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Uma gigante mundial está se aproveitando da vulnerabilidade do Brasil, diz o FT

A China está investindo pesado no Brasil - e gerando uma questão para as eleições de 2018

SÃO PAULO - Em extensa matéria publicada no início desta semana, o jornal britânico Financial Times destacou o intenso investimento dos chineses em projetos brasileiros e questiona: "será a China uma capturadora ou uma salvadora dos ativos do país latino-americano?"

Como exemplo, os correspondentes Joe Leahy, Andres Schipani e Lucy Hornby destacam o caso do superporto de Açu, próximo ao Rio de Janeiro, que ora foi denominado "estrada para a China" pelo ex-bilionário Eike Batista. Pouco do império de negócios do empresário brasileiro sobreviveu, mas o projeto do porto continua, agora com novo proprietário, a americana EIG, que deverá efetivamente tornar o porto o caminho para o gigante asiático. Agora, a EIG procura ampliar o porto e desenvolver novos negócios, desde terminais de contêineres até usinas de energia e uma trilha ferroviária - muitas das quais atraíram o interesse chinês.

"As conversas das empresas chinesas interessadas em investir no Açu - que foram confirmadas por diversas fontes - são parte de um aumento de investimento nos últimos dois anos pelas maiores empresas do país asiático no Brasil", aponta o jornal britânico.

Sinopec, China Three Gorges Corporation, State Grid Corp, HNA e empresas de tecnologia como a Baidu: elas fizeram recentemente incursões na maior economia da América Latina. E, segundo a Dealogic, as ofertas envolvendo empresas chinesas ultrapassaram US$ 10 bilhões desde 2016. 

"Para o Brasil, o boom do investimento chinês não poderia ter chegado em melhor momento, ajudando a impulsionar a economia do Brasil. O PIB contraiu mais de 7% nos últimos dois anos na pior recessão em muitos anos", lembra a publicação.

A enxurrada de interesse no Brasil representa uma mudança significante feita por Pequim, aponta a publicação. Desde 2005, a China emprestou mais de US$ 140 bilhões para a América Latina - quase metade disso para a Venezuela. Cada vez mais, Pequim está se diversificando e buscando outros países além de aliados tradicionais da região, como o Equador, com destaque para nações com uma base financeira mais sólida e maiores possibilidades estratégicas - principalmente no caso do Brasil.

"Os defensores veem a parceria como um casamento de dois emergentes poderosos - a China, líder industrial em rápido crescimento, e o Brasil, com a força de recursos agrícolas e recursos naturais. Mas os políticos nacionalistas brasileiros estão começando a olhar para a questão da influência da China antes das eleições presidenciais no próximo ano. A invasão de Pequim também suscita preocupações em Washington", avalia o Financial Times. 

Analistas destacam que o aumento do investimento no Brasil começou em torno de 2010 como parte de uma diretriz estatal para aumentar a segurança alimentar e energética da China através de aquisições no exterior, sendo complementares à economia chinesa. Em uma segunda fase, em 2014, os investimentos se diversificaram em indústrias de manufatura e outras focadas no mercado interno brasileiro, com a China buscando uma saída para o excesso de capacidade industrial no setor de aço, automotivos e outras indústrias.

Uma terceira fase se iniciou no ano passado, apontam advogados e banqueiros ao jornal. Hoje, as empresas chinesas estão começando a atuar mais como multinacionais convencionais, buscando retornos competitivos e investindo oportunamente em uma ampla gama de indústrias. A onda mais recente de investimento chinês também ocorre em meio à deflagração da Operação Lava Jato, que levou muitas empresas a alienarem ativos. 

A Lava Jato também complicou a situação das empresas brasileiras, levando a um (temporário) aprofundamento da recessão, diz o FT. Para equilibrar o orçamento, o governo Michel Temer está privatizando ativos - e aí, a China entra mais uma vez na história. 

Segundo o Financial Times, no momento, as empresas chinesas não estão enfrentando a mesma resistência política no Brasil para seus investimentos, como em outros países, no caso a Austrália. "Mas, desta vez, Brasília está desesperada por qualquer investimento que possa atrair", aponta a publicação.

No entanto, com as eleições muito contestadas que se aproximam no Brasil no próximo ano, esta situação benigna pode não durar. O FT cita o candidato presidencial Jair Bolsonaro, que atualmente está em segundo lugar nas pesquisas de opinião para a eleição, que aponta: "o que precisamos é tomar consciência de que a China está comprando o Brasil, não comprando no Brasil". 

Neste mesmo sentido, a publicação aponta, citando especialistas: talvez seja a hora do Brasil submeter os investimentos dos chineses no País a maior escrutínio. 

 

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(Divulgação Petrobras)

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