada em 1997, a Rakuten é uma das maiores e mais tecnológicas empresas do Japão. Tem valor de mercado de US$ 11,4 bilhões, quase 15 mil funcionários, 1,1 bilhão de usuários em 29 países e um enorme desafio: replicar seu sucesso também no Brasil – onde é conhecida, por enquanto, como “patrocinadora do Barcelona FC”. Ao mesmo tempo, a japonesa conta com uma arma poderosa: o diferencial de juros.

Nesta quinta-feira (24), o InfoMoney entrevista recebeu o CEO das operações brasileiras da empresa, René Abe, para identificar as particularidades do mercado brasileiro e apresentar a estratégia da companhia para fisgar os clientes locais. O programa está disponível por completo no player acima.

"A taxa de juro real no Japão é abaixo de zero, e nós temos um cenário de juros muito altos aqui no Brasil", diz o executivo. "No Brasil, a oportunidade de investimento acontece porque nós estamos em um país em que temos o dever como corporação global de ter esse dinheiro à mão para oferecer esse custo mais baixo", continua. "Ter capital a um custo Japão nos habilita a poder trazer essa economia para os lojistas", garante. 

Essa novidade virá no dia 1º de junho, quando a empresa lançará um de seus produtos mais relevantes, o Rakuten Pay, aos lojistas brasileiros. 

O que é a Rakuten

Marketplace, serviços bancários, cartões, programas de fidelidade, corretora de valores, TV a cabo, celulares e outros fazem parte dos produtos oferecidos pela gigante, que já se tornou líder em diversos mercados além da terra do sol nascente. É um modelo agressivo: além de comprar e criar fintechs além-mar (já são mais de 100 no guarda-chuva), a empresa faz questão que todos os seus funcionários aprendam inglês em um programa apelidado Englishnization, que conta com aulas, manuais e calls, além de treinamentos fora do Japão e até um livro escrito pelo fundador da empresa, Hiroshi “Mickey” Mikitani.

O modelo da Rakuten também é difícil de replicar. Como facilitador de negócios para lojistas, a companhia conseguiu montar um universo de possibilidades também para os clientes, que podem utilizar seus Super Points dos programas de fidelidade Ebates para adquirir a moeda digital da empresa e comprar essencialmente qualquer coisa em um “shopping” próprio.

Caso prefira, o cliente também pode utilizar esses pontos para investir no mercado financeiro e conseguir rentabilidade real via robô de investimentos - também próprio. O app de mensagens Viber, o cartão de crédito próprio e uma plataforma de vídeo estão entre a lista de itens que diferenciam a companhia de outras gigantes de e-commerce, como a Amazon.  

E o Brasil?

Com toda essa integração, “ecossistema” é a palavra-chave para uma empresa que quer ser basicamente a “única” na vida dos japoneses – e está perto disso. Hoje, uma pessoa que tem o Rakuten Card ganha imediatamente acesso a uma enorme gama de produtos. "O uso de tudo acaba fazendo com que a conta do Rakuten Mobile fique de graça", exemplifica o CEO brasileiro René. Mas o brasileiro aparentemente não é um grande entusiasta desta ideia - ao menos por enquanto.

Em 2011, a empresa teve sua primeira tentativa – frustrada – de conquistar as terras tupiniquins, através da compra da Ikeda. Naquele ano, o brasileiro não gostava de ter seu negócio enclausurado em um marketplace: pequenos varejistas preferiam o risco de ter um site próprio para cada loja física. "Costumava dizer que o brasileiro gosta de carro próprio, casa própria e loja.com própria", exemplifica o CEO. 

Quatro anos se passaram, e, em 2015, René veio do PayPal para a Rakuten tentar entender uma outra forma de penetrar por aqui. Depois de tantos anos longe do marketplace, hoje dominado por gigantes como o Mercado Livre nacionalmente, a estratégia da japonesa agora será outra: em vez de replicar um modelo bem-sucedido em outro país, agarrar o mercado nacional com meios de pagamento via Rakuten Pay e tornar-se um enorme facilitador e agregador de serviços para pequenos e médios lojistas.

Atualmente, o foco está no Nexus, uma plataforma que centraliza todas as conexões de e-commerces com MarketPlaces, ERP’s e Operadores Logísticos em apenas uma API. Mais de mil lojistas já utilizam o Nexus através do marketplace do WalMart. Basicamente, o consumidor brasileiro utiliza a Rakuten, mas não sabe. "Nós colocamos você e sua empresa em um patamar que só as grandes empresas de comércio têm acesso", diz René. 

A ideia parece estar funcionando: 2017 foi o primeiro ano do braço brasileiro da empresa no azul, utilizando pagamentos e os Superpoints, que são acumulados a cada compra ainda que o consumidor não esteja ciente. 

Há cerca de 8 meses, a empresa entrou com pedido no BC para conseguir utilizar pontos como meio de pagamento – sem a necessidade de convertê-los em dinheiro. A partir daí, nascerá um novo foco: alertar o consumidor desses pontos “escondidos”.

A iminência da chegada do Rakuten Pay será um grande catalisador de toda esta mudança. É aqui que entram os juros baixos do Japão. "Essa é uma garantia muito forte do que vai acontecer com a escalada e lançamento do Rakuten Pay" no Brasil.

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