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Heranças da crise: a deterioração fiscal na Grécia, no mundo...e no Brasil

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29 de abril de 2010 • 19h17 Por: Nathália A. Terra Pereira

SÃO PAULO – Afinal, qual a dimensão da crise fiscal que acomete o núcleo da economia mundial? E qual seu impacto sobre o Brasil? O tema inspirou painel sobre o cenário econômico no “12º Seminário Perspectivas da Economia Brasileira”, realizado pela Tendências Consultoria nesta quinta-feira (29), evento que também contou com painel político sobre perspectivas sobre as eleições.

Preocupações quanto à saúde fiscal de diversos países ao redor do mundo não são de hoje. Existentes até mesmo antes da crise financeira, elas cresceram junto com o crescimento também das dívidas públicas de governos como o norte-americano, britânico e outros, impelidos a formularem pacotes bilionários de combate à recessão econômica.

“Isto não significa que tais resgates e medidas não devessem ter sido realizados. Pelo contrário, foram muito importantes para evitar que a crise tomasse proporções ainda maiores. O problema é que, antes da crise, já havia um quadro fiscal muito frágil em muitos países, como a Grécia, por exemplo”, diz Rogério Werneck, professor da Faculdade de Economia da PUC–Rio.

Crise fiscal
A Grécia concentra as maiores preocupações de governantes, economistas e investidores, estando quase que diariamente no noticiário. Entretanto, como alerta Werneck, o país é apenas um entre muitos com perfis fiscais problemáticos. “E não estou falando apenas de Espanha, Irlanda, etc. Estou falando de EUA, Japão, entre outros países centrais à economia mundial”, afirma.

Os enormes gastos com pacotes de combate à crise certamente agravaram ainda mais a situação, mas “muitos problemas já estavam colocados muito antes, como o envelhecimento da população, que traz maiores despesas com previdência e saúde, altas cargas tributárias e excessos advindos da prolongada facilidade de endividamento público, dadas taxas de juros muito baixas”, analisa Werneck.

A situação na Europa, entretanto, parece a Werneck um tanto quanto mais intrincada. “A gestão macroeconômica política na Europa é muito complexa para ser coordenada de forma eficaz”, diz o professor, que conclui: “esse é o maior desafio à União Europeia atualmente”.

Desafio que não tem fácil solução. Para o professor da Faculdade de Economia da PUC–Rio, um primeiro passo seria implementar profundas reformas da previdência e saúde nos países com perfil de envelhecimento demográfico. Outro seria, quando concretizada a recuperação econômica, adotar um rígido programa de contenção fiscal. “Mas aí o complicado é convencer o mercado de que isto, de fato, será feito no futuro, apesar de justamente o oposto estar sendo aplicado no presente”.

O Brasil
Enquanto muitos países lá fora sofreram com recessões e falências históricas, o Brasil atravessou a crise de forma relativamente serena. “Não é difícil saber porquê: bons indicadores econômicos, grandes reservas, uma atuação sólida do Banco Central e um cenário político e institucional mais amadurecido são apenas alguns dos fatores”, diz Werneck.

No entanto, para o professor, é errada a noção de que nada mudou no País com a crise financeira. “O governo viu na crise um pretexto para retroceder no âmbito fiscal”, critica Werneck, que vê nos últimos anos um “extensivo e generalizado afrouxamento de restrições orçamentárias, com vertiginosa expansão do crédito estatal subsidiada por emissões do Tesouro, que uma hora ou outra, terão seu impacto na economia do País”.

Para Werneck, esse afrouxamento na austeridade fiscal do governo conta com uma complacência dos mercados, razão pela qual vem passando relativamente desapercebida por muitos. “O mercado olha e fala: ah, a Grécia está muito pior, então tudo bem”, polemiza Werneck, que conclui: “o desafio ao próximo governo é restaurar a gestão responsável na política fiscal”.

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