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"Lula fora das eleições não provocará trauma, mas oxigenação à política", diz sociólogo

Para Rodrigo Prando, ex-presidente perdeu parte de seu capital político com a perspectiva de poder mais turva. Restaria ao PT buscar alternativas, o que o professor advoga que poderia ser bom para a democracia

SÃO PAULO - Embora as pesquisas de intenção de voto para a próxima corrida ao Palácio do Planalto indiquem uma resiliência do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa, os episódios recentes envolvendo o líder petista já apontam para uma perda de capital política e a necessidade de seu partido se reinventar para essas eleições. Essa é a leitura que faz o sociólogo Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, convidado do programa Conexão Brasília da última sexta-feira (9).

"As condições objetivas e subjetivas de Lula hoje são muito difíceis. Toda a defesa jurídica, que deveria ter sido técnica, acabou sendo politizada. Isso faria parte daquilo que é inerente à figura do ex-presidente, que é um animal político, que entende daquilo que fala, é cativante, se comunica e tem carisma. O problema é que a defesa seguiu nessa toada e as derrotas foram em cascata. Com a condenação em segunda instância por unanimidade e aumento de pena, hoje o medo maior não é se ele vai ser candidato ou não. Acho que no íntimo já incorporaram que ele não será candidato. O medo maior é se ele vai ou não ser preso", afirmou.

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Segundo Prando, tal percepção pode ser evidenciada até mesmo pelo posicionamento de outros grupos de esquerda, que optaram por lançar candidaturas próprias para essas eleições. "Político quer conquistar poder. Quando Lula simbolizou e tornou-se concretamente a possibilidade de poder, houve alianças. Hoje, ele não está próximo do poder, muito pelo contrário".

Para o professor, ao contrário dos alertas feitos por muitos colegas, o cada vez mais provável impedimento de Lula disputar as eleições presidenciais de outubro não provocaria um trauma ao país, tampouco seria uma pá de cal sobre o PT. “De certa maneira, eu penso que a ausência de Lula no cenário político não vai trazer trauma, mas oxigenação à política brasileira, à democracia no geral, e, sobretudo ao PT, que talvez se reinvente e dê espaços a novas lideranças”, observou.

"Arrisco dizer que se conseguir fazer uma autocrítica, o PT é capaz de se reinventar e participar de novas eleições em novos momentos da democracia brasileira. Para mim, hoje, quanto mais Lula postergar em indicar alguém, mais difícil fica para o PT", projeta o sociólogo. Ele acredita que a insistência na candidatura do ex-presidente pode até mesmo culminar em outro tombo do partido após a desidratação observada nas eleições municipais, de 630 prefeituras para 255 após a disputa de 2016. "Diminui o tempo de TV para as próximas eleições, o acesso ao fundo partidário e até espaço físico na Câmara dos Deputados. Então, ou o PT começa a efetivamente se articular para pensar em outro nome, inclusive com apoio do Lula, seja fora da cadeia ou preso, ou tendo a crer que ele começa a se tornar nessa eleição, de certa maneira, irrelevante", complementou.

Embora o discurso oficial petista seja de não haver alternativa à defesa da candidatura de Lula, nos bastidores o professor acredita que já há outros planos sendo articulados. “Os petistas dizem ‘nós vamos com ele até o fim’. Mas sabe-se que este ‘fim’ não é o fim, porque, para além de Lula, o partido é orgânico e também busca a liderança no campo da política com outros nomes. No fundo, para mim, a presença de Lula ininterruptamente em todas as eleições da Nova República, desde 1989, é um indício não de vitalidade, mas de certa fragilidade da democracia dos partidos, porque não conseguiram ofertar novos nomes", observou.

"Todas as correntes internas do PT vão perceber que o nome Lula e o mito Lula estão mais fragilizados do que nunca. Não vai surgir ninguém que consiga imediatamente chegar à condição que ele historicamente tem, mas alguém vai chegar. O poder não fica órfão, ele é atrativo. Na ausência de um poderoso, outro chega. E provavelmente dentro do PT haverá diálogo e um pensamento para além de Lula e esse cenário. Tenho certeza que há lideranças dentro do partido que já estão fazendo isso", concluiu o sociólogo.

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