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O que está por trás da primeira coletiva de imprensa de Donald Trump após a eleição?

Em meio a notícias negativas recentes, presidente eleito dos Estados Unidos concentra discurso na própria defesa, no ataque a adversários políticos e na demarcação de prioridades estabelecidas durante a campanha

SÃO PAULO - A primeira entrevista coletiva de Donald Trump após ser eleito presidente dos Estados Unidos foi marcada por uma preocupação defensiva do republicano com os possíveis efeitos de uma agenda negativa que se impôs nos últimos dias, a demarcação de prioridades estabelecidas durante a campanha e uma falta de clareza acerca de como serão as políticas efetivas do governo que se inicia em 20 de janeiro. Essa é a leitura que faz a cientista política Denilde Holzhacker, professora do curso de Relações Internacionais da ESPM.

Em seu discurso, o magnata reconheceu pela primeira vez a possibilidade de a Rússia estar por trás dos ciberataques realizados contra alvos do partido democrata durante a corrida presidencial norte-americana, embora depois tenha dito que talvez outros países também tenham se envolvido em episódios dessa magnitude. A nova posição do presidente eleito ocorre cinco dias após investigação dos serviços de inteligência dos EUA apontar para uma tentativa do presidente russo, Vladimir Putin, de ajudar Trump a vencer o pleito.

"Ao mesmo tempo em que admite a possível responsabilidade dos russos por hackear, ele expande isso ao dizer que outros países também têm feito, o que também abre campo para um olhar sobre a China", observou a professora. "Ele quer tirar o foco eleitoral e diminuir as fragilidades antes de o processo ganhar força, para uma discussão mais ampla sobre segurança e ciberataques". Para ela, a coletiva marcou uma tentativa do presidente eleito mostrar que não tem nenhuma relação direta com a discussão e até a oportunidade para uma nova acusação direta contra os democratas e um possível sistema mais aberto e inseguro.

Em outro flanco de defesa do ponto de vista jurídico, a oratória do republicano focou no distanciamento da gestão de suas empresas. A ideia da transferência do comando das companhias para um truste gerido por seus filhos tem o objetivo de transmitir uma imagem de lisura e afastamento, em resposta às críticas sobre possíveis desvios de finalidade durante o exercício das funções presidenciais.

Na avaliação da internacionalista, Trump também agiu de modo coerente com o perfil que construiu durante a campanha eleitoral, através de duros ataques a seus adversários políticos. Além dos próprios democratas, a relação tensa com jornalistas também ficou evidente em alguns momentos da entrevista, que teve como pano de fundo a divulgação por parte da imprensa na véspera de um dossiê que mencionava informações comprometedoras envolvendo o magnata. Durante a coletiva, Trump impediu que o repórter James Acosta, da CNN, fizesse uma pergunta, alegando que eles disseminavam notícias falsas.

Em dois aspectos principais o republicano adotou postura ofensiva: em nível doméstico, na confirmação de que mudanças serão tomadas no Obamacare logo no início de sua gestão, ao passo que, do ponto de vista externo, a construção de um muro na fronteira com o México voltou ao discurso, em uma sinalização de que aquilo não seria apenas uma posição do "Trump candidato", mas também do novo presidente norte-americano.

No exercício da comparação com o discurso proferido após o resultado das eleições, a professora diz que houve uma alteração de postura. O tom, em certa dose, conciliador deu espaço à volta dos ataques aos adversários. "A posição mudou. O discurso de vitória é para atrair todos os lados da sociedade. Nessa coletiva, ele tentou demarcar prioridades. Trump assumiu um pouco o discurso da campanha, mas para sinalizar as prioridades", analisou. Em contrapartida, ela diz que esperava sinalizações um pouco mais claras acerca das políticas a serem implementadas durante o governo. "As posições ainda são muito genéricas. Enquanto o secretariado não estiver todo estabelecido, teremos indefinições".

Apesar disso, Denilde Holzhacker esboça um prognóstico para o campo da política externa: "Claramente será menos preocupada com uma ação internacionalista, mas sim com os efeitos para a sociedade americana. Mas o quanto ela vai ser isolacionista, acho que há pouca margem para isso. De alguma forma, ele terá de negociar com outros parceiros". A especialista observa claramente um governo de contestação, em que possivelmente haverá uma política externa marcada por tentativa de maior preponderância, sobretudo em áreas como segurança, combate ao terrorismo e economia.

De todo modo, o cenário ainda é nebuloso: "Trump é um negociador de soma zero: ou ganha tudo ou perde tudo". Os efeitos da nova conjuntura ainda permanecerão uma incógnita pelos próximos dias.

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(Shutterstock)

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