Mundo se encaminha para crise muito pior que 2008, afirma gestor

Legislação e clima político e econômico norte-americano devem atrapalhar desenvolvimento econômico mundial
Por Felipe Moreno  
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SÃO PAULO - Ainda imersos nos efeitos da crise financeira de 2008, os Estados Unidos estão há anos tentando recuperar o ritmo de crescimento econômico, que permanece lento. Contudo, Paul Singer, CEO (Chief Executive Officer) da Elliott Management alerta: é possível que o mundo se veja em uma crise ainda pior que a anterior por conta da legislação norte-americana e do clima político e econômico por lá.

Além dos problemas na Europa ressaltados pelo gestor, os EUA também devem ser ponto para grande preocupação por parte dos investidores. Para ele, o Dodd-Frank Act, que visa legislar sobre o setor financeiro do país, tem o potencial de criar uma bolha no sistema muito pior que aquela de 2008: enquanto a anterior foi episódica e levou um tempo para se iniciar, esta deve se tornar um buraco negro. "A legislação não deve avançar no objetivo de criar um sistema financeiro sólido", afirma.

Ele destaca que se a crise na Europa escalar para uma crise bancária global, isso deve se tornar um assunto bem cedo. "Sob essa legislação, bancos perderam seu poder e incentivo de emprestar e aumentar taxas de negócios como quiserem, e se tornaram vassalos do governo", salienta. Singer avalia que a existência de regras que impedem, efetivamente, os bancos de "quebrarem" da maneira tradicional estimula os bancos a agirem de modo irresponsável, assim como o estímulo do mercado imobiliário da última década ajudou a criar a crise de 2008.

O crescimento de importância dos derivativos nos balanços dos bancos é ainda mais danoso, já que por conta disso, os bancos norte-americanos estão muito mais alavancados do que realmente afirmam. Como resultado, fica muito difícil de prever o perigo que elas passam em caso de um risco sistêmico. "Antigamente podia-se entender o risco que essas instituições passavam através da teleconferência com os diretores. Hoje, nem eles entendem", afirma.

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Investir é incerto
Em um cenário como esse, investir passou a ser um dos maiores desafios recentes. "No mundo incerto como hoje, e pensando para frente, padrões históricos de lucro e crescimento de dividendos não devem ser bons guias no futuro", avalia o gestor. Ele destaca que os investimentos nunca foram tão afetados pelo ambiente macroeconômico quanto atualmente, e qualquer  mudança de política pode criar grandes mudanças. "A variedade de políticas governamentais é imensa", destaca. 

O clima político atrapalha bastante. Singer afirma que até a retórica do presidente Barack Obama tem atrapalhado o mercado. Além de um quê de luta de classes, o discurso "coletivista" do presidente democrata é especialmente prejudicial ao empreendedorismo dos norte-americanos. "Parece que você não é responsável por nada que cria, sem se importar o esforço que você fez para criar", avisa o gestor. 

Para ele, a atual política tem sido contrária ao que se pretende, já que taxar os ricos, aqueles que possuem excedente para investir e criar crescimento, riqueza e empregos, não é uma política de crescimento."O impacto no crescimento e empregos já é visível, mas a fuga de capitais deve se intensificar se as políticas e a retórica não mudarem", avisa. 

País precisa de reformas
Singer destaca que os Estados Unidos precisam de diversas reformas para recobrar o crescimento, sobretudo no sistema de segurança social, ajuda médica e pensões governamentais. Caso não passem por uma reforma, o país não vai conseguir realizar suas promessas como prometido, a despeito do crescimento futuro ou do aumento de impostos. "Isso é fruto de uma forma de corrupção. Políticos fazem promessas grandes em trocas de votos mesmo se as promessas são fantasiosas", avisa. 

Os políticos norte-americanos não têm feito nada para conseguir resolver essa situação. Ele acredita que é provável que o mercado os faça agir, depois que houver uma perda de confiança nos títulos de dívida norte-americanas. "Mas os políticos acreditam que se os mercados ainda não viraram os olhos para essa insolvência de US$ 70 trilhões ontem, não devam fazer amanhã", salienta.

As estruturas de estagnação norte-americana, Singer acredita, começaram a surgir já faz algumas décadas, mas foram escondidas por duas bolhas seguidas. Para ele, incompetência por parte de executivos, sindicatos fortes e um governo displicente ajudaram a formar esses problemas. "Atualmente, o país é hostil à propriedade privada, riqueza e lucros", finaliza o gestor da Elliot Management.  

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