SÃO PAULO - A reação dos papéis da Petrobras (PETR3, PETR4) ao anúncio do preço do barril de petróleo que será utilizado na cessão onerosa de reservas da União à estatal pode ser explicada por um movimento marcante: a corrida pelas ações para cobrir posições a descoberto, como investidores vendidos em papéis da companhia, com o aluguel de ações.
Nesse tipo de operação, o investidor aluga o papel, o vende, apostando que irá recomprá-lo no futuro a um preço mais barato, embolsando assim o lucro com essa diferença na hora da devolução do ativo. "Tem gente fazendo isso desde que a Petrobras estava em R$ 39", comenta Edgar Tamaki, estrategista da TCX. Assim, essa parte do mercado prefere adquirir o ativo agora, até mesmo porque "não é mais hora de operar vendido" com os papéis da empresa, sugere o estrategista, por pior que seja a oferta pública de ações.
Assim, no curtíssimo prazo - uma ou duas semanas -, as ações devem ser impactadas por uma pressão compradora, em função do pessoal que estava operando dessa forma, diz Tamaki. Já para o curto prazo, que pode ser encarado como o próximo mês, tempo estimado para que a capitalização seja concluída, a visão é outra.
Curto prazo
Para Pedro Galdi, estrategista-chefe da SLW, algumas incertezas finalmente foram dissipadas: o preço do barril de petróleo, que ficará em média em US$ 8,51 por boe (barril de óleo equivalente), foi divulgado, assim como o volume (4,99 bilhões de barris).
Além disso, de acordo com o prospecto da oferta primaria de ações enviado à CVM (Comissão de Valores Mobiliários) nessa sexta-feira (3), a captação deve alcançar R$ 110,8 bilhões com a oferta inicial (sem os lotes adicional e suplementar), com preço por ação ordinária de R$ 31,25 e preço por ação preferencial de R$ 27,03, o que corresponde às cotações de fechamento das ações ON e ações PN de emissão da Petrobras na BM&F Bovespa em 1º de setembro de 2010. Esses dados, em sua opinião, ainda podem gerar volatilidade para o papel.
Investidores estrangeiros têm que ser convencidos
Para Edgar Tamaki, as ações podem ser pressionadas nesse horizonte, já que o processo de road show, em que os coordenadores apresentam a oferta às instituições e investidores, deve começar em breve, com foco no mercado estrangeiro. Aqui, o estrategista da TCX vê dois incovenientes.
Um é o fato de que o megainvestidor George Soror desmontou, recentemente, sua posição nos papéis da companhia, o que não foi bem visto pelo mercado. Além disso, o mercado de capitais lá fora não passa por um momento favorável, com grande aversão ao risco em função das dúvidas em relação à recuperação da economia norte-americana.
Para completar, há o problema enfrentado pela inglesa BP no Golfo do México, com o vazamento de óleo que causou o maior desastre natural da história dos EUA. Como a Petrobras também vai perfurar em águas profundas, diz Tamaki, a possibilidade de um novo incidente não pode ser completamente afastada, embora indique que no momento essa é uma preocupação mais marginal.
Longo prazo
Assim, o sucesso da oferta "vai depender da capacidade dos coordenadores de venderem a ideia, para que haja demanda", diz o estrategista, já que o tamanho da capitalização, que deve ser recorde global, é bastante expressivo. Se der certo, é justamente a capitalização que poderá dar força para que o Ibovespa se descole das bolsas norte-americanas e tenha um trimestre mais positivo, avalia Tamaki.
Galdi também avalia que a expectativa é de recuperação, já que a companhia perdeu cerca de um quarto do seu valor de mercado em função das incertezas envolvendo o processo. Desse modo, as ações poderiam levar o índice a recuperar o patamares anteriores à crise, ultrapassando assim a barreira dos 73 mil pontos.