Em mercados

Se a meta de inflação for reduzida, a Selic cairá menos que o mercado espera?

Em relatório a clientes, economistas do Itaú veem janela de oportunidade para uma queda mais sustentada nos juros, com ancoragem de expectativas, ociosidade da economia e mudanças institucionais

SÃO PAULO - Na contramão de avaliações preliminares de que uma redução na meta de inflação poderia atrapalhar no ciclo de cortes na taxa básica de juros e até causar atrito político entre Ministério da Fazenda e Banco Central, a equipe de análise do Itaú Unibanco emitiu relatório, na última quarta-feira (1), chamando atenção para uma possível abertura de espaço para uma queda sustentada na Selic. Para eles, a combinação dos esforços do BC em ancorar expectativas de inflação, o elevado grau de ociosidade da economia e mudanças institucionais como a aprovação da PEC do Teto de Gastos pode permitir ao Brasil a manutenção do compromisso de perseguir uma inflação cada vez mais baixa.

"Uma redução da meta de inflação não necessariamente limita o tamanho do ciclo de afrouxamento monetário no curto prazo", escreveram Felipe Salles e Julia Gottlieb em relatório a clientes. "Se a meta de inflação for reduzida e a política monetária for crível, isso se traduzirá em uma inflação mais baixa nos próximos anos, sem a necessidade de uma política monetária mais restritiva", complementaram.

Para sustentar tal avaliação aplicada à atual conjuntura brasileira, a dupla estimou uma curva de inflação de preços livres (excluindo alimentos) e outra exclusivamente de inflação de alimentos, levando em consideração o hiato do desemprego, a inércia inflacionária e as projeções para a evolução dos preços três anos à frente. Eis a conclusão a que chegaram ao final dos cálculos: "Com base nos coeficientes estimados, e se a política monetária for crível, uma redução de 100 pontos-base na meta de inflação altera os preços livres em aproximadamente 70 p.b., o que tem um impacto de 50 p.b. na inflação cheia".

Para Salles e Gottlieb, é possível que choques específicos provoquem desvios na inflação no curto prazo, mas isso não tende a atrapalhar a convergência à meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional, desde que haja credibilidade na condução das atividades do BC.

"Uma meta de inflação 100 p.b. mais baixa pode se traduzir em taxas de juros cerca de 40 p.b. menores, calculadas a partir do impacto sobre os juros neutros (-100 p.b.) mais o impacto sobre os desvios das expectativas em relação à meta (60 p.b.). Embora uma meta de inflação mais baixa se traduza em juros nominais mais baixos, os juros reais aumentam. Isso porque a queda dos juros nominais (-40 p.b.) é menor do que o recuo das expectativas de inflação (-70 p.b.), resultando em juros reais mais altos (30 p.b.)", escreveram os economistas.

No relatório, a dupla faz a ressalva de que as projeções levam em conta uma política monetária crível. Caso contrário, eles acreditam que uma redução da meta de inflação não se traduzirá em projeções de inflação mais baixas. "Nesse caso, as expectativas ficam consistentemente acima da meta estabelecida pelo CMN, pressionando os juros nominais e reais", alegam.

Ao final do texto, os economistas do Itaú ressaltam a oportunidade que o momento representa para o Brasil e o teste de credibilidade que o novo desafio poderia representar à equipe do ex-chefe da casa, Ilan Goldfajn. "O país deve aproveitar este momento para renovar seu compromisso de buscar inflação mais baixa, ou seja, para reduzir a meta de inflação. A meta mais baixa não limita a queda dos juros. Pelo contrário, se houver credibilidade perfeita, isso se traduz em inflação e juros nominais mais baixos, ainda que, no curto prazo, os juros reais possam aumentar", concluíram.

Ilan Goldfajn
(Bloomberg)

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