Petrobras pode perder domínio em leilões na 11ª rodada da ANP

Provável atuação mais discreta da estatal está relacionada à situação financeira da companhia, comprometida com um vultoso plano de investimento
Por Reuters  
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RIO DE JANEIRO - O protagonismo da Petrobras observado nos últimos leilões de blocos de petróleo e gás promovidos pelo governo brasileiro não deverá se repetir na 11ª rodada, marcada para maio, abrindo espaço para uma maior participação de empresas estrangeiras e outras nacionais de menor porte.

A provável atuação mais discreta da estatal está relacionada à situação financeira da companhia, comprometida com um vultoso plano de investimento, com a necessidade da empresa de finalizar projetos em curso e com a primeira rodada do pré-sal, que será realizada também este ano, que obrigatoriamente demandará grandes recursos da petrolífera, disseram especialistas na área.

"Se prevalecer a lógica do ponto de vista da racionalidade econômica, pode se esperar uma atuação discreta da Petrobras (na rodada de maio)", disse à Reuters o especialista de petróleo e gás Adriano Pires, do Centro Brasileiro de Infraestrutura (Cbie).

Desde a quebra do monopólio da estatal em 1998 e a criação do modelo de rodadas de licitação de áreas de exploração de petróleo, a Petrobras teve uma atuação dominante nos leilões para fazer frente à nova realidade de mercado e aumentar a produção.

O protagonismo da Petrobras foi dividido uma única vez, em 2007, na licitação de blocos da 9ª rodada, quando o empresário Eike Batista decidiu entrar no segmento de petróleo por meio da então novata OGX. A empresa do bilionário desembolsou cerca de 1,5 bilhão de reais por 21 blocos e foi responsável pelo maior lance por uma área, no valor de 344 milhões de reais, na Bacia de Santos.

A rodada de 14 e 15 maio, a primeira desde 2008 no país, teve um número recorde de 64 empresas habilitadas, de um total de 71 companhias de 18 países que mostraram interesse na licitação, que tem como maior chamariz áreas na chamada margem equatorial, uma nova fronteira do petróleo com semelhanças geológicas de blocos bem-sucedidos na Guiana e costa oeste africana.

"Há grande interesse e motivação das companhias inscritas na 11ª rodada, as empresas estão estudando e desenvolvendo seus planos de ação...", disse à Reuters o presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP), João Carlos de Luca.

MENOR APETITE DA PETROBRAS

Para uma fonte da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), sinais de que o apetite da Petrobras na 11ª rodada pode ser menor foram dados já no processo de habilitação da companhia. A estatal só apresentou sua proposta à ANP no penúltimo dia antes do prazo final fixado pela autarquia.

"Eles entraram no final do prazo e criou uma certa apreensão, não posso negar. Não sei se isso é simbólico", disse à Reuters uma fonte da ANP, pedindo para não ser identificada. "A Petrobras é e sempre será o nosso grande player, mas temos que ver como ela vai calcular seu risco nesse atual momento", acrescentou.

Dentro da estatal, as indicações são de uma atuação mais cautelosa na 11ª rodada. A própria presidente da Petrobras, Maria das Graças Foster, disse recentemente em evento no Rio de Janeiro que a companhia, que separou recursos para os leilões, traçou "cenários mais realistas para a 11ª rodada".

A eventual participação mais seletiva da Petrobras abriria espaço para uma atuação mais efetiva de outras empresas, internacionais ou de menor expressão no Brasil.

As participações de grandes petrolíferas como Shell e Exxon são aguardadas com expectativa, disseram especialistas.

"Para a Shell, eu acho que faz sentido entrar firme porque tem tradição de Brasil e eles estão aqui há muito tempo. A Exxon Mobil é uma incógnita", disse Pires, do Cbie.

Na quinta-feira, o presidente global da Shell, Peter Voser, visitou a presidente Dilma Rousseff e manifestou interesse nos leilões da ANP.

OUTRAS PRIORIDADES

Apesar de a 11ª rodada marcar a retomada dos leilões depois de quatro anos, a Petrobras tem outras prioridades. Neste ano está previsto o primeiro leilão do pré-sal, em novembro, no qual a lei determina que a estatal seja a operadora única, com ao menos 30 por cento de participação, o que demandará investimentos na mesma proporção.

Além disso, está previsto ainda um terceiro leilão, em outubro, para a exploração de gás não convencional.

"Isso vai exigir um esforço grande da Petrobras de todos os lados", afirmou o executivo do IBP.

Somente em lances na rodada do pré-sal, por exemplo, os dispêndios poderiam atingir ao menos 1 bilhão de dólares, segundo expectativa de uma fonte da ANP. Mas os investimentos não se limitariam aos gastos com a licitação: os ganhadores terão que dispor de recursos para plataformas, sondas e funcionários para o desenvolvimento.

Não bastassem esses desafios, a Petrobras precisa concluir projetos das mais diversas áreas que estão com cronograma atrasado. Além disso, a companhia está também focada na recuperação da produção. Essa meta ficou clara no Plano de Negócios de cinco anos de 236,7 bilhões de dólares, atualizado recentemente.

Procurada, a Petrobras não quis comentar a sua estratégia para a 11ª rodada.

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