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"Não sou racista": os principais trechos do texto de William Waack publicado na Folha

Jornalista quebra o silêncio após mais de dois meses do vazamento do vídeo que culminou na sua demissão da Rede Globo de Televisão

Jornal da Globo
(Reprodução)

SÃO PAULO - Dois meses após o vazamento do vídeo um que aparece fazendo um comentário de cunho racial - e que resultou na sua demissão da Rede Globo -, o jornalista William Waack quebrou o silêncio com um artigo publicado no jornal Folha de S. Paulo neste domingo (14), tornando-se um dos assuntos mais comentados deste fim de semana.

Na coluna, intitulada "Não sou racista, minha obra prova", o jornalista de 65 anos pede desculpas e diz que não era intenção ofender ninguém. "Aquilo foi uma piada - idiota, como bem disse meu amigo Gil Moura -, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, em um momento particular", escreveu Waack no artigo. Ele ainda falou sobre a sua luta contra a intolerância ao longo de toda sua carreira e agradeceu o apoio de pessoas que, mesmo bravas com a piada feita, entenderam que ela não se tratava de uma manifestação racista (confira abaixo os principais trechos do artigo).

A lembrar: em 8 de novembro de 2017, vazou um vídeo de uma entrevista feita por William Waack em 2016 em um estúdio em frente à Casa Branca, na capital dos Estados Unidos. Fora do ar, o jornalista demonstrou irritação com um carro que buzinava nas ruas e disse: "Tá buzinando por que, seu m... do cacete? Não vou nem falar porque eu sei quem é..." e num tom de voz bem mais baixo, emendou: "É preto. É coisa de preto", disse ao entrevistado Paulo Sotero, diretor do Brazil Institute.

No mesmo dia do vazamento do vídeo, Waack foi afastado da emissora e sua demissão foi confirmada em 23 de dezembro. Em todo este período, ele não tinha se manifestado sobre o assunto até então.

Principais trechos do artigo de William Waack:

"Se os rapazes que roubaram a imagem da Globo e a vazaram tivesse me abordar, naquela noite de 8 de novembro de 2016, eu teria dito a eles a mesma coisa que direi agora: 'Aquilo foi uma piada - idiota, como disse meu amigo Gil Moura -, sem a menor intenção racista, dita em tom de brincadeira, num momento particular. Desculpem-me pela ofensa; não era minha intenção ofender qualquer pessoa, e aqui estendo sinceramente minha mão."

"Sim, existe racismo no Brasil, ao contrário do que alguns pretendem. Durante toda a minha vida, combati intolerância de qualquer tipo — racial, inclusive —, e minha vida profissional e pessoal é prova eloquente disso. Autorizado por ela, faço aqui uso das palavras da jornalista Glória Maria, que foi bastante perseguida por intolerantes em redes sociais por ter dito em público: ‘Convivi com o William a vida inteira, e ele não é racista. Aquilo foi piada de português.’"

"Não digo quais são meus amigos negros, pois não separo amigos segundo a cor da pele. (…) Igualmente não os distingo segundo a religião —ou pelo que dizem sobre política"

"O episódio que me envolve é a expressão de um fenômeno mais abrangente. Em todo o mundo, na era da revolução digital, as empresas da chamada 'mídia tradicional' são permanentemente desafiadas por grupos organizados no interior das redes sociais (...) Por falta de visão estratégica ou covardia, ou ambas, tornam-se reféns das redes mobilizadas, parte delas alinhada co o que 'donos' de outras agendas políticas definem como 'correto'."

"Aproveito para agradecer o imenso apoio que recebi de muitas pessoas que, mesmo bravas com a piada que fiz, entenderam que disso apenas se tratava, não de uma manifestação racista. Admito, sim, que piadas podem ser a manifestação irrefletida de um histórico de discriminação e exclusão. Mas constitui um erro grave tomar um gracejo circunstanciado, ainda que infeliz, como expressão de um pensamento. Até porque não se poderia tomar um pensamento verdadeiramente racista como uma piada".

"Termino com um saber consagrado: um homem se conhece por sua obra, assim como se conhece a árvore por seu fruto. Tenho 48 anos de profissão. Não haverá gritaria organizada e oportunismo covarde capazes de mudar essa história: não sou racista. Tenho como prova a minha obra, os meus frutos. Eles são a minha verdade e a verdade do que produzi até aqui.”

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