Corinthians se prepara para abrir capital, afirma ex-presidente do clube

Alternativa seria interessante para que clubes conseguissem se livrar das enormes dívidas, fortalecendo o futebol brasileiro
Por Felipe Moreno  
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SÃO PAULO - O Corinthians, um dos times de maior torcida no Brasil, pode se tornar também uma das ações mais populares da bolsa. O clube está se preparando para abrir o capital, de acordo com Waldemar Pires, ex-presidente do clube na época da Democracia Corinthiana e atual conselheiro vitalício e membro nato do Cori. Para ele, essa pode ser uma alternativa interessante para que o clube se capitalize e consiga vencer obstáculos presentes a praticamente todos os times nacionais.

"Um clube de futebol bem administrado dá lucro, e isso [o IPO] pode ser uma alternativa viável para o investidor", afirma o empresário, dono da Walpires Corretora.

O time alvinegro não seria o primeiro grande clube a ter o capital aberto: Arsenal, Juventus e FC Kobenhaven são alguns dos exemplos mundo afora. Recentemente, o Manchester United, o maior campeão inglês, iniciou o processo de abertura de capital na Nyse (New York Stock Exchange), em uma oferta que deverá totalizar US$ 330 milhões.

Clube se beneficia imensamente 
O maior beneficiado pelo IPO seria o próprio time. "A abertura de capital possibilitaria que os times quitassem seus empréstimos em banco", afirma Pires. Essas antigas captações são tidas como uma das grandes chagas para os clubes. Atualmente na casa dos milhões de reais, várias dívidas estrangulam o caixa das agremiações.

"Todos os times estão devendo em bancos e têm empréstimos com juros muito altos. Então a dívida é cada vez maior", afirma Pires. Essa é a motivação também do Manchester United, que procura nos investidores norte-americanos a saída para as volumosas dívidas contraídas na última década.

Menos corrupção, mais transparência
A corrupção, embora dificilmente provada, também marca a tônica do futebol brasileiro. Antigos presidentes de alguns times já foram acusados de contratar dívidas indevidas com as próprias empresas como forma de manter a influência na direção do clube. Outros mandatários são acusados de embolsar dinheiro com a venda de atletas. "A abertura de capital melhora a transparência dos clubes, através da contabilidade mais aberta. Mas o Corinthians já faz isso, publica seus balanços regularmente", lembra Pires.

Além disso, o fator político existente em diversos clubes colabora para o alto endividamento: dirigentes preocupados em registrar bom desempenho em campo pegam empréstimos para manter estruturas "fantasiosas" - deixando um triste legado para seus sucessores. 

Pires aponta outro problema para os times, a ser sanado com a abertura de capital: a dependência dos empresários. "Às vezes um clube vende um jogador e fica com quase nada do dinheiro. O empresário fica com 70%, 80% e isso é muito ruim para o time", salienta o ex-presidente do Corinthians. Ele lembra do caso do volante Paulinho, um dos destaques do time na conquista da inédita Taça Libertadores em 2012, cujo passe não pertencia ao clube e precisou ser comprado.

Sócio-torcedor
O futebol é um mundo de paixões: não raramente, um torcedor escolhe seu time quando pequeno e carrega esse amor até a morte. Essa passionalidade pode ajudar no momento do IPO (Initial Public Offering). "As ações do Corinthians, do Flamengo e de outros clubes seriam vendidas facilmente. Que corinthiano não quer ter 100 ou 1.000 ações de seu time?", pergunta Pires.

O torcedor-acionista possui grandes vantagens em relação aos atuais: ele ganha maior poder de fiscalização sobre o próprio clube. "O sócio-acionista pode fiscalizar o clube", afirma. Deter uma parte de seu clube seria importante, e Pires acredita que os times de grande torcida no País possuem potencial. "Seria um grande sucesso", afirma.

Um clube de futebol possui diversos ativos: estádio, centro de treinamento e sobretudo, jogadores. Isso alinha o interesse do investidor com o do torcedor - que gosta que de ver o lucro do seu time ser reinvestido no plantel. "Ao reaplicar a quantia de novo, você esta investindo nos ativos do próprio time", avalia o empresário. 

Próximo passo é fundo
O IPO, porém, é uma longa caminhada a ser percorrida por qualquer empresa. O ex-presidente afirma que não há uma data planejada para isso. "Está tudo acontecendo tão rápido. O próximo passo pode ser um fundo para comprar jogadores, mas isso não é uma coisa para os pequenos investidores, e sim para grandes investidores", afirma.

Se os ganhos econômicos do Brasil na última década contribuíram para o fortalecimento do futebol brasileiro, iniciativas como esta podem trazer cada vez mais dinheiro para os clubes nacionais, o que daria a chance de eles se reforçarem com jogadores melhores, entrando em um círculo virtuoso de crescimento. Será que poderemos comprar ações na bolsa dos clubes de nossos corações um dia? "Esse é o futuro", conclui Pires.

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