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Dólar a R$ 3,00? É possível, mas "parece muito bom para ser verdade", diz analista

Analista da Wagner Investimentos alerta para cenário de queda do dólar: "mercado parece muito otimista. Há riscos externos e internos"

Dólar
(Shutterstock)

SÃO PAULO - Ainda antes do Natal, o mercado entrou em uma onda de otimismo, que levou o Ibovespa a subir por doze pregões seguidos e fez o dólar sair dos R$ 3,33 e se aproximar da casa dos R$ 3,20. E apesar de algumas notícias positivas e do alívio com a política, analistas tem alertado para este forte movimento do câmbio como algo que pode ser um pouco exagerado pelos investidores.

A principal questão é que existem muitos fatores de risco para a economia nos próximos meses, principalmente com as eleições. Segundo José Faria Júnior, diretor da Wagner Investimentos, não há como esperar uma linearidade no dólar para este ano. "Na verdade estou muito desconfortável porque o mercado parece muito otimista. Há riscos externos e internos", afirma.

Faria explica que, além das eleições, já neste começo de ano existem dois eventos que podem tomar diversos rumos: julgamento de Lula no TRF4 e a reforma da Previdência. Para ele, por exemplo, as o ex-presidente for condenado e o texto da reforma for aprovado, o dólar poderá retornar aos níveis mínimos do ano passado, perto de R$ 3,00.

"E, se um candidato de centro surgir e animar o eleitorado, então a cotação ficará mais perto da faixa de R$ 3,10 a R$ 3,15", explica o analista. Por outro lado, ele acredita que "isto parece ser muito bom para ser verdade", alertando para uma boa oportunidade que pode surgir nos próximos dias: "acredito que deveremos ter uma oportunidade de compra nos próximos dias com TRF4 e Previdência, mesmo que ela não seja aprovada, notícias favoráveis poderão derrubar a cotação do dólar".

Por outro lado, Faria acredita que nos próximos meses a cotação da moeda norte-americana deve retomar o cenário de alta de olho na corrida eleitoral. Ele evita fazer uma projeção mais longa porque são muitos eventos imprevisíveis, mas acredita que uma cotação na faixa de R$ 3,15 ou menos é "bom para compra".

Então por que o dólar cai?
Faria aponta ainda alguns fatores que ajudam a entender a recente queda da moeda norte-americana, principalmente no cenário econômico. "A inflação deverá seguir benigna neste ano e vemos volume importante de captações no primeiro quadrimestre do ano, quando a política tende a pesar menos no cenário", explica. Vale lembrar que estes fluxos ajudam a "inundar" o mercado, puxando as cotações para baixo.

Enquanto isso, o ambiente de alta das commodities e um bom quadro de calmaria projetada para as próximas semanas, também aliviam possíveis pressões. "Se o Fed não subir os juros mais do 3 vezes e se a taxa de juro dos Treasuries de 10 anos subir até uns 2,80%, não deveremos ter maiores consequências internas", afirma o analista. "Além disto, o crescimento global mais forte fortalece as commodities, fato que é benéfico para o real", completa.

Por falar em cenário externo, Faria aponta, além da questão de quantas altas de juros o Federal Reserve fará (com seus diretores divididos entre menos da atual projeção de 3 e alguns até querendo 4 ou mais elevações), também para os programas de estímulo na Europa e Japão. Segundo ele, mesmo que o Banco Central Europeu e o Banco do Japão continuem a injetar dinheiro na economia, o volume será menor, indicando menor liquidez.

Por fim, o analista faz ainda um alerta para o risco país, que segue em suas mínimas desde 2014. "Nosso CDS de 5 anos se aproxima de incríveis 140 pontos-base, muito baixo para um país que está em risco de tomar outro rebaixamento de rating ainda este ano", afirma. Este é um fator que tem ajudado a refletir o atual otimismo do mercado, mas serve como ponto de atenção, já que os fatores não justificam um cenário tão bom assim. "Assim, é importante acompanhar o seu desenvolvimento", completa Faria.

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