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Importação de etanol leva a excesso de oferta no Brasil

Compras se multiplicaram por oito entre novembro fevereiro na comparação com o ano anterior 

(Bloomberg) -- Há alguns meses, alguns traders de etanol no Brasil pensaram que tinham uma boa oportunidade de lucro: importar o biocombustível barato dos EUA durante o período em que os preços domésticos estavam subindo e os estoques estavam recuando. Não deu certo.

Em vez de embolsar um lucro fácil, essas empresas terminaram inundando o mercado local. Em uma virada de mesa surpreendente para um país que é exportador líquido -- produz mais etanol do que qualquer outra nação, com exceção dos EUA --, as importações do Brasil se multiplicaram por oito nos quatro meses até fevereiro em comparação com o mesmo período do ano anterior, segundo os dados mais recentes do governo. Os preços recuaram mais de 20 por cento.

Grandes traders e distribuidoras se viram em um aperto, incluindo a Raizen, uma joint venture da Royal Dutch Shell com a Cosan; a Copersucar, que controla a empresa de comércio de biocombustíveis americana Eco-Energy; e a Biosev, uma unidade da trader Louis Dreyfus, segundo dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP). O excedente era tão grande que as usinas pediram ao governo que restabelecesse os impostos de importação.

“Alguns compradores precisaram cancelar contratos de importação para evitar mais perdas”, diz Tarcilo Rodrigues, diretor de etanol da corretora Bioagência, com sede em São Paulo.

Refino de açúcar

Durante décadas o Brasil vem produzindo combustível a partir da cana-de-açúcar para diminuir sua dependência em relação ao petróleo estrangeiro porque o país é o maior produtor mundial, utilizando em torno de metade da safra para a produção de açúcar e a outra metade para o etanol. O governo teve tanto êxito no estímulo à conversão para o combustível renovável que quase todos os carros da maior economia da América do Sul atualmente rodam com algum tipo de etanol à base de cana.

Normalmente a oferta doméstica é suficiente, mas o salto dos preços em 2015 e 2016 tornou mais atrativa a importação de etanol mais barato dos EUA, feito a partir do milho. O potencial de lucro se intensificou no fim do ano passado, quando o consumo estava reduzindo os estoques e a safra da cana ainda não havia começado.

Em novembro, as importações pareciam uma solução óbvia, especialmente depois que o declínio da produção brasileira, no ano passado, deixou os estoques menores do que o normal. O Brasil também havia eliminado um imposto de importação de 20 por cento ao etanol em 2010, medida que foi apoiada pelas usinas de cana na época, que desejavam expandir as vendas no exterior encorajando os EUA a cancelarem sua tarifa sobre o etanol importado.

A produção doméstica de etanol no período de um ano até março caiu 8 por cento porque as usinas estavam desviando uma fatia maior de sua safra de cana para a produção de açúcar bruto depois que a oferta global apertada elevou o preço do açúcar em reais para uma alta histórica. Na safra que começou neste mês, a produção provavelmente cairá 1,2 por cento, para 25,3 bilhões de litros, segundo a consultoria Datagro.

Colheita de cana
(Bloomberg)

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