Em mercados / acoes-e-indices

Não há céu sem inferno: Bloomberg rebate críticas do Papa sobre o mercado financeiro

O papa Francisco talvez não compreenda muito bem os mercados financeiros. Mas era de se esperar que alguém nessa posição entendesse melhor

Papa Francisco
(Agência Brasil)

(Bloomberg) -- O papa Francisco acredita na danação do mercado de CDS e de quem opera nele.

Na quinta-feira, ele fez um discurso sobre o mercado financeiro, argumentando que, na forma atual, exacerba a desigualdade global ao subjugar o valor do trabalho real à especulação. Não foi uma avaliação positiva de Wall Street.

Os contratos de proteção contra inadimplência (credit default swaps ou CDS) foram particularmente criticados pelo pontífice, que caracterizou o mercado de derivativos de dívidas como “deplorável da perspectiva moral” — uma forma de cassino “inaceitável do ponto de vista ético”, uma “bomba-relógio” que está “envenenando a saúde do mercado” e vai explodir “mais cedo ou mais tarde”.

Mas nem tudo está perdido. Para tementes em Wall Street que pensam que o papa tem algum entendimento do assunto, o discurso estabeleceu uma espécie de ranking no comportamento financeiro — de atos que podem trazer a salvação àqueles que justificam condenação eterna. Microcrédito e empréstimos municipais, especialmente em países emergentes, são quase piedade. O empréstimo direto é uma vocação válida. O papa dá todo apoio a instrumentos financeiros que representam patrimônio, portanto operadores de bolsa e gestores de fundos de ações têm chances de passar pelos portões de São Pedro. Já os traders que operam em alta frequência podem descer para o andar de baixo. Segundo Francisco, a negociação em alta frequência retira “capital de circulação da economia real”.

Pior ainda são todas as formas de securitização. A lógica é que a corrupção moral da atividade financeira pode ser medida pela sua distância do ativo de fato. Portanto, contratos de CDS negociados em balcão e títulos atrelados a empréstimos garantidos seriam instrumentos do diabo.

Aparentemente o papa odeia CDS por entender que não passam de uma forma de apostar em aniquilação. O problema com a hierarquia moral do papa para o mercado financeiro é que quase toda forma de investimento é uma aposta.

Aberturas de capital injetam recursos em empresas. A negociação de ações no dia a dia não.

Bill Ackman se referiu à sua posição vendida em Herbalife Nutrition como uma cruzada moral. Porém, assim como traders de CDS e todos os que vendem ações a descoberto, Ackman posicionou seus investidores para ganhar com o fracasso de uma empresa. O crédito consignado é uma das transações financeiras mais diretas, mas que muita gente não considera moral. Até o microcrédito pode ser predatório, dependendo das circunstâncias.

Tem muita coisa errada em Wall Street — mas isso não depende do mercado ou instrumento financeiro em questão.

Sim, os especuladores usam CDS, mas esses derivativos também reduzem custos de captação e permitem que países e empresas obtenham crédito que não conseguiriam de outra maneira. Um estudo publicado em 2012 concluiu que, com o amadurecimento desse mercado, os CDS passaram a ser mais usado para proteção e menos para especulação.

Já um estudo de 2014 descobriu que a existência do mercado de CDS provocou um número maior de calotes, mas provavelmente por causa da maior probabilidade de inadimplência de empresas com CDS que interessavam investidores.

Para o bem ou para o mal, compradores e vendedores são necessários. Não pode haver gente disposta a apostar dinheiro para melhorar a chance de sucesso de alguém se não houver gente apostando que vai dar errado. Assim como, no Catolicismo, não há céu se não houver inferno. O papa Francisco talvez não compreenda muito bem os mercados financeiros. Mas era de se esperar que alguém nessa posição entendesse melhor.

Quer investir em ações pagando só R$ 0,80 de corretagem? Clique aqui e abra sua conta na Clear

Contato