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Didi "Agulhada" Aguiar, o surfista da Bolsa

Odir Aguiar construiu a reputação de ser um dos principais gurus da análise técnica no Brasil, mas gosta mesmo é da boa vida na praia

Revista InfoMoney 42 Didi Agulhada

SÃO PAULO - A vida de um profissional do mercado financeiro parece envolver mais estresse do que diversão. Mas não para o analista técnico Odir Aguiar, conhecido como Didi Agulhada. Em 35 anos de mercado, Didi sempre dividiu seu tempo de trabalho entre o computador e a prancha.

Conhecido por sua visão aguçada para ganhar dinheiro e pelas palestras debochadas, hoje admite que já teve fama de “vagabundo”. No início, acordava às 5h para surfar antes da abertura do pregão e costumava trabalhar alguns meses e, assim que juntava dinheiro suficiente, chutava o emprego para curtir algumas semanas de lazer na praia.

“Ganhava US$ 300 mil e ia morar na praia. Quando voltava, porque tinha acabado o dinheiro, ninguém queria me dar emprego, porque sabia que eu ia sair em dois ou três meses”, conta.

Quando as oportunidades de trabalho começaram a escassear, decidiu montar a própria empresa. “Foi minha sorte.” Há 12 anos, ele abandonou as constantes fugas para a praia, mas o jeito despojado de trabalhar continua o mesmo, garantem amigos próximos ao analista.

A sorte de iniciante que virou profissão
Filho de militar, aos 20 anos ouviu do pai a pergunta sobre o que pretendia fazer da vida. “Fui a uma metalúrgica para ver se eu queria ser engenheiro mecânico e fui à Credisul [corretora na qual começou no mercado financeiro, como estagiário].” Na corretora, se encantou com as oportunidades de ganhar dinheiro e deixou de lado os diplomas de engenheiro civil e administrador – que confessa não terem servido para nada.

Atitude e disciplina são os adjetivos que Didi aponta como suas estratégias para ganhar dinheiro. Para ele, não é preciso estar em um determinado lugar para operar. Seja na praia, seja no escritório, o importante é olhar o gráfico e conhecer as operações.

O polêmico despojamento
Didi é elogiado por muitos, mas sua forma de trabalhar não é aceita com unanimidade entre os colegas de profissão, principalmente por estabelecer a análise gráfica como única referência de mercado. Aos críticos, costuma responder com agulhadas na análise fundamentalista. O grafista diz que nunca considera os dados de balanços de empresas em suas operações. “É preciso saber comprar e saber vender”, resume.

Constantemente é visto ministrando palestras de camisas floridas e tênis. Gírias e palavrões fazem parte de seu vocabulário. Alguns veem seu despojamento como exagero. “Sou contrário não a sua análise, mas à forma com que ele se direciona aos investidores”, revela um colega de profissão que pediu para não ser identificado.

Carlos Augusto Dale, que acompanha sua a carreira desde o início, diz que seu jeito inusitado de trabalhar não tira sua credibilidade e capacidade de fazer dinheiro na Bolsa. “Tecnicamente ele é respeitado por muitos traders”, afirma.

“Ele fala na cara, é objetivo. Essa é a diferença entre o Didi e os outros profissionais”, defende o amigo Sérgio Batista, que trabalha com ele atualmente.

Fernando Góes, que trabalhou com ele há quase dez anos, se revela um admirador de sua facilidade em ganhar dinheiro, mas acredita que a maneira dele de lidar com os gráficos – e ao mesmo tempo levar uma vida mais tranquila – não se encaixa no perfil de qualquer pessoa.

Saudades e conquistas
Mesmo afirmando que não existe mercado ruim e que consegue ganhar dinheiro até hoje no mercado de ações por meio da análise gráfica, Didi confessa que os dias já foram melhores para operar.

A grande entrada de estrangeiros na Bolsa, com um arsenal de tecnologia, algoritmos e operações automatizadas, aumentou a competição e reduziu as oportunidades de ganhos nas operações. “Hoje realmente está mais complicado, porque é tudo regulado. E obviamente as oportunidades de ganhar dinheiro são diferentes das que havia antes.”

Atualmente, as maiores oportunidades para ele estão nas operações de curto prazo. Os tempos de idas à praia de manhã também ficaram na memória. Hoje, apesar de morar no Rio de Janeiro, acorda às 5h não mais para pegar ondas, mas para olhar os gráficos.

Didi não gosta de falar sobre o quanto ganhou e o quanto acumulou, mas afirma que tem uma vida confortável. Um dos seus amigos revela que entre os seus bens está uma praia no Nordeste. Embora tenha ganhado muito, também perdeu muito. “Compraria os Estados Unidos para você com o dinheiro que perdi”, diz ele em meio a risos. Não há surfista que de vez em quando não leve um caldo.

Em defesa da análise gráfica
Ególatra, o grafista diz ter criado o Didi Índex, que teria lhe permitido ganhar muito dinheiro. Explicando o indicador que ele mesmo criou, afirma que o índice nada mais é do que um gráfico de médias móveis retirado do gráfico de barras. “O gráfico de médias móveis rolava em cima do gráfico de barras. Então era complicado, saía coisa errada, mas agora não mais.”

Para alguns analistas, o índice não traz grande novidade em relação aos demais métodos aplicados no mercado, e é apenas uma forma diferente de interpretar os números da forma que já vinha sendo feito.

Para outros, foi uma grande sacada que fez com que o analista se destacasse por usar de uma forma diferente uma análise já existente em biografias, conseguindo ganhar dinheiro com isso.

Essa matéria foi publicada na edição 42 da revista InfoMoney, referente ao bimestre janeiro/fevereiro de 2013. Para tornar-se um assinante da revista, clique aqui

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