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Economista explica "falta de papel higiênico" na confusa Venezuela

Não, os venezuelanos não estão "pobres demais" para comprar papel higiênico: o problema está no câmbio

SÃO PAULO – Em 2013, a crise venezuelana fez com que o governo fechasse temporariamente uma fábrica de papel higiênico, e isso chamou a atenção da mídia internacional. Mas não, isso não significa que o país é tão pobre que as pessoas não conseguem nem comprar papel higiênico: na época desse evento, o PIB per capita da Venezuela era de US$14.000 – o equivalente a países como a Polônia.

De acordo com o analista do Bank of America Merrill Lynch Francisco Rodriguez, que escreveu sobre o assunto nesta terça-feira, o problema na verdade é o mercado negro do país que, por conta das taxas de câmbio oficiais altíssimas, pratica a “reexportação”.

Essa prática, segundo o Business Insider, consiste em revender produtos exportados com o valor verdadeiro da moeda, após compra-los com as taxas de câmbio estabelecidas artificialmente pelo governo. Os comerciantes, que conseguiriam revender o papel higiênico com lucro de 20% no mercado regular, usam o mercado negro para lucrar muito mais, devido à discrepância entre as taxas de câmbio reais e as “forjadas”. Como a economia do país se baseia muito na importação, as consequências são notáveis.

Números

Os cálculos oficiais mostram que cada dólar norte-americano vale 6,36 bolívares venezuelanos. Mas um site chamado dolartoday, que compara o dólar ao peso colombiano e depois faz as contas em relação à moeda da Venezuela, mostra que, na “economia real”, o valor está em mais de 800 bolívares.

Dessa forma, ao vender iPhones, por exemplo, os importadores podem conseguir retornos de até 13.400%, o que quebra os comércios regulares e bagunça a economia do país. Claro, isso é ilegal e arriscado: o governo já tentou inclusive restringir o acesso ao Dolartoday, e até processar o provedor, que é norte-americano, sem sucesso.

Bolívar e dólar - bloomberg
(Bloomberg)

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