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NYT aponta efeitos colaterais em meio à luta do Brasil contra corrupção: um possível "Berlusconi"

Segundo o jornal, combate à corrupção pode pôr em risco a estabilidade política do Brasil, traçando um paralelo com a Operação Mãos Limpas na Itália

SÃO PAULO - Em reportagem deste final de semana, o jornal americano The New York Times destacou a luta do Brasil contra a corrupção, mas apontou um possível efeito colateral: a desestabilização da política nacional, levando a um vácuo de poder a ser preenchido por lideranças populistas. De acordo com o jornal, este é um risco a ser enfrentado pelo Brasil agora. 

Ao falar sobre esse cenário, o NYT traça um paralelo do Brasil dos anos 2010 com a Itália dos anos 1990, apontando que o nosso País corre o risco de se aproximar cada vez mais do cenário italiano, quando a Operação Mãos Limpas levou a uma série de processos criminais que eliminou redes de corrupção, limpando o sistema político, mas gerou um efeito negativo.

"Mas, no processo de fazer isso, o sistema partidário, que era a âncora do regime democrático no período pós-guerra, basicamente desmoronou", segundo apontou ao jornal Ken Roberts, cientista político da Cornell University que estuda a América Latina. "O que pode acabar acontecendo é um vácuo político preenchido por um outsider populista como [Silvio] Berlusconi", apontou, em referência ao bilionário empresário que ocupou o cargo de primeiro-ministro durante nove anos no total.

Já na Venezuela, aponta a publicação, uma série de escândalos de corrupção minou a confiança no governo, abrindo espaço para o populismo de Hugo Chávez. Ao longo do tempo, Chávez minou as instituições governamentais e concentrou seu poder próprio, colocando o país no caminho do autoritarismo e da crise econômica que enfrenta hoje.

Segundo o jornal, o Brasil pode estar com risco de obter um resultado semelhante. "Eu realmente me preocupo que, ao limpá-lo, todo o sistema vai desmoronar", disse Roberts, temendo um "Berlusconi brasileiro".

Ilhas de honestidade X sistema corrupto
Essa conclusão vem após uma longa análise sobre a situação nacional e de países que passaram por processo semelhantes de combate a práticas de corrupção na política e do cenário de instabilidade feita pela analista Amanda Taub para o jornal. ''A análise política sugere que este é um exemplo de como as 'ilhas de honestidade' em sistemas corruptos –como procuradores e tribunais independentes com a disposição e autoridade para impor o Estado de Direito– podem entrar em conflito com redes de corrupção arraigadas, provocando e atrapalhando as tentativas das elites políticas de se protegerem", aponta. A crise atual é vista como um processo positivo, de forma a eliminar ou reduzir a corrupção no país. Contudo, aponta, à medida que as duas forças lutam entre si (honestas e corruptas), os confrontos podem ter efeitos imprevisíveis sobre o sistema.

''A corrupção depende de um 'equilíbrio. As pessoas pagam ou aceitam subornos porque pensam que todo mundo está fazendo isso. Como conseqüência, as propinas podem se espalhar rapidamente através de um sistema como um câncer, se apropriando das instituições políticas. Porém, quando promotores ou juízes ganham independência de forma a investigar e processar a corrupção, a corrupção generalizada de repente se torna vulnerabilidade generalizada, criando um incentivo para que os políticos tomem medidas drásticas para se protegerem'', afirma a analista, citando a gravação feita por Sérgio Machado em conversa com o senador Romero Jucá, que tratou de um pacto para a saída de Dilma Rousseff e estabilização do País. 

De acordo com a publicação, a escolha de palavras foi "adequada". "Na ciência política, um 'pacto de transição' é uma forma de os membros da elite, muitas vezes dentro do governo ou dentro do seu círculo de aliados, unir forças com a oposição para substituir um presidente ou regime, na esperança de proteger seus próprios interesses. Este termo geralmente é usado para explicar como um regime autoritário transita para a democracia. Porém, também fornece uma explicação útil sobre como o impeachment funciona em sistemas democráticos.''

Porém, esses pactos também são vulneráveis e dependem de instituições poderosas e apoio popular, afirma o jornal. Contudo, se a população for contra a transição, o poder e a autoridade do governo são destruídos. Neste cenário, aponta a a analista, apesar de grande apoio à luta contra a corrupção no Brasil e do governo do ''pacto'' ter baixa popularidade, especialistas apontam preocupação de que cada novo escândalo possa enfraquecer o sistema político e diminuir a confiança popular. E assim, neste cenário que os analistas políticos apontam o risco Berlusconi no Brasil. 

Silvio Berlusconi - ex-primeiro-ministro da Itália
(Alessandro Bianchi/Reuters)

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